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urbanista

a vida como ela é

Há gays no cais. No YouTube também.

Há gays no cais. No YouTube também.

No início de cada novo texto há (quase) sempre dois sentimentos que se misturam: a alegria na partilha de novas ideias e a auto-censura que nos inflige cada vez mais, fruto de um intenso (e por vezes despropositado) escrutínio, associado a uma vigilância ao estilo vigilant, aquela palavra em inglês que remete para vigília de bairro. É também nesta nova cultura de vigília e crítica constante sob a forma de anonimato, da persona digital, dos avatares ou, na sua versão mais simplista, da alcunha impenetrável, que se processam as guerras virtuais, das que atiram pedras em todas as direcções. O mundo está cheio de temas para discutirmos e nunca, como agora, tivemos tanta liberdade e oportunidade para o fazer. Talvez por isso estejamos, para já, numa fase de deslumbramento que se revela numa espécie de caça às bruxas nos social mediae de um politicamente correcto exagerado, do moralismo e da indigação inconsequente.

Não sabem do que falo? Da polarização em torno do feminismo e do assédio moral e sexual, como se os temas se confundissem, da hipocrisia de tantos comentários sobre a H&M mas, também, de contextos que merecem debates profundos e que se limitam a ser alvo de notícia: a nanny da SIC e os youtubers que mais parecem youtúbaros. São aspectos mais profundos da nossa vida em sociedade que estão a ser colocados em causa, queiramos, ou não, ver isso.

Como em todos os domínios da vida, neste mundo infindável que é a World Wide Web há um pouco de tudo. Arrisco a afirmar que há YouTubers, pessoas que criam conteúdo visual com algum tipo de interesse e relevância e os outros, que atiram disparates e alarvidades, como se mandar a mãe àquele sítio fosse, ou tivesse alguma vez sido, motivo de orgulho. Putos, get a life.

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© Emma Saints

Mas é também no YouTube que nascem pequenas pérolas que a RTP - exacto, esse operador de media tão conservador e supostamente tradicional - resgatou para criar algo verdadeiramente inovador. Ao abrir portas à criatividade, a RTP consegue cumprir vários pontos da sua missão e do contrato de serviço público, quer ao nível da inovação, quer no que respeita às minorias, criatividade e produção independente. Touché porque a Casa do Cais é tudo isto é muito mais. Não vou cingir-me a critérios de objectividade porque admito gostar da capacidade de transgressão e rebeldia que uma série como esta representa. Posso fazer parte de uma geração que olha para isto de lado, imaginado que “os meus filhos não vão ser assim”, sem comentar negativamente porque parece mal - o tal moralismo ou o politicamente correcto - mantendo o silêncio ou optando por afirmar “não vi/ não sei” porque a sua opinião é de horror, esquecendo que é na adolescência e início da idade adulta que podemos ser parvos ou irresponsáveis. Há, contudo, alguns empertigados que preferem fazer de conta que nunca beberam um shot de uma vez para aumentar a confiança, disseram disparates para provar a sua coolness ou qualquer outra coisa igualmente idiota para garantir a pertença ao grupo. Há, talvez, quem tenha sido sempre uma versão polida  se próprio, que nunca mandou uns canecos abaixo ou que, na P… da loucura, rodou a Baiana em festas que não se percebe como começaram ou onde acabaram. 

Crescer sem experimentar o lado mais radical, rebelde ou destrutivo da juventude poderá resultar em pais que não fazem ideia de que falam os filhos e, dessa ignorância, cresce o fosso entre gerações que resulta, tantas vezes, em famílias que se limitam a dividir uma casa. Não defendo os pais muit’a malucos que vivem on the edge, aquele limite impróprio em qualquer idade e que raramente traz alguma coisa de bom, mas defendo que sejamos pessoas informadas, que conheçamos a evolução dos dialectos e das referências, dos hábitos e das práticas para estarmos cientes de que as nossas crianças podem estar a assistir a um YouTúbaro ou para aceitarmos, compreendermos e sermos dignos de confiança sobre as indiossincracias da adolescência e início da idade adulta. 

 

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© Emma Saints

Não interessa se eu fui assim ou se tinha amigos que eram assim. Interessa percebermos que a Casa do Cais não é uma mera representação mas, antes, uma nota autobiográfica de uma juventude perdida. Fica mesmo bem acabar a frase assim não é?... Perdida. A questão é essa mesmo: nenhuma geração está perdida e se, no meu tempo houve quem mostrasse o traseiro para a televisão e os jornais, manifestando-se contra as políticas da educação no ensino superior, as causas de hoje são igualmente válidas e apresentam-se de outra forma. Gostem ou não, a Casa do Cais é um marco em 2018, pela forma como está a chegar ao público com uma história tão simples e tão real, personagens que tocam alguns dos temas relevantes do mundo contemporâneo, uma fotografia e realização que está taco-a-taco com o melhor que se faz internacionalmente. Sexualidade, opções e identidade(s) sexuais, amor-próprio e imagem corporal, ingenuidade, dinheiro, trabalho e família... está tudo lá, na emancipação de Ema a chegar a Lisboa e na forma como os seus amigos contribuem para esse processo. O momento do corte de cabelo é único (como assim, aqueles caracóis, Peperan?...) o pormenor da porno-chachada incluindo o ícone Bambi (quem nunca?!) é brilhante e mesmo a referência cultural da garganta funda ganha o significado politicamente incorrecto que sempre lhe demos em sussurra… Afinal, não é apenas a história de um filme, pois não?... Na Casa do Cais as coisas têm nome e não há medo de o dizer ou mostrar. Só por isso, #respect enquanto aguardamos pelo próximo episódio. Voltando ao início deste artigo, “comentários maus há em todo o lado também, não é?”

É.

Obrigada por isso, Jay.

Imagem de capa: © Emma Saints

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