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a vida como ela é

Uma comédia chamada Portugal

Uma comédia chamada Portugal

Portugal é um país repleto de pequenos episódios de admirável comédia. Era assim no tempo dos Reis e das Rainhas, mantém-se a tradição que não ousamos abandonar. Vivemos na eterna dúvida se D. Sebastião volta, na saudade do Salazar misturada com a inspiração dos tempos de Abril, e na aparente certeza que Bruxelas resolve tudo. Ou quase.

Nas últimas semanas - meses, aliás, anos, talvez - sucederam-se episódios que garantem espólio para comediantes, tema para cronistas e muita actualidade para a comunicação social. Em nenhum dos casos nos preocupamos com a verdadeira raiz do problema - problemas - porque os temas são bastante variados. Na maior parte dos casos culpamos a tecnologia - que destrói empregos e substituí pessoas - ou a internet, essa vilã que apareceu para destruir a nossa sociedade e os seus valores. Em momento algum nos detemos a reflectir na neutralidade de cada um destes conceitos e instrumentos, percebendo que, afinal, há também alguma responsabilidade individual em relação ao estado das coisas.

O estado das coisas somos nós, os nossos comportamentos e atitudes: a homofobia latente que nos deixa indignados perante a confirmação - sempre o soubemos e sempre quisemos fazer de conta que não - da aparente aberração que pode ser essa relação homossexual de Egas e Becas. Como assim, afinal andavam a comer-se um ao outro?!... Um sapo e uma porca (The Muppet Show) faz tanto sentido quanto isto, e o imaginário adulto das crianças, que viam histórias de marionetas, não pode ser afectado por mais esta pequena manipulação. Cresçam. Marionetas são o melhor exemplo de manipulação ou não fossem bonecos movidos por cordéis (ou outro suporte) que uma pessoa, oculta, está a manobrar. Note-se que manobrar é sinónimo de manipular. E controlar. Fica a ideia...

Ainda sobre o estado das coisas, comportamentos e atitudes: houve um tempo em que éramos nós, um Ford T a circular na cidade e pouco mais. Não creio que Mr. Henry Ford tenha feito filas com seus veículos na avenida principal lá da cidade, quando outras empresas também começaram a produzir carros em massa, baixando o seu preço e oferecendo opções a uma classe média emergente. O que fez? Adaptou-se, inovou e continuou a trabalhar. Curiosamente, a marca ainda existe. Pode parecer estranho mas o problema dos taxistas é este, porque lhes faltou, durante muito tempo, concorrência. Acomodaram-se, cresceram em número e não em dinâmica, expansão ou serviço. Ameaça-os a obsoletização, para já nas grandes cidades, fruto da inovação. O que permitiu a criação do Ford T foi o mesmo que permite que a Uber ameace os taxistas: tecnologia. No caso, a criação de uma linha de produção, agora através de conexões que ligam pessoas a quem as pode transportar, à distância de um clique, sem braços esticados na rua, esperando que parem. Se a Uber, enquanto marca ou serviço é perfeita? Não é. Continuará, contudo, como uma potente ameaça ao monopólio dos táxis que fazem destes protestos manchas na sua imagem, ao mesmo tempo que dão negócio… à concorrência. Entretanto, acabou. Protestar  contra uma Lei depois da sua aprovação é tão fora quanto um tribunal que perdoa, e não questiona, coisas tão simples como o sentido de oportunidade de alguém com um apetite sexual voraz, considerando que a “ilicitude não é elevada”: dois homens violam mulher inconsciente na casa de banho de uma discoteca, concretamente, barman e porteiro da mesma. Mulher bebe demais. Barman acompanha-a à casa de banho. A oportunidade espreita. Chama o porteiro. Fazem a festa e esquecem-se de perguntar à mulher se quer participar. Não só é violação como é oportunismo doente e abjecto, sexo não consentido com uma espécie de saco de batatas que não se mexe. A mulher bebeu demais, consta. Também consta que estava inconsciente. Também consta que sexo não consentido se chama violação e pode dar pena de prisão. Como não se verificaram danos físicos ou violência, os dois são culpados mas não faz mal, pensa suspensa porque ninguém se magoou. É isto? Humor negro que passa uma mensagem clara: homem pode, mulher tem de comer e calar. Sexismo, misoginia, machismo, tudo o que precisa ser erradicado para uma sociedade mais justa e igualitária, aprovado por juízes porque, afinal, a mulher estava num “ambiente de sedução mútua” ou seja, uma discoteca. Gosto deste regresso ao século XIX. O ambiente de sedução existe onde se quiser, até numa discoteca mas, isso, não é sinónimo de violação na casa de banho. E porque somos mesmo conservadores, há museus que preferem a censura do politicamente correcto a mostrar obras de arte com imagens sexuais. Cubram as obras de Michelangelo, por favor.

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