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Adoramos fait divers

Adoramos fait divers

Dizer que há uma semana que não há uma notícia que se aproveite na comunicação social é demasiado mas, na verdade, têm sido tantos os fait divers que, se queremos estar informados temos de ser nós a procurar, escapando às não-notícias, evitando as alcoviteiras dos sites de redes sociais ou ignorando as parangonas que são apenas isso, grandes títulos sem qualquer conteúdo.

Colaborar com órgãos de comunicação social e, simultaneamente, criticar a sua actuação pode ser entendido como o contrário do que é suposto, uma vez que, já dizia Pinto Balsemão, numa revista que pertence a um grupo açucareiro não se escreve que o açúcar engorda...

Esse é o mal deste e de outros países, com estruturas corrompidas e subservientes que atiram areia para os olhos de quem quer saber mais. O fenómeno não é novo, agudizando-se na era da comunicação digital, com a multiplicação das fontes, a degradação da certeza e a fragmentação das audiências.

Lembro-me de uma professora me explicar que o fait divers seria um facto ou assunto pouco importante e de, na mesma altura, me questionar sobre a razão pela qual seria alvo de notícia. A inquietação persiste, especialmente agora que os maiores repositórios de fait divers - Facebook e afins - se transformam numa espécie de fonte para a produção de notícias. Fica a nota: o que acontece no Facebook não fica no Facebook mas devia. Este espaço, algures entre o público e o privado, é o novo ponto de encontro para as conversas de café e, ainda que uma conversa de café possa vir a transformar-se numa relevante notícia, essa é a excepção e não a regra. Entre o filho do Ronaldo ou a crispação em torno do Panteão, morreram mais pessoas por causa da legionella e ainda mais no terramoto no Irão. No centro do país a rádio faz directos para que a miséria de Pedrogão e a desgraça que assolou o centro do país não sejam esquecidas; jornais anunciam - discretamente - a subida do preço das portagens e ainda não percebi, exactamente, o que faz o Presidente da Colômbia em Portugal. Não esqueçamos a greve dos professores, o caso Tecnoforma, a seca e o aumento das temperaturas… Isto para dizer que, ao contrário do que agora se diz, se queremos estar informados, temos de procurar as notícias. Aquilo que vem ao nosso encontro são clickbaites, links atractivos para gerar tráfego, baseados nessa infinita curiosidade humana em espreitar a vida dos outros, ou incendiar discussões. Estéreis.

Num esforço para descomplicar a realidade cria-se um certo vazio de conteúdo; a guerra das audiências produz conteúdos iguais, editam-se os noticiários em tempo real, considerando o que faz o canal do lado ou interrompendo as notícias quando começa o bloco de publicidade; a necessidade de cliques faz do nada algo viral e deixa bloggers, vloggers e podcasters no centro da discussão, como alternativas mais ricas ainda que, tantas vezes, recheadas de outros fait divers, esses pseudo-calmantes naturais, num país que toma demasiados comprimidos: para dormir e para se manter acordado. Anda, por isso, um bocado atordoado.

 

Fotografia: @benwhitephotography

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