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O sorriso de um filho não tem preço

O sorriso de um filho não tem preço

Nunca me assumi como especialista na matéria e, talvez por isso, sempre que escrevo sobre o mercado de trabalho o faça com de coração aberto. Acabo de me cruzar com um artigo, já antigo, do Expresso, que revela exactamente o que venho afirmando ao longo o tempo: a escravatura moderna, a produtividade e o excesso de horas que passamos a trabalhar. O volume de trabalho excessivo, os outros que não cumprem as suas funções (ou as desempenham de forma insatisfatória prejudicando o fluxo dos processos de trabalho) ou porque, simplesmente, fica mal ser eficiente.

Quando, em França, se institui que depois do horário de trabalho não se consulta o correio electrónico, nós por cá continuamos a insistir no erro de empurrar com a barriga as tarefas que nos desagradam, a interromper o trabalho por tudo (e por nada), a adiar decisões em reuniões que, como diz a frase que circula em memes e fotografias inspiracionais, poderia ter sido um e-mail. A tecnologia não veio facilitar grande coisa. Aumentou a velocidade, e capacidade de produção, libertando-nos para fazer mais. Não necessariamente melhor.

Há vários estudos sobre o tema revelando que trabalhamos mais horas do que deveríamos e que se instituiu o (péssimo) hábito de levar trabalho para casa: porque podemos, estamos sempre conectados e, porque, ligações VPN simulam o sistema a que temos acesso no escritório.

Que bom.

Também sabemos que exemplo vem de cima, ou seja, são as chefias (provavelmente aquelas que chegam depois das 10h) que impõem verticalmente que as horas sejam dilatadas além do horário de trabalho. E aceitamos porque?...  Temos medo de perder o emprego.

Pois. O tal "deixar de fumar" de que falava a semana passada. Lembram-se?

Acontece que este fumo passivo nos está a matar: dormimos menos e, por isso, corremos maior risco de doenças cardiovasculares mas, também, exaustão, ansiedade e depressão. Para quem tem filhos, a falta de paciência é o denominador comum. Normalmente não são eles os terroristas. Somos nós que, na nossa indisponibilidade, fazemos deles pequenos terrores quando, afinal, só querem o nosso amor e atenção. Contudo, sem trabalho, não há pão. Apenas amor.

Terrível equação.

Nest quadro destacam-se os jovens, mal pagos e sem grande esperança no futuro. Muitos estão em situação de desemprego ou emprego precário. Todos os que conheço se queixam disso, dos estágios que vão acumulando, das ofertas com contratos irregulares e baixos salários. Dividem apartamentos e pouco lhes sobra para uma vida confortável. Continuam, quase aos trinta anos, a depender dos pais. Outros escapam-se lá para fora, provando que o problema não são eles, as suas capacidades ou formação mas um sistema muito dúbio de contratação e distribuição dos rendimentos nas empresas.

Depois temos os que foram despedidos numa vaga qualquer de downsizing , a par com os que ganharam coragem e largaram tudo para procurarem uma vida melhor. Não procuram mais dinheiro, nessa lógica que a sociedade instituiu de que precisamos de mostrar o nosso sucesso com base naquilo que possuímos mas a sensação de missão cumprida.

Talvez por isso existam tantas novas formas de trabalhar: os que optam por deixar as grandes empresas para se tornarem empresários em nome individual - os freelancers e empreendedores modernos -, os que agarram nas suas economias e começam a fazer o que os apaixona: do turismo à alimentação saudável, não faltam exemplos. Há, ainda, quem reaprenda a organizar as suas prioridades e transforme o que sempre lhe deu prazer para ocupar os tempos livres numa ocupação remunerada. A seguir aparecem pessoas com influência digital e grande sentido de oportunidade que reúnem estes novos pequenos empresários no mesmo espaço. Com a magia da comunicação estratégica, transformam aquilo que poderia ser apenas um ponto de encontro de pequenas marcas num happening muito cool, repleto de projectos que queremos mesmo conhecer. A seguir chegam marcas maiores e agarram na ideia para a levar ao mainstream, chegando a cada vez mais pessoas. O próximo acontece dentro de dias, no início de Março, e reúne dezenas de marcas portuguesas - que existem sobretudo nas redes sociais - para apresentarem fisicamente os seus produtos.

A ideia não é nova mas corresponde, de certa forma, à tendência de recuperação de práticas antigas: nós sempre tivemos feiras e mercados. Actualmente têm mais estilo, posicionando-se como a cena urbana mais trendy do momento. O Blog da Carlota começou há cerca de 5/6 anos quando Fernanda Ferreira Velez decidiu começar a retratar o dia-a-dia da filha Carlota. Criou o Mercadito da Carlota, com marcas maioritariamente portuguesas que vai apresentando no blog ao longo do ano. Numa lógica semelhante, o Market Stylista, organizado pela blogger Maria Guedes, resulta da sua inspiração no Coolares Market, para criar um espaço no qual as marcas nacionais, que já promovia no seu Blogue Stylista, pudessem contactar com o público.

 

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© Luis Neto

Algo semelhante acontece no próximo sábado, no Mercado NiT, no Lx Factory, em Lisboa, seguindo a lógica de transição da revista do digital para novas plataformas, e da criação de um ponto de contacto entre marcas e o seu público, muitas das quais são já habituées nestes mercados. Ou markets. As palavras estão em inglês para o texto ser propositadamente mais cool e promover a ideia que Obama protagonizou: yes we can. Podemos sim, melhorar a nossa vida fazendo mais com menos. Porque o tempo - mais ainda o sorriso de um filho - não tem preço e a nossa inspiração para a mudança pode muito bem estar num destes mercados.

Fonte da imagem de capa

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