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Vogue Arábia: sem preconceito e com muito bom senso

Vogue Arábia: sem preconceito e com muito bom senso

Se temos 25 lápis de cor para pintar, não vamos usar apenas uma cor

Português com um pé no mundo, foi o segundo homem a ser nomeado para dirigir uma das revistas de moda mais influentes de sempre. Manuel Arnaut, responsável pela Vogue Arábia, apaixonado pela moda e o jornalismo, fala da importância de fazermos o que gostamos, do papel do jornalismo na mudança de mentalidades e da defesa da diversidade nas revistas de moda.

 https://en.vogue.me

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Urbanista: Foi o segundo homem, na história da revista Vogue, a nomeado para a direcção de uma das edições internacionais, a Vogue Arábia. Considera-se um privilegiado ou, pelo contrário, para além do desafio, é alvo de pressão, de maior uma maior responsabilização em relação ao desempenho destas funções?

Manuel Arnaut: Hoje em dia já não sou o único diretor das edições da Vogue. Em Itália, Inglaterra, Arábia (no meu caso), Tailândia e Polónia os editores também são do sexo masculino. Na verdade, fazer uma revista de moda é, basicamente, como fazer um jornal, a questão é que o tema é moda. Por isso, quando a pessoa tem curiosidade, característica que considero mais importante para um jornalista, quando está atenta, interessada pelo que está a acontecer e se revê nas pessoas certas, não creio que o facto de ser um homem seja um problema, da mesma forma que não vejo nenhum impedimento numa mulher dirigir uma revista masculina.

U: Concorda que sempre existiu preconceito em relação ao género, posições hierárquicas, áreas e funções. Sempre se considerou que este seria um domínio das mulheres, isto é, no jornalismo as mulheres têm estado mais presentes na cultura, lifestyle, a moda… Vemos, finalmente que essas fronteiras, e supostas limitações, de facto não existem…

M.A.: Sim, não existem. No jornalismo, a moda pode ter um âmbito maioritariamente feminino, mas os mais icónicos designers são todos homens (hoje não tanto). Por isso, sempre houve um flirt entre homens e mulheres no mundo da moda. Se me perguntar, o que é que posso dizer que um homem faz diferente de uma mulher numa revista de moda? Não sei. Não tem a ver com o género, tem a ver com a pessoa, a sua visão, o gosto, as escolhas, e eu acho que essas escolhas não são determinadas pelo género. 

U: Li algures que, na sua juventude, devorava revistas de moda. Eu também, e isso foi um dos aspetos que me levou a fazer este convite para a entrevista. Chegar a esta posição é um sonho tornado realidade ou apenas um business as usual?

M.A.: É um sonho tornado realidade. Se não dissesse que ser diretor de uma revista como a Vogue não é um sonho, acho que nem merecia ter este trabalho! (gargalhada)

As coisas mudam tanto… Eu já estive desempregado, já estive numa revista masculina, já estive a colaborar, já estive na Vogue Portugal. Nós nunca sabemos as voltas que a vida dá por isso, quando se tem uma oportunidade como esta, temos que a agarrar com unhas e dentes e não ficar à sombra da bananeira. É muito fácil a pessoa chegar ao cargo de direção na Vogue e pensar “ah… agora cheguei aqui não preciso fazer mais nada”. Não, é exatamente o contrário, porque a Vogue é “A” revista. Fazer a revista mais famosa do mundo é uma grande responsabilidade, especialmente por se tratar da Vogue na Arábia. Há todo um lado sócio-cultural e que a revista também tem de cobrir. Por outro lado, as pessoas olham para nós - às vezes até comentam no meu Instagram “ah fantástica vida!”, “estás sempre a viajar!”, “amazing” - só estão a ver o nós queremos mostrar. Esquecem-se que também temos de trabalhar até às 3h da manhã porque temos de estar em simultâneo com Nova Iorque e o fuso horário é completamente diferente, não sabem que estamos a correr de um lado para o outro,  que estamos duas horas em Paris e que, oito horas depois, já estamos no Dubai. O trabalho é fantástico mas não é fácil. Se fosse fácil toda a gente o podia fazer.

U: Pensando agora no online e especialmente nos social media: hoje em dia o Instagram e o Youtube têm um papel determinante na representação da mulher. Têm alguma estratégia em particular em relação à necessidade de passar uma mensagem positiva em relação à auto-estima da mulher? Seguem essa grande tendência do “Ama-te como és”, “Love your body”, “Body positivity” e outras hashtags em circulação?

M.A.: Claro! Há um website - Fashion Spot - que todas as pessoas da indústria visitam. Este website coloca as capas das revistas em fóruns, as pessoas comentam e é muito interessante ver o que as pessoas estão a dizer das capas das revistas [consultar]. eE 2017 fizeram um estudo sobre a diversidade nas revistas femininas, analisando mais de 400 capas e a Vogue Arábia foi a revista que, nesse ano, promoveu maior diversidade cultural e racial, comparada com todas as outras capas de revistas femininas e de moda [consultar]. 

U: Fizeram-no estrategicamente ou têm essa preocupação que, por coincidência, vos levou à melhor posição nesta análise?

M.A.: Para mim não é só a questão da raça, é também da idade. Já fiz capas com mulheres de 65 anos por isso, apesar da revista ser muito regional, acredito nesta mistura cultural, de idades, formas e peso, cor da pele. Eu acho esta mistura fantástica. Fizemos a primeira capa com uma modelo a usar o hijab. Se não fosse a Vogue Arábia, quem iria fazer? Faz parte do léxico. E mesmo em Portugal, já nos cruzamos com mulheres que usam véu. Faz parte do mundo. Por isso, porque não? Acredito que, dentro de todos os tipos de corpos, todas as raças, temos que encontrar beleza. Se temos 25 lápis de cor para pintar, porque razão vamos usar apenas um?

U: O Dubai não é o mundo árabe. Como é que vocês conseguem fazer esta ligação entre o Ocidente e o Médio-Oriente, mostrando a diversidade cultural, as diferentes identidades? É óbvio que a Vogue não explora a realidade política e económica…

M.A.: Não, por acaso até exploramos. Há duas questões: o mundo árabe é muito vasto e uma mulher no Líbano veste-se de forma completamente diferente de uma mulher no Golfo. Nós tentamos responder às necessidades das duas. A região é muito diversa, as mulheres são diferentes e têm códigos igualmente diferentes, apesar de haver um DNA que une todas as pessoas. Sabemos que há limites que não devemos ultrapassar e vamos gerindo com tacto e bom senso. Por exemplo, se fazemos a revista com fotografias nas quais as modelos estão muito vestidas, com poucas partes do corpo expostas, recebemos críticas a dizer que estamos a manter o status quo ou a promover um pensamento antiquado. Contudo, prefiro esta crítica a chocar as pessoas mais conservadoras e religiosas. Creio que se formos muito agressivos numa tentativa de mudar tudo, não mudamos nada. Temos de, pouco a pouco, contribuir para o que tem que ser alterado. Ou contribuir para a discussão, fazendo as pessoas pensarem sobre os temas. A Vogue Arábia tem falado sobre a violência contra as mulheres, fizemos, por exemplo, uma reportagem sobre os Honor Killings mas, mais uma vez, temos de usar a regra do bom senso porque se fizermos algo muito escandaloso há sempre o perigo de haver repercussões negativas para a revista. Todas as notícias que se ouvem sobre o mundo árabe são negativas e há muita coisa positiva. Há mulheres verdadeiramente poderosas. O Dubai, por exemplo, tem 13 mulheres ministras, algo que não se verifica em Portugal ou na Europa, facto que é, também, revelador da mudança. Como revista temos a obrigação de apresentar os temas para debate e contribuir para esse debate. Depois, se a pessoa quer usar ou não um véu, isso é uma decisão sua, de acordo com as suas crenças e valores. As pessoas perguntam-me  muitas vezes “qual é a fórmula” e eu digo sempre: bom senso. 

 

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