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Duas razões para introduzirmos o silêncio nas nossas vidas

Duas razões para introduzirmos o silêncio nas nossas vidas

Quantas vezes nos calamos para ficarmos em silêncio connosco e o mundo?

Poucas. Vivemos assoberbados entre mensagens, likes e comentários. É difícil desligar. Habituámo-nos de tal forma a esta voracidade que se torna uma dependência cada vez mais dificil de abandonar. Mesmo que por cinco minutos. Há relatos dos que dormem com o telefone à cabeceira, permanentemente ligados. Faz mal a tudo, especialmente ao nosso sono, que existe para nos recuperar mental e fisicamente do desgaste do dia-a-dia. Para os que integraram os social media como parte do seu negócio é ainda pior.

O problema não é o FOMO (fear of missing out, de perder alguma das novidades dos que seguimos) mas antes o FOBO, um conceito que inventei agora e que poderá corresponder ao fear of being out, ou seja, de ficar de fora das actualizações que chegam ao seu feed através dos seus seguidores. Sem likes, mensagens, comentários ou visualizações, a presença nos social media torna-se irrelevante e, isso, para bloggers, youtubers, instagramers ou marcas que actuam nos social media, é a morte. Por isso é preciso estar sempre presente, actualizar a conta várias vezes ao dia e fazê-lo de forma interessante, relevante e pessoal; responder a mensagens e comentários, aplaudir para ser aplaudido. É extenuante e não tem propriamente solução à vista. Um até já pode significar um até nunca, num contexto dominado por algoritmos que viciam o jogo, viciando, também, os utilizadores. Podemos sair. Mas, depois, como chegamos ao nosso público em potencial? Com um megafone na praça principal da cidade onde vivemos? Não creio.

Já não sabemos gerir o silêncio e, por isso, quando vi a capa deste Silêncio na Era do Ruído nem espreitei a contracapa. Comprei de impulso. Erling Kagge passou 50 dias sozinho a andar pela Antárdida. O rádio que o obrigaram a levar por questões de segurança? Tirou-lhe as pilhas. 

Nesse momento pensei que gostaria de fazer o mesmo mas não iria para a Antártida porque não tenho o conhecimento ou estou fisicamente preparada para uma  expedição desta natureza. Não consegui, contudo, deixar de pensar que, se me propusesse a algo semelhante, também tiraria as pilhas ao rádio... Ou se faz, ou não se faz. Quantos conseguiriam fazer o mesmo? Ficar em silêncio, sozinhos na Antártida? O medo tolhe-nos as ideias, limita-nos o pensamento, impede-nos a acção e a primeira acção de Erling Kagge é de uma enorme coragem.

O objectivo? Ouvir o silêncio que, de acordo com o autor, pode ouvir-se em qualquer lugar, mesmo quando estamos rodeados de ruído. Explica que para tal acontecer temos de lutar contra o estado normal do nosso cérebro que é caótico, repleto de pensamentos. Ruído, portanto.

Depois de me questionar sobre as razões da escolha da Antártida, encontrei a explicação: este é, afinal, o lugar mais silêncioso do planeta, afirma Kagge, que já esteve nos dois pólos e no cume do Evereste. Se o deserto é assim, igualmente silencioso? Será que no deserto escutamos aquele som estranho e indescritivel, do calor na areia?... Não se escuta, sente-se, como um som que só existe na nossa cabeça. 

É num ambiente hostil que aprendemos a valorizar as pequenas coisas. Como o próprio Kagge reconheceu, em casa apreciava as grandes garfadas, ali, sozinho, apenas com o som dos seus próprios movimentos, aprendeu a apreciar os pormenores mais subtis, como o vento nas árvores ou o próprio silêncio da natureza que, inevitavelmente, nos aproxima de nós próprios.

Parece-me bem que precisamos todos de parar e aprender a escutar a nossa voz interior, aquela que abafamos constantemente com tantas solicitações externas. E sim, ao contrário do que estamos habituados a pensar e a fazer, considerando cada momento de pausa como uns minutos que roubamos às inúmeras tarefas que ‘temos’ de concretizar, o silêncio, apesar de assustador, pode ser altamente produtivo.

O silêncio importa, especialmente nas grandes cidades porque já não damos por ele, afectando-nos mais do que pensamos: o ruído nas ruas, o que que invade os apartamentos (sirenes, autocarros, aviões...) e os pequenos ruídos que temos dentro de casa sobre os quais nunca pensamos (electrodomésticos, computadores ...) e, mesmo quanto tiramos o som ao telefone não o deixamos em silêncio... A vibração raramente é desligada...

Esta ultra estimulação tem consequências para a saúde que ultrapassam a perda de audição afectando o nosso bem estar como fonte de stress. Mais uma, portanto.

 

O que fazer para reduzir o barulho?

1. Colocar o volume do toque do telefone no mínimo sempre que possível

2. Começar o dia à moda antiga, com um rádio despertador sintonizado numa estação de música clássica ou de notícias

3. Deitar e acordar mais cedo, espreguiçar junto à janela, respirar fundo e alongar os músculos

4. Deixar o modo não incomodar activo e as notificações inactivas até chegarmos ao trabalho

5. Ouvir melhor o que habitualmente ignoramos: o som da água no banho ou do café a ferver

6. Na rua ou nos transportes, usar auscultadores que cancelem o ruído e ouvir um podcast relaxante como, por exemplo, este (que também podem ouvir no carro)

7. Sair e caminhar, à hora de almoço ou no regresso a casa, junto ao rio, num parque, na praia ou perto de um lago. O som da água tem um poder relaxante

8. Experimentem, uma vez por semana, passar umas horas, antes de dormir, num ambiente sem electricidade, à luz das velas, ignorando notificações, o Netflix, Spotify ou qualquer outra fonte de ruído que não o crepitar de uma vela...

Porquê, então, o silêncio?

1. Para sentirmos

Silêncio não é, apenas, o contrário de ruído. É, antes, o contrário do barulho proveniente das nossas inúmeras conexões que nos mantêm socialmente vivos e vibrantes, que nos impedem de estarmos alheados do mundo virtual repleto de cor e distracções. Temos receio de abrandar porque não sabemos o que isso significa mas, principalmente, porque isso nos confronta com as nossas inseguranças e solidão. No entanto, é através do silêncio que as podemos ultrapassar, na quietude que nos permite reflectir sobre os nossos próprios problemas.

2. Para existirmos

Hoje, é o ruído que nos aproxima do outro, numa satisfação insatisfeita de mensagens que se trocam sem pensar, preenchendo os silêncios para os evitar. É através do silêncio que podemos verdadeiramente existir porque aprendemos a estar sozinhos e, por isso, percebemos melhor o sentido da palavra comunidade.

 

 

 

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