opinião

no Sapo24: Pior cego é o que não quer ver

Portugal é um país pobre. Sempre foi um país pobre e dificilmente passará a ser um país rico, apesar da riqueza, em bruto, que existe em Portugal.

Podemos não ter diamantes, petróleo ou outras fontes naturais de riqueza mas temos o mar. E foi sempre o mar que tornou este país enorme, apesar da sua reduzida dimensão em terra. Evito falar mal do nosso país porque nós, todos, somos como a mulher casada que fala terrivelmente do seu marido mas que, simultaneamente, não admite que ninguém o faça, defendendo-o e justificando as suas acções. Estranho, mas acontece.

Contudo, há alguns factos simples que teimamos em ignorar, que podem ajudar a perceber a razão pela qual nunca deixaremos de ser remediados e que nada têm a ver com o lastro negativo que o regime de Salazar deixou em muitos de nós. Na verdade, são aspectos que nada têm a ver com ideologias políticas ou sistemas económicos, relacionando-se, ainda que indirectamente, com a mais prosaica das economias domésticas: não podemos gastar mais do que temos ou produzir sem matéria prima. 

Portugal nasceu pobre e, um dia, olhou para o mar, percebendo que poderia ser essa a sua saída. Aventurou-se e descobriu pessoas, produtos e locais, abrindo novos mundos ao mundo. Esqueceu-se, contudo, que, cedo ou tarde, outros lá chegariam. Explorou, enriqueceu sem investir no seu próprio desenvolvimento. Quando as novidades deixaram de ser novas, procurou outros locais e repetiu a fórmula até que uma de duas coisas acontecia: outros chegavam, inovavam ou, simplesmente roubavam enquanto, no local, deixávamos de ser bem vindos. Voltámos muitas vezes à metrópole do mundo para recomeçar, tudo outra vez, porque é essa a nossa natureza: desbravar sem consolidar. Avançamos sem medo mas pouco ou nada ganhamos com isso. 

Ainda assim, houve quem tivesse olho para perceber que poderíamos usar o que vinha dali, para produzir aqui, e vender acolá mas faltou-nos, sempre, o fio condutor que é fundamental nestas políticas e, por isso, inevitavelmente acabámos por deixar indústrias morrerem obsoletas. Mais tarde, enfiámos a mão numa espécie de saco sem fundo e pensámos ter encontrado a solução para os nossos problemas. Novamente, a visão de curto prazo repetiu os erros e estamos, ainda, reféns de uma Europa que aprendeu, usou e abusou, cresceu inspirando-se e apoiando-se no que começámos a construir há muitos séculos e que nunca soubemos verdadeiramente aproveitar. Usámos as especiarias, a seda, o ouro, os escravos e o café, esbanjando. É o que sabemos fazer melhor: monumentos. Exposições. Viagens. Representações. Estradas. Estádios. Muita parra e pouca uva que se traduz em muitos Portugueses pobres. Não são remediados ou classe média que estica o ordenado até ao final do mês. 

São p o b r e s. 

Sabem o que isso significa? Quer dizer que, apesar de estarem empregados, continuam a não ter dinheiro para o essencial. E o problema não é o preço da habitação em Lisboa que serve para os estrangeiros se instalarem e passearem alegremente no eixo Amoreiras - Lapa - Estrela. O problema é maior porque o trabalho é precário, mal remunerado e vivem em condições de habitação pouco dignas. Traduzindo: não têm casa ou vivem em casas degradadas o que contribui para desencadear (ou não resolver) problemas de saúde. A chamada pescadinha de rabo na boca porque para estas pessoas não há prevenção, os cuidados básicos são muitas vezes inexistentes e a doença tende a tornar-se endémica porque não só não é evitada como, para além disso, não é tratada ou é mal tratada, por falta de meios e dinheiro para medicamentos. Mas é também este o país que aprova leis urgentes para os cães nos acompanharem aos restaurantes, da mesma forma que, precisando de renovar e cuidar de insfraestruturas esenciais, opta por investir num elevador panorâmico para levar os turistas a ver as vistas na Ponte 25 de Abril. Ou que, em vez de discutir como vai resolver os problemas fundamentais da vida da sua população (ou boa parte dela), aquece a discussão no Parlamento com questões conceptuais, dignas de países em que a pobreza foi erradicada e nos quais as condições de vida são equivalentes para toda a população. Nenhum tópico que respeite à vida humana é mais ou menos digno do que outro contudo, sempre ouvir dizer que casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão…

 

Photo by Monica Silva on Unsplash

no SAPO24: Este dia é das mulheres. Não serão, todos os dias, dias das mulheres?

Este dia, esta semana, é das mulheres. Não serão, todos os dias, dias das mulheres?

Um pouco por todo o mundo celebra-se um dia que deveria ser todos os dias e, dessa forma, dispensaria um dia especial. Acredito que o empoderamento feminino tem de acontecer diariamente e que a discussão em torno do eterno feminino se deve fazer, também, todos os dias, com medidas e acções que, efectivamente, tenham consequências positivas para os direitos, liberdades e garantias da mulher sem, contudo, desprezar as do homem. Não faltam debates e discussões, mas ainda faltam soluções.

Espera-se que o 2018 seja um ano de mudança no que toca ao ativismo feminino. Espera-se que, depois de 2018, as mulheres deixem de sentir medo e que a igualdade, em termos de segurança, poder e remuneração salarial, se torne uma realidade. 

É também esperado que este seja o ano em que se põe, finalmente, fim ao sexismo e ao assédio sexual. Não sei se já perceberam mas o capítulo sobre estas conquistas, resultado da união das mulheres em torno de uma causa maior, está a ser escrito e cabe-nos a nós - todas - ajudar a escrevê-lo. Contudo, não o podemos fazer sozinhas. Os homens podem - e devem - ser chamados à discussão. Mesmo os machistas, para perceberem que estão cada vez mais isolados na sua acção.

Boa parte da discussão pública sobre esta questão faz-se numa separação entre homens e mulheres quando, na verdade, me parece que o que precisamos é de maior união e reconhecimento das diferenças que podem - devem - ser complementares. 

Juntos - juntas - seremos mais fortes e a integração do outro tem de começar exactamente por nós, mulheres, que tantas vezes fomos colocadas de parte em função disso mesmo: a diferença dos papéis de género. Não adianta discutir diferenças fisicas e biológicas porque, simplesmente, existem. Precedem, inclusivamente, toda esta discussão de carácter socio-cultural. Importa discutir os pequenos problemas que afectam todos os dias as mulheres, porque é nestes aspectos que reside parte da solução: ao ignorarmos onde se fundam as grandes questões não estamos, em nada, a contribuir para a sua solução porque se trata de uma maquilhagem do problema. Não vamos conseguir mudar o paradigma numa geração sem educar os nossos filhos e filhas para um mundo diferente, fundado numa lógica de aceitação e respeito pela diferença, de entre-ajuda e alteração da lógica inerente aos principais papeis sociais. Também estes precisam actualizados…

Podemos criar quotas na Assembleia da República ou obrigar as grandes empresas a integrar mais mulheres nos seus quadros de administração. Pouco mudará se não mudarmos a mentalidade que ainda baseia a estrutura social na mãe e mulher-que-é-também-profissional. Os nossos irmãos, maridos e amigos foram educados numa cultura machista e actuam, diariamente, em conformidade. Sem que disso se apercebam. Nós também, sempre que dizemos, deixa estar eu faço ou quando reproduzimos, em casa, o velho paradigma… 

Quando duas pessoas decidem viver em comunhão, enquanto casal, estão a decidir partilhar a sua vida. Essa vida inclui almoços e jantares, roupa interior que deve ser lavada e pendurada no estendal, lixo carregado escadas abaixo, filhos com fraldas, outros que adormecem ao colo, TPC e reuniões de pais. Inclui também um plano alimentar definido e listas de compras no supermercado, bem como a planificação das tarefas de limpeza e arrumação da casa. Um frete, portanto, já que nem todas as mulheres de carreira podem suportar os custos de alguém que toma conta da casa. 

É, normalmente, a mulher que assume a liderança da economia doméstica. Em 90% dos casos, a culpa também é sua, pelo tom paternalista que usar quando o acusa d não saber fazer as coisas. E, então, ele não faz. Perdemos todos porque continuamos desnecessariamente sobrecarregadas e o mundo não muda porque mantemos a ideia de que assim é que está bem. Não está. O tempo que ocupamos com acumulação de tarefas domésticas é tempo que eles ganham para progredirem nas carreiras. 

Então e a nossa carreira?

Este texto inclui um podcast que podem ouvir aqui

 


Photo by Ahmed Carter on Unsplash

no SAPO24: o sorriso de um filho não tem preço

Nunca me assumi como especialista na matéria e, talvez por isso, sempre que escrevo sobre o mercado de trabalho o faça com de coração aberto. Acabo de me cruzar com um artigo, já antigo, do Expresso, que revela exactamente o que venho afirmando ao longo o tempo: a escravatura moderna, a produtividade e o excesso de horas que passamos a trabalhar. O volume de trabalho excessivo, os outros que não cumprem as suas funções (ou as desempenham de forma insatisfatória prejudicando o fluxo dos processos de trabalho) ou porque, simplesmente, fica mal ser eficiente.

Quando, em França, se institui que depois do horário de trabalho não se consulta o correio electrónico, nós por cá continuamos a insistir no erro de empurrar com a barriga as tarefas que nos desagradam, a interromper o trabalho por tudo (e por nada), a adiar decisões em reuniões que, como diz a frase que circula em memes e fotografias inspiracionais, poderia ter sido um e-mail. A tecnologia não veio facilitar grande coisa. Aumentou a velocidade, e capacidade de produção, libertando-nos para fazer mais. Não necessariamente melhor.

Há vários estudos sobre o tema revelando que trabalhamos mais horas do que deveríamos e que se instituiu o (péssimo) hábito de levar trabalho para casa: porque podemos, estamos sempre conectados e, porque, ligações VPN simulam o sistema a que temos acesso no escritório.

Que bom.

Também sabemos que exemplo vem de cima, ou seja, são as chefias (provavelmente aquelas que chegam depois das 10h) que impõem verticalmente que as horas sejam dilatadas além do horário de trabalho. E aceitamos porque?...  Temos medo de perder o emprego.

Pois. O tal "deixar de fumar" de que falava a semana passada. Lembram-se?

Acontece que este fumo passivo nos está a matar: dormimos menos e, por isso, corremos maior risco de doenças cardiovasculares mas, também, exaustão, ansiedade e depressão. Para quem tem filhos, a falta de paciência é o denominador comum. Normalmente não são eles os terroristas. Somos nós que, na nossa indisponibilidade, fazemos deles pequenos terrores quando, afinal, só querem o nosso amor e atenção. Contudo, sem trabalho, não há pão. Apenas amor.

Terrível equação.

Nest quadro destacam-se os jovens, mal pagos e sem grande esperança no futuro. Muitos estão em situação de desemprego ou emprego precário. Todos os que conheço se queixam disso, dos estágios que vão acumulando, das ofertas com contratos irregulares e baixos salários. Dividem apartamentos e pouco lhes sobra para uma vida confortável. Continuam, quase aos trinta anos, a depender dos pais. Outros escapam-se lá para fora, provando que o problema não são eles, as suas capacidades ou formação mas um sistema muito dúbio de contratação e distribuição dos rendimentos nas empresas.

Depois temos os que foram despedidos numa vaga qualquer de downsizing , a par com os que ganharam coragem e largaram tudo para procurarem uma vida melhor. Não procuram mais dinheiro, nessa lógica que a sociedade instituiu de que precisamos de mostrar o nosso sucesso com base naquilo que possuímos mas a sensação de missão cumprida. 

Talvez por isso existam tantas novas formas de trabalhar: os que optam por deixar as grandes empresas para se tornarem empresários em nome individual - os freelancers e empreendedores modernos -, os que agarram nas suas economias e começam a fazer o que os apaixona: do turismo à alimentação saudável, não faltam exemplos. Há, ainda, quem reaprenda a organizar as suas prioridades e transforme o que sempre lhe deu prazer para ocupar os tempos livres numa ocupação remunerada. A seguir aparecem pessoas com influência digital e grande sentido de oportunidade que reúnem estes novos pequenos empresários no mesmo espaço. Com a magia da comunicação estratégica, transformam aquilo que poderia ser apenas um ponto de encontro de pequenas marcas num happening muito cool, repleto de projectos que queremos mesmo conhecer. A seguir chegam marcas maiores e agarram na ideia para a levar ao mainstream, chegando a cada vez mais pessoas. O próximo acontece dentro de dias, no início de Março, e reúne dezenas de marcas portuguesas - que existem sobretudo nas redes sociais - para apresentarem fisicamente os seus produtos.

A ideia não é nova mas corresponde, de certa forma, à tendência de recuperação de práticas antigas: nós sempre tivemos feiras e mercados. Actualmente têm mais estilo, posicionando-se como a cena urbana mais trendy do momento. O Blog da Carlota começou há cerca de 5/6 anos quando Fernanda Ferreira Velez decidiu começar a retratar o dia-a-dia da filha Carlota. Criou o Mercadito da Carlota, com marcas maioritariamente portuguesas que vai apresentando no blog ao longo do ano. Numa lógica semelhante, o Market Stylista, organizado pela blogger Maria Guedes, resulta da sua inspiração no Coolares Market, para criar um espaço no qual as marcas nacionais, que já promovia no seu Blogue Stylista, pudessem contactar com o público.

© Luis Neto

© Luis Neto

Algo semelhante acontece no próximo sábado, no Mercado NiT, no Lx Factory, em Lisboa, seguindo a lógica de transição da revista do digital para novas plataformas, e da criação de um ponto de contacto entre marcas e o seu público, muitas das quais são já habituées nestes mercados. Ou markets. As palavras estão em inglês para o texto ser propositadamente mais cool e promover a ideia que Obama protagonizou: yes we can. Podemos sim, melhorar a nossa vida fazendo mais com menos. Porque o tempo - mais ainda o sorriso de um filho - não tem preço e a nossa inspiração para a mudança pode muito bem estar num destes mercados. 

Fonte da imagem de capa

no SAPO24: #LoveWhatYouDo é mais do que uma hashtag

Há uma semana, escrevia sobre o amor, nas suas várias formas e, confesso, há muito que não tinha tanto prazer na escrita. Quem se dedica a um projecto como o urbanista tem de o fazer por amor, caso contrário, desiste ao fim de pouco tempo. O amor por aquilo que fazemos contribui para o nosso bem-estar, especialmente porque permite aquele cliché sobre saltar da cama com um sorriso... Estou segura em relação a essa determinante, bem como da sua importância para a nossa sanidade mental e consequente felicidade.

Estamos numa altura que tudo parece muito simples, que o digital tudo resolve e que as respostas estão todas no Google. Não estão. Mas estão dentro de nós, desde que as queiramos encontrar. O mundo, no entanto, é mais complexo do que alguma vez foi. Rápido e exigente, com mais opções e, contudo, limitando-nos perante cada uma delas, numa cultura social complexa, repleta de idiossincrasias paradoxais que nos fazem, muitas vezes, não perceber o que se passa, associada a uma cultura laboral que é tudo menos justa ou motivadora. A meritocracia é apenas uma palavra no dicionário e a liderança depende mais de autoridade do que do exemplo ou carisma. Trabalhamos horas a mais porque não nos organizamos, não deixam organizar ou porque parece mal acabar o trabalho a horas. Há inúmeros exemplos de liderança negativa que não só não lidera, como não sabe gerir, criando contextos laborais de insegurança e mau estar, baseando as relações profissionais na agressividade e, muitas vezes, no medo, principalmente o medo de perder o emprego. A Associação de Psicologia dos Estados Unidos alerta para esta relação entre a liderança e a nossa saúde: trabalhar com um chefe que nos deixa infeliz equivale a fumar um maço de cigarros por dia.

Eu, se fosse a vocês, deixava de fumar. 

Abandonar um vício é extremamente difícil, assim como a decisão de deixar um emprego que não nos faz feliz. Porquê? 

Está na moda dizer que a principal razão é o medo. Porque as pessoas são avessas à mudança, porque têm muito medo... Eu não concordo.

Este argumento do medo não desenvolve. Medo de quê? De mudar? Ou de perder?...

Reconheço que é, efectivamente, o medo que impede muitas pessoas de abandonarem um emprego de que não gostam. Trata-se, no entanto, de um medo muito realista e uma noção concreta de como funciona o mercado de trabalho, sobre o qual se diz que os Portugueses não querem trabalhar quando, na verdade, para trabalhadores qualificados - e altamente qualificados - não há propriamente grande variedade de oferta no mercado. Como escrevi a semana passada, a situação agudiza-se a partir dos 40 anos porque, consta, são profissionais cheios de vícios e com uma experiência cuja remuneração supõe um salário acima da média, se entendermos que a média está entre os 500 e os 1000€. É então que nos falam do propósito de vida e lixam isto tudo porque percebemos que estamos entre a espada e a parede: se ficamos e não arriscamos continuamos infelizes, se nos atiramos de cabeça acabamos, muitas vezes, a ter de transformar o nosso hobby num trabalho a tempo inteiro ou a acabar num emprego sem saída e muito mal pago. Todos sabemos que recomeçar só é fácil para os amigos dos amigos dos amigos que nunca ficam desempregados. Estão entre projectos.

O país também sofre com esse outro problema dos amiguismos. Não são as cunhas, porque essas só servem para criar os empregos de cabide, para pendurar pessoas numa empresa sem que estas sejam verdadeiramente úteis. Isto de amiguismos é um fenómeno que ocorre de forma natural, embora altamente prejudicial, porque favorece sempre os mesmos: os que têm amigos e que acabam por ser escolhidos em detrimento de qualquer outra pessoa que possa querer candidatar-se a uma determinada posição porque, simplesmente, esta não é anunciada. O amigo até pode ser a pessoa certa mas, disso, nunca teremos a certeza porque o processo de selecção se baseou exclusivamente no núcleo de pessoas que já conhecemos ou das que nos chegam recomendadas por outras. Os nossos amigos. E daqui não saímos, num clube para o qual também é difícil entrar. E que não é, exactamente, o tão afamado networking.

O networking funciona. Obviamente que sim, porque quando nos perguntam se conhecemos alguém para uma determinada função, pensamos imediatamente nos que nos são próximos, naqueles em quem confiamos e cujas competências são adequadas. Será que isso se consegue participando em eventos de networking que continuam a estar na berra?

Sim e não.

O networking que funciona não depende de cartões de visita que entregamos num contexto em que todos os trocam porque sim. O networking que funciona baseia-se em relações com pessoas que passam a conhecer o nosso trabalho, que gradualmente o vão respeitando para que, quando a oportunidade surja, poderem recomendar. Não acontece do dia para a noite, não depende que encontros fortuitos a que chamam networking, de feiras meetings, meet ups, conferências sectoriais ou de um Cv. Depende de relações desinteressadas que se desenvolvem numa lógica de entre-ajuda para a construção de um novo contexto profissional que possa servir melhor a todos e a cada um de nós, focado no que realmente interessa e que expliquei, também, no texto da passada semana: fazermos o que gostamos e sermos remunerados por isso.

no SAPO24: eu, tu, um microfone e o mundo lá fora a acontecer.

Ontem escrevi sobre amor próprio e hoje dedico o dia ao #dowhatyoulove, essa hashtag que usamos para intencionalmente mostrar que fazemos o que gostamos. Contudo, numa era em que é supostamente mais fácil irmos atrás dos nossos sonhos e que, finalmente, nos explicaram que não chega trabalhar, é preciso fazê-lo com propósito para nos realizarmos profissionalmente, é também o momento em que é cada vez mais difícil conseguirmos um emprego. Ou, pelo menos, uma retribuição justa por aquilo que fazemos.

O mundo mudou, a par com a ideia de trabalho e profissão. Não falo do facto de alguns miúdos quererem ser youtubers quando forem grandes mas da forma como a tecnologia mudou o paradigma, bem como a noção de valor do nosso trabalho. Para além de trabalharmos mais horas em cada dia e mais anos ao longo da vida, o modelo das profissões e da forma de realizarmos as tarefas também se alterou, permitindo que não estejamos tão dependentes de organizações e empresas, numa lógica de maior liberdade e independência que tem, naturalmente, as suas consequências. Ainda que o sistema continue a basear-se, principalmente, na antiga fórmula do patrão e da empresa, hoje somos mais colaboradores do que empregados. A ideia de emprego para a vida e estabilidade no emprego acabou. Somos - seremos - várias coisas ao longo da vida.

O propósito de vida assume-se determinante neste processo, mesmo que a maior parte de nós não faça ideia do que quer isso dizer. Venderam-nos a ideia de que tínhamos de estudar para sermos alguém, ter boas notas para nos destacarmos e envolvermo-nos em muitas actividades para aprendermos, criarmos uma rede de relações - o famoso networking - e destacar o nosso Cv entre todos os outros. Contudo, na maior parte das vezes, nada acontece. E agora?

Independentemente da idade - piora um pouco depois dos quarenta, idade a partir da qual temos, obrigatoriamente, de ser suficientemente criativos para dar a volta por cima, ter um hobby que transformamos em full time job ou contactos que nos voltem a colocar no mercado - na verdade, a tarefa de encontrar o dream job é, actualmente, mais difícil do que nunca. 

E o que tem a isto a ver com a rádio? Aparentemente nada e, na verdade, tudo, porque também a tecnologia permitiu mudar a face da rádio. Contudo, o meio de comunicação e o sistema empresarial que o organiza mantém o mesmo modelo há décadas, introduzindo, muito devagar, pequenas mudanças em direcção a um novo sistema, mais difícil de gerir mas muito mais interessante de ouvir.

Para quem me conhece, explicar as razões pelas quais me apaixonei pela rádio implica repetir-me à exaustão. Há anos que o tema é sempre este pelo que começo a não saber explicar o óbvio.

Já fiz tantas declarações de amor à rádio que começa a parecer ridículo, ou uma relação não correspondida. Profissionalmente, atingi algo que estava apenas na minha imaginação antes do tempo que essa mesma ambição definiu, e fiz coisas, aqui e fora de portas, que ambicionava mas não imaginava que pudessem acontecer. Estarei para sempre grata e orgulhosa por isso mas, na verdade, ao longo de todo este tempo, o que eu queria era voltar à base, ao modo mais simples e orgânico de fazer rádio: eu, tu, um microfone e o mundo lá fora a acontecer.

Poderia fazer poesia ou escrever uma metáfora em formato romance que ninguém iria ler porque ninguém quer saber da paixão da rádio. 

A rádio está de tal forma profissional que perdeu parte do seu brilho, na dependência das medidas do seu sucesso e do investimento publicitário. É o preço a pagar para se criar esse mundo alternativo que só a rádio consegue desenvolver. Ainda não fiz tudo na rádio mas posso dizer que já cozinhei na rádio. Ou, pelo menos, fiz-vos acreditar que sim e, essa, é a magia, o oposto da rádio pobre e preguiçosa, feita com base em receitas simples e eficazes, como também antes já escrevi. Porque, como antes afirmei e gosto de repetir, a rádio é palavra e a palavra é mistério. Porque a rádio se faz de sons e esses são a imaginação. Depende da voz, na relação entre a palavra e a imaginação, como escrevi em 2015, para explicar porque razão gosto tanto de rádio. Olhei para trás e percebi que, nesse ano, escrevi muito sobre rádio. Em 2018 escrevo menos e faço mais.

É esse o segredo para manter a chama viva: fazermos o que gostamos. 

 

 

 

 

no SAPO24: Internet a mais, arranhões a menos

A ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) apresentou um estudo sobre a relação das crianças, entre os 3 e os 8 anos, com os ecrãs, assumindo, no título, o boom digital referente ao tempo passado online. Tive um professor na faculdade que nos obrigava a ler um livro com uma passagem que me ficou na memória, relativa à televisão. O autor afirmava que esta era uma ladra do tempo e criada infiel, chamando à atenção para a forma como uma geração foi deixada sozinha de frente ao ecrã para se socializar e educar, enquanto alertava para a necessidade de contextualização e explicação daquilo que era transmitido na televisão. 

Longe vão os tempos em que a televisão começava a meio do dia e em que, chegados a casa depois da escola, tínhamos desenhos animados na tv. As manhãs de fim de semana eram passadas com o Vasco Granja e aqueles desenhos animados que nenhuma criança entendia, mas assistia, ou o Eng. Sousa Veloso no TV Rural. Eram os tempos em que andávamos na rua até uma das mães vir à janela gritar “oh João, anda jantar”, em que nos esfolavamos, partiámos cabeças, erámos terroristas mas nenhum pai se queixava de sermos hiperactivos porque, normalmente, depois de regressarmos a casa, caíamos na cama para dormir, sem o excesso de solicitações dos ecrãs brilhantes de hoje. Não era necesariamente melhor, era apenas diferente, com mais bactérias e arranhões. Principalmente, menos alergias.

O estudo hoje apresentado indica que mais de 20% das crianças entre os 3 e os 5 anos, e mais de 60% das crianças entre os 6 e os 8 anos, acedem regularmente à internet. Se é um facto que há muitos aspectos positivos neste facto (estímulo à criatividade e imaginação, domínio de ferramentas multimédia, favorecimento da aprendizagem, …) e que estes recursos, quando bem utilizados, potenciam o aumento do conhecimento do mundo, também é verdade que, na maior parte dos casos, pais e professores (perdoem-me todos os que diariamente fazem um esforço por se manterem actualizados!) não sabem usar a internet como ferramenta de conhecimento, usando-a apenas como entretenimento. Por vezes duvidoso… É importante percebermos que esta nova realidade substitui a antiga cultura de pares, na qual as crianças estão em rede, num processo de integração e dinamização de laços sociais que contribuem para a cosntrução da sua identidade. Contudo, num universo tão rico e diversificado, poderão fazê-lo desacompanhadas, sem a real noção dos perigos que esta realidade também representa, da diferença entre o real e o virtual ou da credibilidade das fontes de informação? Não. Essa será, em boa medida, a nossa tarefa e a da escola, ensinando a utilizar, a compreender a diferença entre realidades, sem depositar todas as esperanças num futuro meramente online.

Um dia, quando percebi que os maiores cromos da tecnologia não permitiam que os seus filhos crescessem rodeados de aplicações e ecrãs tácteis, pensei que saberiam, melhor do que qualquer um de nós, o que estariam a fazer. Deveríamos pensar neste aparente pormenor alternativo por uns minutos para concluírmos que, na maior parte das vezes, a culpa não é da tecnologia, é nossa. Usamo-la, hoje, como usaram a televisão antes da massificação do acesso à internet: uma ladra do tempo e criada infiel. 

A criança não come, precisa de umas palhaçadas. Fazemos de palhaços. Não come, precisa de uma distracção, contamos uma história. E assim sucessivamente, até percebermos que é muito mais fácil ligar a televisão para a criança abrir a boca e comer sem refilar. Sem birra. Sem ‘não quero ou não gosto’, com os lábios semi-cerrados. Depois, percebemos que seria ainda melhor se estivesse a assistir aos seus desenhos animados preferidos, para ficar verdadeiramente absorvida, comer e calar. A isto chama-se último recurso ou preguiça. Não atiro pedras porque também eu já precisei de uma distracção para a criança comer mas, transformar uma criança numa espécie de amiba acritica, que não sabe que alimentos está a ingerir, é ir longe demais. Como também é demais vê-los chegar ao restaurante, montar o kit multimédia, sentar as crianças e deixá-las ficar a olhar para o ecrã ignorando o que se passa à volta. Para os pais é certamente um descanso, enquanto os resistentes ficam no embaraço da criança que mexe nos talheres, não se senta sossegada, quer comer pão, mexe nos patés, aponta e fala alto. Uma vergonha constante enquanto, na mesa ao lado, vemos outra criança, verdadeiramente bem comportada, sentada e sossegada. Anestesiada?

no SAPO24: A tecnologia já não é... um boys game

O ano começa com um big no em relação ao sexismo, um discurso de Oprah Winfrey nos Globos de Ouro, a par com denúncias várias sobre assédio e desrespeito e a esperança, sempre, num mundo melhor. Um pouco por todo o mundo, as mulheres resistem, reclamam e unem-se em torno de uma causa comum, que se apresenta com várias frentes. Um dos cartazes da última Woman’s March diz tudo: ugh, where do I even start. É isso mesmo de que aqui falamos. Por onde começar quando o que se trata é dessa invisibilidade da desigualdade, da normalização do comentário abusivo, dos excessos, do trabalho igual para salário diferente. 

Donald Trump chegou ao poder há um ano e ainda não mudou o mundo, muito embora as suas ideias e decisões políticas estejam a fazer o mundo mudar mais depressa. Também há um ano, mais de 4 milhões de pessoas saíram à rua em protesto, em 50 Estados da América e em sete continentes, naquela que ficou para a história como a Marcha das Mulheres. Por cá, no maior evento mundial de tecnologia, também se verifica um esforço para equilibrar o género dos participantes, motivando as mulheres à participação. Por isso, nesta última edição o evento Web Summit fui procurar, de forma aleatória, mulheres na tecnologia. A pergunta era simples: trabalhas em tecnologia? Se sim, o que fazes?

Conheci várias mulheres, todas com histórias para contar. Portuguesas e estrangeiras  com traços comuns no seu percurso. A imprevisibilidade da aleatoriedade não me fez cruzar com nenhuma engenheira ou programadora porque, apesar de encontrarmos cada vez mais mulheres em cada Web Summit, a verdade é que ainda estão muito mais ligadas às áreas complementares do que à tecnologia em si, ou seja, há mais designers, profissionais do marketing e das vendas, pesquisa e investigação. Também estão, muitas vezes, em funções que combinam as ciências humanas com a engenharia, como é o caso de Ivanna Gladysh-Mirkovska que combina diferentes conhecimentos para desenvolver o seu trabalho na área de marketing, relacionando a sua formação de base em psicologia com técnicas elaboradas de análise semântica do discurso. Sobre as funções das mulheres nas empresas, a portuguesa Joana Peixoto afirma que esta é uma indústria tradicionalmente mais representada por homens, admitindo, no entanto, que hoje há uma abertura diferente. No caso da empresa na qual trabalha, 30% dos colaboradores são mulheres e a empresa tem mulheres não só da área de Marketing e Comunicação, como é o caso de Joana, como também a nível do desenvolvimento e gestão de projetos: “na Opensoft há muitas mulheres engenheiras. As coisas estão a mudar. Acho que as últimas contratações foram só de mulheres, porque as mulheres são tão aptas para trabalhar em tecnologia como os homens e isso já é reconhecido. Se olharmos para as estatísticas globais obviamente ainda não há um equilíbrio mas, creio, estamos no bom caminho”, concluiu. Este será um exemplo de excepção porque a maior parte das mulheres com quem conversei neste evento não admite ser vítima mas reconhece, sem excepção, que o sexismo ainda existe. Andreia Ferreira, fundadora da bia.pt, tem vivido na Holanda onde “o preconceito é menor”, como afirmou. Não recorda nenhum momento que possa enquadrar-se nesta lógica de sexismo na indústria e, na sua aproximação aos investidores, reforça que eram todos homens ou seja, “não tiveram um comportamento sexista” mas, como também reconhece, “ainda há mais homens neste sector”. Talvez por isso as mulheres não sejam “levadas muito a sério”, como explicou Carla Patrícia Costa, da Guidesquare, afirmando ainda que o papel das mulheres é fundamental para mudar o panorama. Como revelou, “estamos aqui para lutar por isso”. 

Ina Danova, da República Checa, defende que que o sexismo existe. Contudo, sente-se uma verdadeira sortuda porque nunca o sentiu na pele. Ao contrário, a designer italiana Piccia Neri, actualmente a viver em Espanha, depois de vinte anos em Londres, não desarma: “há sexismo na indústria, de tal forma que nós, mulheres, até já nos habituámos a isso”. É a mais experiente deste grupo e afirma que tem sentido o sexismo durante toda a sua vida: “tenho 50 anos, estou no mercado de trabalho há 25 e o sexismo tem sido sempre evidente e enfurecedor ou, então, muito subtil. O que eu acho é que nós estamos tão habituadas que já nem notamos, o que também revela a cadeia de poder na sociedade”. E continua, num tom mais incomodado, afirmando que “mesmo aqui na Web Summit já me apercebi de diversos exemplos da própria organização, e seguramente que a Web Summit tem as melhores intenções”, concluiu. Na verdade, Piccia considera que ainda há muito a fazer e que não podemos enveredar por uma lógica de confrontação ou vingança pois, como defende, a ideia é “colaborar para mudar”. Carla Costa reforça esta ideia quando afirma que “as maiores dificuldades são sempre o género e a idade, na tecnologia e na vida”. Apesar de ser bastante crítica em relação aos comportamentos masculinos nesta indústria, Piccia Neri admite que as coisas melhoraram bastante, mesmo quando afirma que “aceitamos demasiadas vezes um certo sexismo inconsequente” que, na verdade, não é assim tão inconsequente: “na indústria da impressão, tenho de ser honesta… eles tentavam sempre! Essa era a primeira coisa que acontecia se houvesse uma rapariga nova, e isso não significa que fosse desagradável ou que existisse alguma má intenção, mas o flirt era garantido. Há pessoas que acham que não há problema, que o sexismo casual é aceitável porque ‘é assim’, e há ainda aquelas que dizem que devias estar agradecida por isso acontecer. Isso tem de mudar”.

Efectivamente, mais de metade dos profissionais da indústria da tecnologia são homens. Ao longo da história, prevaleceu a ideia de que as mulheres não são tão boas com números e que, geneticamente, não estão tão bem preparadas para lidar com a tecnologia. Ina Danova, da Bulgária, explica que “nas empresas mais pequenas já não é tanto assim embora as grandes empresas sejam ainda, dominadas pelo sexo masculino. Não existem muitas mulheres, especialmente em cargos de decisão. Na área do marketing sim, existem, mas não em áreas mais técnicas”.

Mesmo que consigamos ignorar tantas ideias preconcebidas que circulam na nossa sociedade, o paradigma não deixa de nos afectar, tornando-se mais difícil para as mulheres ultrapassar os limites invisíveis que ainda existem, especialmente nas grandes empresas, como avança Ina Danova: “no mundo das tecnologias de informação e áreas mais técnicas há algumas engenheiras mas estas não chegam a alcançar cargos relevantes e de tomada de decisão. É um sector muito conservador”. Talvez por isso, mesmo que a sociedade tenha permitido a emancipação feminina, o seu estatuto social mantém-se enraizado num modelo antiquado e as assimetrias entre sexos, ainda que esbatidas, continuam a existir. Como explica Ivanna da República Checa, hoje temos mais oportunidades mas, ao mesmo tempo, “exigem-nos mais e temos de estar constantemente a provar que somos capazes. Parece que o mundo está a testar-nos. Algumas pessoas pensam que, por sermos mulheres, não conseguimos gerir equipas. Acho que somos muito melhores a desempenhar várias tarefas simultaneamente”.  

Os programas de mentoring  e os grupos de empreendedorismo destinados a mulheres têm ajudado ao desenvolvimento profissional e à criação de novas empresas. A irlandesa Noelle Dally, fundadora da Mobility Mojo, explica isso mesmo, uma vez que desenvolveu o seu projecto com o apoio de uma organização desta natureza, que tem ainda um grupo WhatsApp no qual as conversas geram, muitas vezes, novas ideias e soluções para problemas: “tive a sorte de integrar um programa de mulheres patrocinado pela Enterprise Ireland. É o melhor programa em que já estive (e já estive em alguns) para começar uma empresa. Como era um núcleo de mulheres fundadoras, tínhamos um grupo de WhatsApp para apoio e discussão com regras simples: não sermos más umas para as outras, não desistirmos e respondermos com ideias e soluções. É fenomenal e não, estar numa cadeira de rodas não me impediu de nada. Na verdade, até gosto mais porque nos negócios somos aceites por conseguirmos fazer o trabalho. As pessoas não vêem a cadeira de rodas, vêem-te a ti e o que és capaz de fazer. E se provares que és capaz, és aceite”. Noelle criou uma startup cujo objectivo é compilar informação sobre a acessibilidade no espaço público. Uma espécie de TripAdvisor para pessoas com mobilidade reduzida. Pelo facto de sermos mulheres, refere, “podemos ser tratadas de forma diferente e precisamos aprender a usar isso de forma inteligente. Às vezes os homens lidam melhor com outros homens porque há um tom ou uma força nas suas vozes que as fazem ser ouvidas de forma diferente. Enquanto que, para as mulheres alcançarem isso, são frequentemente vistas como autoritárias”. No mesmo sentido, Ivanna, da República Checa, explica que estes grupos de entre-ajuda garantem mais confiança às mulheres e as ajudam a tornar-se empreendedoras, abandonando os seus empregos mais tradicionais, embarcando nesta aventura de serem empresárias. Ivanna criou um grupo de “mães que trabalham”, juntando muitas mulheres diferentes, e explica que “muitas têm receios e empregos com horários que não permitem que tenham tempo com a sua família. Nós estamos a encorajá-las para que tenham uma atitude mais empreendedora, para abandonarem as suas dúvidas, para serem mais independentes e para terem a certeza que conseguem fazer o que têm em mente, com todo o apoio das pessoas ao seu redor”. Na verdade, não há nada na nossa biologia que determine maior ou menor capacidade para lidar com os números. A questão é meramente cultural. Como também é cultural essa ideia sexista de que somos menos capazes do que eles e que temos de fazer mais e melhor a cada momento. E, por isso, tantas vezes fazemos.

Imagem: Mikayla Mallek

no SAPO24: Há gays no cais. No YouTube também.

No início de cada novo texto há (quase) sempre dois sentimentos que se misturam: a alegria na partilha de novas ideias e a auto-censura que nos inflige cada vez mais, fruto de um intenso (e por vezes despropositado) escrutínio, associado a uma vigilância ao estilo vigilant, aquela palavra em inglês que remete para vigília de bairro. É também nesta nova cultura de vigília e crítica constante sob a forma de anonimato, da persona digital, dos avatares ou, na sua versão mais simplista, da alcunha impenetrável, que se processam as guerras virtuais, das que atiram pedras em todas as direcções. O mundo está cheio de temas para discutirmos e nunca, como agora, tivemos tanta liberdade e oportunidade para o fazer. Talvez por isso estejamos, para já, numa fase de deslumbramento que se revela numa espécie de caça às bruxas nos social media e de um politicamente correcto exagerado, do moralismo e da indigação inconsequente.

Não sabem do que falo? Da polarização em torno do feminismo e do assédio moral e sexual, como se os temas se confundissem, da hipocrisia de tantos comentários sobre a H&M mas, também, de contextos que merecem debates profundos e que se limitam a ser alvo de notícia: a nanny da SIC e os youtubers que mais parecem youtúbaros. São aspectos mais profundos da nossa vida em sociedade que estão a ser colocados em causa, queiramos, ou não, ver isso.

Como em todos os domínios da vida, neste mundo infindável que é a World Wide Web há um pouco de tudo. Arrisco a afirmar que há YouTubers, pessoas que criam conteúdo visual com algum tipo de interesse e relevância e os outros, que atiram disparates e alarvidades, como se mandar a mãe àquele sítio fosse, ou tivesse alguma vez sido, motivo de orgulho. Putos, get a life.

© Emma Saints

© Emma Saints

Mas é também no YouTube que nascem pequenas pérolas que a RTP - exacto, esse operador de media tão conservador e supostamente tradicional - resgatou para criar algo verdadeiramente inovador. Ao abrir portas à criatividade, a RTP consegue cumprir vários pontos da sua missão e do contrato de serviço público, quer ao nível da inovação, quer no que respeita às minorias, criatividade e produção independente. Touché porque a Casa do Cais é tudo isto é muito mais. Não vou cingir-me a critérios de objectividade porque admito gostar da capacidade de transgressão e rebeldia que uma série como esta representa. Posso fazer parte de uma geração que olha para isto de lado, imaginado que “os meus filhos não vão ser assim”, sem comentar negativamente porque parece mal - o tal moralismo ou o politicamente correcto - mantendo o silêncio ou optando por afirmar “não vi/ não sei” porque a sua opinião é de horror, esquecendo que é na adolescência e início da idade adulta que podemos ser parvos ou irresponsáveis. Há, contudo, alguns empertigados que preferem fazer de conta que nunca beberam um shot de uma vez para aumentar a confiança, disseram disparates para provar a sua coolness ou qualquer outra coisa igualmente idiota para garantir a pertença ao grupo. Há, talvez, quem tenha sido sempre uma versão polida  se próprio, que nunca mandou uns canecos abaixo ou que, na P… da loucura, rodou a Baiana em festas que não se percebe como começaram ou onde acabaram. 

Crescer sem experimentar o lado mais radical, rebelde ou destrutivo da juventude poderá resultar em pais que não fazem ideia de que falam os filhos e, dessa ignorância, cresce o fosso entre gerações que resulta, tantas vezes, em famílias que se limitam a dividir uma casa. Não defendo os pais muit’a malucos que vivem on the edge, aquele limite impróprio em qualquer idade e que raramente traz alguma coisa de bom, mas defendo que sejamos pessoas informadas, que conheçamos a evolução dos dialectos e das referências, dos hábitos e das práticas para estarmos cientes de que as nossas crianças podem estar a assistir a um YouTúbaro ou para aceitarmos, compreendermos e sermos dignos de confiança sobre as indiossincracias da adolescência e início da idade adulta. 

© Emma Saints

© Emma Saints

Não interessa se eu fui assim ou se tinha amigos que eram assim. Interessa percebermos que a Casa do Cais não é uma mera representação mas, antes, uma nota autobiográfica de uma juventude perdida. Fica mesmo bem acabar a frase assim não é?... Perdida. A questão é essa mesmo: nenhuma geração está perdida e se, no meu tempo houve quem mostrasse o traseiro para a televisão e os jornais, manifestando-se contra as políticas da educação no ensino superior, as causas de hoje são igualmente válidas e apresentam-se de outra forma. Gostem ou não, a Casa do Cais é um marco em 2018, pela forma como está a chegar ao público com uma história tão simples e tão real, personagens que tocam alguns dos temas relevantes do mundo contemporâneo, uma fotografia e realização que está taco-a-taco com o melhor que se faz internacionalmente. Sexualidade, opções e identidade(s) sexuais, amor-próprio e imagem corporal, ingenuidade, dinheiro, trabalho e família... está tudo lá, na emancipação de Ema a chegar a Lisboa e na forma como os seus amigos contribuem para esse processo. O momento do corte de cabelo é único (como assim, aqueles caracóis, Peperan?...) o pormenor da porno-chachada incluindo o ícone Bambi (quem nunca?!) é brilhante e mesmo a referência cultural da garganta funda ganha o significado politicamente incorrecto que sempre lhe demos em sussurra… Afinal, não é apenas a história de um filme, pois não?... Na Casa do Cais as coisas têm nome e não há medo de o dizer ou mostrar. Só por isso, #respect enquanto aguardamos pelo próximo episódio. Voltando ao início deste artigo, “comentários maus há em todo o lado também, não é?”

É.

Obrigada por isso, Jay.


Imagem de capa: © Emma Saints

no SAPO24: O tempo acabou para o elefante na sala

 

Dizia Noelle Neuman que os indivíduos tendem a calar-se quando a sua opinião é diferente da dos outros, num processo que os leva a seguir a opinião maioritária até que esta se torne prevalecente, ignorando as restantes opiniões. Ou seja, há, muitas vezes, um elefante na sala que ignoramos deliberadamente porque precisamos do colectivo para validar a nossa opinião. E quando o que temos a dizer é diferente da opinião da maioria?

O melhor é estar calado.

Foi talvez isso que aconteceu a tantas actrizes que, durante anos, calaram as situações de pressão e assédio de que foram alvo, até a bolha rebentar no final do ano passado. Obviamente que nos questionamos sobre as razões que as levaram ao silêncio. Calar, por medo, pressão ou chantagem é compreensível. Aguentar porque há contas para pagar, como referiu Oprah, talvez... Oprah Winfrey afirmou, no seu já famoso discurso nos Globos de Ouro, que as mulheres foram, durante muito tempo, ignoradas e desacreditadas em relação a esta questão  mas, na verdade, bastou uma hashtag no Twitter (#meetoo) e uma reportagem do jornal New York Times, para criar uma onda que, rapidamente, se tornou um tsunami.

E porque não antes, acusam alguns, usando a hashtag #WeAllKnew, criticando também uma fotografia de Oprah, alegremente dividindo as atenções com Harvey Weinstein, manipulando imagens, acusando Meryl Streep de saber do que se passava (“she knew”), ou censurando Justin Timberlake por ser o protagonista do novo filme de Woody Allen. Hollywood é mesmo assim e nós vamos atrás, glorificando a cerimónia. Mesmo que parte da mensagem fique perdida, que as nossas preocupações sejam a conta da electricidade ou o aumento dos impostos, esta cerimónia dos Globos de Ouro vai muito além da entrega dos prémios.

A(s) indústria(s) está repleta de pessoas com medo de revelar o que lhes acontece, silenciadas pela espiral do silêncio do preconceito que as culpabiliza, que desvaloriza os actos, que lhes diz que são umas convencidas que interpretaram mal o comentário, ou umas histéricas a quem não de pode tocar. O assédio moral e sexual existe. Esta cultura de silenciamento e vergonha tem de ser substituída pela justiça restauradora de que se falava na cerimónias dos Globos de Ouro. É preciso denunciar, mudar mentalidades, garantir que qualquer pessoa vítima de assédio não tenha medo, que não tenha vergonha e, principalmente, que não se culpabilize por isso.

Palmas para Oprah? Tenho para mim que o seu discurso procurava ir mais longe do que a denúncia, apelando à liberdade de pensamento e de expressão, apontando o dedo ao jornalismo e ao marasmo em que aceitou viver, ao discurso de ódio, racismo e xenofobia, lembrando que as maiores vítimas do sistema não serão as actrizes de Hollywood, mas as mulheres que, na sociedade, não têm voz.

Talvez também não seja coincidência a noite ter sido de “Big Little Lies”, com actrizes #metoo no elenco, representando uma indústria em que os sonhos, tantas vezes, se confundem com a realidade e uma narrativa que retrata abusos que também acontecem na vida real. Curiosamente, também continuam a ser mais homens nomeados para os Globos de Ouro e, dos que receberam o prémio, apesar do smoking (preto, obviamente...) nenhum fez referência à questão que pairava no ar durante a cerimónia: nenhum, parece, será #metoo ou talvez ainda não seja, para estes homens, #timesup.

 

Fotografia: Kristina Flour

 

no SAPO24: a Casa do Cais é um laboratório de inovação sem preconceito

Eu podia dizer que sei mas, na verdade, não sei porque nunca fui vítima de preconceito. E vocês?

Dentro de duas semanas a Internet vai parar porque estreia uma nova série de ficção que mostra, de forma simples e directa, a vida dos jovens de vinte anos. Se são todos como as personagens (inspiradas na vida real) da Casa do Cais? Provavelmente não, mas estão presentes boa parte dos arquétipos da sociedade contemporânea que os velhos do Restelo teimam em ignorar, escondendo-se atrás do cliché do choque de gerações. A Casa do Cais é um rasgo criativo dos próprios intérpretes e um risco para a RTP, que não faz mais do que o seu papel de criar espaço e condições para o desenvolvimento de novos formatos e conteúdos mediáticos. Tirando isso, o coro conservador já está a afinar as vozes. Porquê?

A #CasaDoCais é o materializar do sonho de produzir uma série de comédia com que a nossa geração se consiga identificar. É fantástico ter a oportunidade de mostrar realidades e mentalidades diferentes, assim como a aventura que é ser jovem hoje em dia, numa linguagem actual, crua e cómica.
— Peperan
© emma_saints

© emma_saints

O preconceito faz parte da nossa vida. Mais do que nunca é preciso denunciá-lo, especialmente o preconceito pequeno, aquele que nos afecta no dia-a-dia, impedindo-nos de crescer enquanto indivíduos, mas também todas as formas de preconceito que nos fazem olhar de lado para as outras pessoas. Todos diferentes, todos iguais, soa muito bem mas demora a acontecer.

Acho sempre que nunca fui vítima de preconceito, porque não pertenço aos grupos que a sociedade mais detesta: os pretos, os ciganos, os homosexuais. Não há homofobia em Portugal mas a conversa azeda se forem trans qualquer coisa ou aqueles paneleiros que se vestem de mulher. Drag Queen, meus senhores, com tanto direito a vestirem o que quiserem como qualquer um de nós.

Consta que é em trinta segundos que avaliamos a outra pessoa. E a ciência já comprovou que as pessoas altas e bonitas têm uma remuneração mais elevada, e que as gordas são a última opção porque, muitas vezes, se depreende que são pouco empenhadas. Continuamos a olhar o outro de cima a baixo procurando referências com as quais nos possamos identificar. O gajo é larilas e aquela tem mesmo ar de fufa. Lá vem o betinho. Este gajo é cá um drogado… Aquele é um puto irresponsável... são apenas algumas conotações associadas ao nosso aspecto exterior. Se eu, que nunca fui vítima de preconceito, senti, muitas vezes, aquele preconceito pequenino, nos olhares ou comentários dos outros, imagino as personagens da Casa do Cais e a sua sensação de desencaixe, que nada tem a ver com os sistemas sociais modernos de que falam os sociólogos. Na vida real, e nas personagens que criaram para contar esta história. A sua história, de certa forma, igual à de todos nós.

© emma_saints

© emma_saints

Choca. Não há pruridos porque na vida real arrotamos, beijamos e dizemos palavrões. Contudo, o filtro mediático sempre empurrou este tipo de produção para um circuito alternativo que é, em boa verdade, o gueto preconceituoso da produção audiovisual, sofisticamente polida nas palavras e nos gestos, nos sorrisos bonitos e na aparência perfeita dos seus protagonistas. O mundo tem mais cores do que aquelas que a comunicação social nos mostra. Foi preciso aparecer o YouTube para criar novas narrativas e protagonistas que começam, finalmente, a expandir-se para o mainstream dos media tradicionais.

Não há preconceito melhor ou pior. É sempre mau. E sim, o preconceito associado ao conservadorismo da RTP também é para aqui chamado, como se o operador público não tivesse, como obrigação, a inovação e a representação da sociedade tal como ela é. Este é um projecto RTP Lab, o laboratório criativo e experimental do operador público, que procura encontrar novas fórmulas que desenvolvam temas pouco explorados e formas inovadoras para contar uma história, cruzando géneros para criar uma nova narrativa: a digital.

Foto de capa: © emma_saints

no SAPO24: #NãoPactuarComEstaM*rd*

 

Um dia, ao final da tarde, com alguns dos meus alunos, em ambiente de aula mas num contexto em que as aulas já tinham terminado, fiz uma afirmação que se transformou numa espécie de mantra para eles. Sei-o porque, também há pouco tempo, revelaram-me que transformaram essa frase numa hashtag que usam entre eles, com a qual fizeram uma imagem de capa para o seu grupo de trabalho no Facebook.

Afirmei-o e repito as vezes que forem necessárias porque há coisas com as quais não podemos continuar a pactuar. Na altura, a questão respeitava ao preço das tarifas dos transportes públicos, o mau serviço, e as greves constantes que prejudicam o normal funcionamento das organizações. As m*rd*as são também outras, como o marketing dos brindes e das amostras que rendem likes mas não pagam contas a ninguém, dos eventos para ver e ser visto, nos quais não vemos verdadeiramente ninguém, com marcas a acharem que estão a comunicar. Não estão. Estão a mostrar um certo glamour bacouco que as posiciona exactamente nesse contexto pouco relevante dos sites de redes sociais, que pode vender no imediato, esfumando-se rapidamente...

É o Big Brother dos tempos modernos em que estamos todos de olho no outro, medindo quem vê o quê, onde e quando, ao mesmo tempo que puxamos os cordelinhos das marionetas, manipulando as supostamente fiáveis métricas do digital.

Alinhar com a tendência, quando discordamos, equivale a aceitar mais um estágio não remunerado, porque atrás de nós estão outros 30 a pedir por favor para ficarem, ou a deixar as coisas tal como estão só porque dá trabalho mudar.

Tenho a terrível sensação de que se zangaram as comadres e se estão a descobrir as verdades, algumas tão raras que parecem mentira. São cantinas que dão comida que nem aos porcos deveria servir, um organismo público que repentinamente muda de morada ou cenas raríssimas que deveriam servir o bem comum. Ouvimos as notícias mas, muitas vezes, andamos por aí a fazer de conta que não sabemos, porque dá menos trabalho do que levantar a voz e apontar o dedo a quem está errado. E esses, vão continuando, na confortável segurança de uma certa impunidade que decorre da insegurança e preguiça dos outros. Se eu podia escrever um texto bonitinho ignorando estas m*rd*as todas? Podia. Mas pactuarmos com isso é perpetuar um estado de coisas que nos levará a uma sociedade cada vez mais podre e individualista.

Não quero - não queremos - isso.

Vivemos numa democracia que facilmente se corrompe por vestidos e camarão. Ser corrupto é mau mas, pior, é a corrupçãozinha de vão de escada (ou de quiosque), de quem leva para casa os clipes ou os rolos de papel higiénico. Não terá sido isso mas creio que ninguém irá esquecer as pérolas deste caso que envolve vestidos, spa’s, gambas e outros pequenos luxos. A Raríssimas, criada com essa nobre missão de partilhar experiências, promover, divulgar e informar sobre pessoas raras, com doenças raras, é uma IPSS que recebe milhões de entidades públicas e outro tanto de associados e mecenas, pelo que não se percebe como chega a esta mediocridade que acrescenta letras ao nome de família ou um título académico ao nome próprio.

Sou contra julgamentos prévios, especialmente em praça pública, naquela lógica do dia-a-dia da polémica irracional, dos ódios de estimação que demonstram mais imbelicidade do que conhecimento na matéria. Mesmo perante a velha máxima de que onde há fumo, há fogo, tento sempre dar o benefício da dúvida mas, neste caso, parece-me particularmente difícil. Se o caso das Raríssimas me incomodou? Tanto quanto a vocês. Mas, antes falar sobre ele, importa perceber que isto - tudo isto - é apenas a ponta de um iceberg maior do que podemos imaginar e que estamos todo a bordo do Titanic.

Salve-se quem puder?... O melhor é #NãoPactuarComEstaM*rd*

Foto: Annie Spratt

 

 

 

 

no SAPO24: o António é uma fraude

 

Para os que decidiram ler, imaginando que iria falar sobre o nosso Primeiro-Ministro, não desistam. Não é sobre nenhum político em particular é, antes, sobre um ilustre desconhecido que, como tantos de nós, procura a felicidade. E uma conta bancária recheada.

 

Para reconhecer a felicidade é preciso conhecer o seu contrário, para darmos valor ao melhor que a (nossa) vida tem. Num país com os problemas estruturais que Portugal tem, ficamos muitas vezes limitados ao que conseguimos ver à nossa volta e que é tudo menos a ideia de felicidade.

 

Portugal é um país remediado que se dá ares de rico. E, como ele, também o António faz por isso, com a casa vistosa que é do banco, o carro espampanante que também é do banco, as roupas de marca que são da empresa de cartão de crédito, a escola privada, caríssima, paga sabe-se lá como, o ginásio da moda com a mensalidade (quase) sempre atrasada e a lista de supermercado que inclui muitos produtos de marca branca (não pela sua qualidade mas pelo seu baixo preço) e salsichas (porque os miúdos adoram!…). As origens do António são humildes e sempre preferiu ser conhecido pelo filho do senhor doutor do que pela empregada do médico cardiologista das Avenidas Novas. Criado entre meninos ricos, cedo aprendeu os seus jeitos e trejeitos, recusando adoptar a postura dos que lhe deram origem. Por ele, a mãe trabalhou horas a mais para pagar a Universidade privada e, por ele, sempre se escondeu entre a multidão. O António empregou-se numa multinacional, casou com uma menina de bem, também filha de um senhor doutor bem posto na vida. Decidiu viver uma vida de aparências que começa logo de manhã, quando desfaz a barba, veste a roupa cuja etiqueta esconde - nunca é da mesma marca da dos seus colegas endinheirados - e leva os seus filhos ao colégio. Tão preocupado com aquilo que deveria ser, esqueceu-se de ser e, por isso, não sabe quem é. Não pensa muito nisso, confundido uma certa apatia com cansaço, um apontamento de frustração com ansiedade ou a insegurança com a necessidade de ajudar o próximo. No supermercado, aceita encher um saco de papel do Banco Alimentar contra a Fome.

 

Todos conhecemos um António, que vive de aparências, mas também conhecemos uma Maria e a sua pobreza envergonhada. Ou uma Joana que é realmente pobre, fazendo parte das estatísticas daqueles 23% que vivem em situação de pobreza e exclusão.  

 

Portugal não tem muitas riquezas naturais e não explora devidamente as que tem. Faz um investimento esquizofrénico na formação e educação e, por isso, tem muita mão de obra barata e, outra, extremamente qualificada, para a qual não tem empregabilidade, entregando-a a outros países, que a valorizam. Somos pela igualdade desigual, com uma taxa de ascensão social muito baixa e lideranças no mínimo, duvidosas. Os favores, cunhas e compadrios são culturais e pouco contribuem para o desenvolvimento do país. A meritocracia existe, mas pouco, a favor de hierarquias imutáveis e pouco credíveis. Temos tanto um primeiro sector moribundo, com milhares de pessoas sem colocação, como uma websummit que deslumbra, ao mesmo tempo que deixa um rasto de inspiração e motivação para fazer o mercado mexer. Não nos falta capacidade para empreender - temos, aliás, inúmeros exemplos recentes e ao longo de toda a história - mas falta-nos aquilo que tenho feito um esforço enorme para aprender: a cultura do pitch sem vergonha, porque não é vergonha nenhuma valorizarmos as nossas capacidades e competências, cobrando pelo trabalho realizado. Sim, o trabalho intelectual, tal como todos os outros, também se paga, para que não cheguemos à terceira idade como ⅕ dos Portugueses, com reformas miseráveis, mesmo que tenhamos, como os jovens que entraram em 2016 no mercado de trabalho, de trabalhar até aos 68 anos. E, a ser, que seja a fazer aquilo que gostamos, independentemente das aparências e do que estas possam representar.

 

no SAPO24: Amo-te. Mas não posso dizê-lo.


Escrevi este texto inspirada pelas palavras da Helena Magalhães. Não links seus argumentos, apenas a breve descrição que introduziu numa publicação, no Facebook. Não chega para saber o que está escrito mas é suficiente para imaginar. Nesta era moderna de sites, blogs e partilhas públicas nos sites de redes sociais, achamos que conhecemos o outro só porque este publica umas fotografias assim ou assado. Também conversámos sobre isto há dias, admiradas com o facto de pessoas nos escreverem considerando saber muito sobre a nossa vida. Não sabemos nada uns dos outros, apenas aquilo que queremos que se saiba. O que não é o mesmo do que saber. A Helena escreve muito sobre o amor - ou a falta dele - e retrata, caricaturando, situações cliché do engate na idade adulta. Não nos conhecemos muito bem mas já gosto muito dela, agora que fazemos um bookcast, isto é, um podcast sobre livros, em conjunto. Adiante.
O amor na idade adulta é difícil e muito incoerente.
Faço parte do grupo que a Helena assume invejar, preocupada com creches e papas. Inveja?… Na verdade preocupo-me em gerir o tempo que passam a ver televisão, a usar o Musicaly ou o Instagram. Modernices que passaram a fazer parte da nossa vida e das crianças. E são essas mesmas modernices que nos dão cabo da cabeça nisto das relações amorosas. Ou proto-amorosas porque, algumas, não chegam a ser. Os especialistas chamam-lhe amor líquido, porque a segurança das relações à moda antiga foi substituída pelo individualismo, e uma certa intimidade digital, em que tudo pode acontecer através destas ferramentas de mediação que transformam o ideal romântico da relação. Online sex e cenas…
Uma relação demora o seu tempo e, hoje, tornámo-nos especialistas em fazer esperar, projectando a ilusão de uma vida cheia, sem espaço para mais uma pessoa, que terá de se esforçar para marcar a sua presença. Perdemos mais tempo a fingir, nos jogos de toca e foge, responde e não-responde, do que a ser quem realmente somos. O tempo que se perde nisto é equivalente ao tempo que demoramos a apaixonarmo-nos por alguém o que, muitas vezes, não chega a acontecer porque nos cansamos do jogo. Swipe aqui, swipe ali e, quando damos por ela, ficamos reféns desse jogo em que rapidamente passamos da caça ao caçador.
Entre os mais odiados estão, provavelmente, o Messenger do Facebook, o WhatsApp e o Tinder. Mas também o Instagram, com aquelas fotografias que a Helena tão bem descreve: infantis, imaturas, egoístas. Subscrevo e faço de espelho porque o que se diz deles é válido também para elas. A caracterização destas publicações nos sites de redes sociais equivale à ausência de definição de algumas relações modernas. Não somos amigos nem namorados, somos uma coisa no meio, dificil de explicar. Definições para quê? Antes de lá chegarmos já mudámos de ideias e estamos “noutra”. Queremos algo simples, fácil e prático, que possamos rapidamente substituir. Isso vende-se na Ikea e não se chama Amor, é provavelmente uma Bësta que dá dez vezes menos trabalho a montar do que o Amor, ou uma relação.
Entre homens e mulheres criou-se um vazio tão grande que será difícil voltar a preenchê-lo. Temos tanto medo de nos dar que nos fechamos sem arriscar. Eles idolatram-se em selfies enquanto elas arriscam no arrojo e levam um valente chega para lá porque, afinal, por mais tecnologia que possamos ter, tudo o que queremos é um belo namoro à moda antiga.


 

FOTOGRAFIA: https://unsplash.com/@jakeculp

A dança da chuva

Eu sei que escolher falar sobre sustentabilidade ou alterações climáticas é chamar à discussão todos os que acham que isto é puro alarmismo, um rol de mentiras porque está tudo bem, não há um oceano de plástico à deriva, e as radiações na atmosfera são apenas fumaça. Há uma cabala perpetrada não sei bem por quem, ou com que objectivos, para nos assustar com essa coisa a que chamam buraco do ozono. Balelas. Para esses e todos os que (ainda) acreditam que o sol anda à volta da terra, um grande bye boy bye.

Quando um artista português consegue recolher 48 toneladas de lixo e desperdício, quando usa para matéria prima aquilo que deitamos fora, ou que deixamos apodrecer na rua, algo está mal. A exposição Attero de Bordalo II, goste-se ou não, considere-se arte ou não, é, admitamos, um valente murro no estômago, porque mostra a quantidade de objectos desnecessários na nossa vida, e a despreocupação com que nos livramos daquilo que já não queremos, que se estragou ou que foi substituído por uma versão mais recente. São muitas peças feitas a partir de plástico, o mesmo que anda à deriva no mar, que mata baleias que dão à costa com as suas entranhas repletas de objectos de plástico, o mesmo que deitamos fora todos os dias sempre que abrimos uma nova embalagem.

 

Eu sei que falar sobre as alterações climáticas chama à discussão um conjunto de especialistas que se aprontam a negar as minhas afirmações, questionando-me por falta de conhecimento na matéria. Obrigada. Não é preciso estudar muito para perceber que há uma diferença fundamental na forma como vivemos hoje, em relação ao passado. Não. Nessa altura não era melhor e foi lá, no passado, que começámos a poluir sem a consciência das implicações que determinadas decisões poderiam ter no nosso futuro. Chama-se falta de informação e conhecimento.

E agora, qual é a nossa desculpa?

A informação está disponível para quem quiser saber mais e, embora possam existir dados contraditórios, há um consenso generalizado em relação à necessidade de fazermos alguma coisa, mudarmos o que fazemos ou, simplesmente, deixarmos de fazer, para garantirmos a sobrevivência futura no planeta.

Acredito nas pequenas ações que não mudam o mundo mas ajudam. Bordalo II, por exemplo, usou a arte para se expressar, demonstrar e apelar às consciências sobre a nossa acção no meio ambiente. Todos podemos fazer mais do que já fazemos: a torneira que se fecha quando lavamos os dentes, o duche que passa a ser de 3 minutos, os alimentos que compramos a granel, o saco das compras que levamos de casa. A mudança está (lentamente) a acontecer. Vejo cada vez mais pessoas com o seu saco para transportar as compras. Muda o mundo? Não. Mas é menos um saco que irá, a seu tempo, parar ao aterro. O attero.

Portugal está a secar e a culpa não é apenas das alterações climáticas. É também de políticas públicas que negam a existência do problema e, principalmente, que preferem ignorar a fonte desse problema, na nascente dos nossos rios que correm por aqui até ao mar. Os que não nascem no nosso país. Tal nunca foi devidamente acautelado. Ou foi, e os nossos vizinhos são uns malandros? Talvez seja um misto dos dois, na certeza, porém, que não somos nós que decidimos quando fechar a torneira. O que significa que estamos muito perto de ficar à míngua.

Quando é que chove? Ah, pois. Isso das alterações climáticas...

 

Adoramos fait divers

Dizer que há uma semana que não há uma notícia que se aproveite na comunicação social é demasiado mas, na verdade, têm sido tantos os fait divers que, se queremos estar informados temos de ser nós a procurar, escapando às não-notícias, evitando as alcoviteiras dos sites de redes sociais ou ignorando as parangonas que são apenas isso, grandes títulos sem qualquer conteúdo.

Colaborar com órgãos de comunicação social e, simultaneamente, criticar a sua actuação pode ser entendido como o contrário do que é suposto, uma vez que, já dizia Pinto Balsemão, numa revista que pertence a um grupo açucareiro não se escreve que o açúcar engorda...

Esse é o mal deste e de outros países, com estruturas corrompidas e subservientes que atiram areia para os olhos de quem quer saber mais. O fenómeno não é novo, agudizando-se na era da comunicação digital, com a multiplicação das fontes, a degradação da certeza e a fragmentação das audiências.

Lembro-me de uma professora me explicar que o fait divers seria um facto ou assunto pouco importante e de, na mesma altura, me questionar sobre a razão pela qual seria alvo de notícia. A inquietação persiste, especialmente agora que os maiores repositórios de fait divers - Facebook e afins - se transformam numa espécie de fonte para a produção de notícias. Fica a nota: o que acontece no Facebook não fica no Facebook mas devia. Este espaço, algures entre o público e o privado, é o novo ponto de encontro para as conversas de café e, ainda que uma conversa de café possa vir a transformar-se numa relevante notícia, essa é a excepção e não a regra. Entre o filho do Ronaldo ou a crispação em torno do Panteão, morreram mais pessoas por causa da legionella e ainda mais no terramoto no Irão. No centro do país a rádio faz directos para que a miséria de Pedrogão e a desgraça que assolou o centro do país não sejam esquecidas; jornais anunciam - discretamente - a subida do preço das portagens e ainda não percebi, exactamente, o que faz o Presidente da Colômbia em Portugal. Não esqueçamos a greve dos professores, o caso Tecnoforma, a seca e o aumento das temperaturas… Isto para dizer que, ao contrário do que agora se diz, se queremos estar informados, temos de procurar as notícias. Aquilo que vem ao nosso encontro são clickbaites, links atractivos para gerar tráfego, baseados nessa infinita curiosidade humana em espreitar a vida dos outros, ou incendiar discussões. Estéreis.

Num esforço para descomplicar a realidade cria-se um certo vazio de conteúdo; a guerra das audiências produz conteúdos iguais, editam-se os noticiários em tempo real, considerando o que faz o canal do lado ou interrompendo as notícias quando começa o bloco de publicidade; a necessidade de cliques faz do nada algo viral e deixa bloggers, vloggers e podcasters no centro da discussão, como alternativas mais ricas ainda que, tantas vezes, recheadas de outros fait divers, esses pseudo-calmantes naturais, num país que toma demasiados comprimidos: para dormir e para se manter acordado. Anda, por isso, um bocado atordoado.

 

Fotografia: @benwhitephotography

Paradise Lost

A manhã começou como começam as segundas-feiras desde que o yoga passou a fazer parte da minha vida: com um conjunto de inspirações e expirações, posições assim-assim acrobáticas e asanas que servem para muito mais do que fotografias bonitas no instagram, ainda o sol estava a nascer. Depois, já com a casa só para mim, sento-me na mesa de madeira da cozinha, a rádio a tocar em fundo, nova inspiração para abraçar o modo web summit em que me encontro esta semana não sem, contudo, sentir vergonha do mundo em que vivemos. Os Panama Papers abriram uma caixa de Pandora que nos deixava adivinhar que o pior estaria para vir. Uma parte chegou, entretanto, ao estilo paradise, mostrando que o paraíso é mesmo só para alguns...

Culpo a tecnologia por tudo isto. Não me refiro aos computadores, telefones ou aos sites de redes sociais, as primeiras opções que nos invadem quando a palavra tecnologia entra na discussão mas, antes, à tecnologia enquanto dispositivo que media a experiência humana, o artefacto cultural que nos define enquanto sociedade. A história da vida humana é também a história da nossa relação com a tecnologia e a forma como esta se foi tornando ubíqua, criando uma rede aberta que organiza a economia mundial em torno de redes globais de capital, gestão e informação. É a globalização no seu melhor, com a universalização das suas consequências políticas e económicas, às quais ninguém escapa.

O paradoxo está instalado com o melhor e o pior da tecnologia a assolarem-nos simultaneamente. Os papers do paraíso e o evento que estimula o desenvolvimento tecnológico acontecem em simultâneo. Coincidência?

Um evento como o Web Summit garante conteúdo que preenche páginas e páginas de jornais e poderia ocupar os noticiários do início ao fim. Estou a tentar perceber o que fazer e como me organizar para encontrar as pessoas certas e ouvir o que é  mais relevante. Trata-se de um programa complexo, repleto de boas escolhas, com um conjunto de pequenos eventos associados que farão qualquer um ficar cansado só de olhar para a agenda desta semana. Sinto-me como um miúdo numa loja de brinquedos em dia de aniversário, sem saber o que escolher ou a quem dar atenção. Tudo começou com um grupo no Facebook que se estendeu para o WhatsApp e que já me levou a silenciar as notificações desta aplicação. São 200 women in tech que se apresentam, fazem perguntas e combinam coisas num sistema caótico de mensagens que, creio, apenas as mulheres conseguem entender. Na caixa de correio entram constantemente novas mensagens, a maior parte delas confirmando eventos que subscrevi e nos quais planeio participar. A agenda está oficialmente cheia e ainda tive a brilhante ideia de lançar o repto para descobrir histórias pessoais da relação destas mulheres com a tecnologia. Já fui a muitas conferências, mas nunca a nenhuma assim, que se estende oficialmente pela cidade e noite fora, com 120 bares a juntarem-se à festa. Segundo consta, é no night summit que tudo acontece, porque se estabelecem relações num ambiente mais descontraído. Pago para ver milhares de pessoas todas juntas, interagindo no Bairro Alto ou na rua Cor-de-Rosa... Vou concentrar-me nos eventos que acontecem durante o dia. Diz-me a experiência que, depois de um dia inteiro a entrevistar, ouvir conferências, interagir no Twitter sobre as mesmas, espreitar as notificações no WhatsApp, sobreviver ao caos do metro ou do trânsito, nada melhor do que terminar o dia com uma sessão de yoga que também faz parte do calendário. Para Quarta-feira o problema repete-se, com um final de tarde repleto de eventos associados ao Web Summit que é, afinal, muito mais do que uma conferência, assumindo-se como um catalizador de encontros e negócios. 

Lisboa recebe, novamente, o maior encontro mundial de tecnologia e, entre talks, grupos e eventos dentro do evento, não somos capazes de ver a árvore na floresta. Estamos dominados por um panóptico que nos dá a ideia de uma dimensão maior do que a que temos e que, por isso mesmo, nos impede de ver o mundo - a realidade - tal como ela é. Efectivamente, achamos que pela tecnologia o mundo se amplia à medida que se torna mais pequeno quando, na verdade, estamos cada vez mais limitados. Mesmo que pareça que, por via das ferramentas tecnológicas, ninguém escapa ao escrutínio, tudo seja possível de descobrir e divulgar, só sabemos que se quer que seja descoberto, de acordo com os interesses do momento. Já o deveríamos saber. Como também deveríamos saber que dinheiro chama dinheiro e que os gestores de fortunas tudo fazem para as aumentar, mesmo que fugindo aos impostos. Os paraísos fiscais são o lugar perfeito para esconder grandes fortunas, e servem tanto para guardar dinheiro, como para o lavar ou esconder, evitando impostos ou perguntas inconvenientes. A mim dá-me uma enorme vontade de os mandar a todos para um certo paradise lost e não pagar nem mais um cêntimo ao Estado. Seja ele qual for. Mas, se sair daqui para qualquer outro lugar, mudam os papers e o paradise é o mesmo, verdade?

217 anos a apanhar as meias do chão

A notícia está de volta à agenda, com a agravante, em relação à anterior, de que não são apenas 79 dias de trabalho mas 217 anos para atingirmos a igualdade salarial entre homens e mulheres.

O tema regressa consecutivamente à discussão pública sem que o panorama efectivamente, se altere. Assinala-se o Dia Europeu da Igualdade Salarial e as notícias sobre o tema são claras: a igualdade está longe de ser uma realidade, especialmente ao nível da remuneração entre homens e mulheres. Para além da remuneração, as mulheres estão sub-representadas em cargos de gestão e têm menos promoções no emprego, aumentando a diferença salarial entre géneros à medida que aumentam as qualificações. Quer isto dizer que, a acumular ao trabalho não pago, ao qual a maior parte das mulheres se dedica, ainda passam parte do ano a trabalhar de graça. 

É assim’, dirá a maior parte. Mas não tem de ser. 

Vejamos o trabalho não remunerado, aquele absolutamente invisível que garante que está tudo bem lá em casa: num qualquer local, urbano e ocidental, às sete da tarde ela abre a porta, entra em casa, pousa os sacos, a mala, as mochilas dos filhos. Larga as chaves e o casaco em desalinho. Vê os sapatos dele no chão, a carteira em cima da mesa, na entrada da casa. Espreita e, ao fundo, o computador portátil está desligado, em cima da mesa. Olha para a sala. Ele está semi-deitado, pernas estendidas, um prato que já teve torradas, televisão ligada. Trocam os piropos habituais e a pergunta da praxe sobre o ‘teu dia’. Os miúdos correm e saltam, invadem o quarto de banho. É preciso despachá-los. Felizmente já se orientam sozinhos entre banhos e escovadelas de cabelo. Ela arrasta os sacos para a cozinha. Vai descalçar-se, colocar-se à vontade. Tira o relógio e os anéis. Volta ao quarto de banho. O mais novo já tomou um duche, está a vestir o pijama. Volta à cozinha. Loiça na máquina, sacos com compras para arrumar, jantar para preparar. Concentra-se na refeição. Chama-os. Pede ajuda para arrumar as compras e tirar a loiça da máquina. Escuta, ao longe, um som quase irado que afirma ‘acabei de chegar a casa! Estou a relaxar!…

Portanto: ele chegou a casa e já teve tempo para se colocar mais à vontade, fazer torradas, sentar-se no sofá e comer essas mesmas torradas, assistindo a um programa na televisão. Ela chegou e, para seu conforto pessoal, tirou os sapatos e acessórios dos pulsos e das mãos, não sem antes orientar os miúdos nesse processo de gestão dos horários e das tarefas que lhes estão associadas, pensar sobre o que fazia falta comprar no supermercado e definir o que iriam jantar. Relaxar?

Não há relax para a maior parte das mulheres porque se dedicam incansavelmente a essa tarefa invisível de planificação, coordenação e gestão que lhes ocupa parte do tempo, afigurando-se como uma carga mental que se junta à concretização de um conjunto de tarefas domésticas, a par das outras, de carácter pessoal e profissional. Independentemente das razões que levam a que eles passem mais horas de pernas esticadas no sofá porque ‘precisam relaxar’ (desse extenuante dia de trabalho igual ao delas), a verdadeira desigualdade está aqui. É seguramente uma das razões que leva tantas relações a acabarem sem que ninguém perceba a razão porque, afinal, ‘entendiam-se tão bem e pareciam tão felizes’. Excepto no facto dele precisar ‘relaxar’ quando as tarefas se acumulam, e as horas escasseiam, sem considerar que, para chegarem àquele momento em que é preciso tirar loiça da máquina ou preparar uma refeição, existiu todo um processo mental que ocupou a mulher que, também, precisa ‘relaxar’. 

É também isto que afasta muitas mulheres de cargos de decisão porque quando têm filhos e família são consideradas menos empenhadas no trabalho, enquanto eles passam a ser vistos como mais responsáveis. São tudo questões de percepção que se relacionam com a nossa cultura e que é urgente alterar. Mais do que os salários - que também importam - se distribuirmos melhor a carga mental, talvez as mulheres consigam ser (ainda) mais multi-tarefa e empenhadas no seu trabalho profissional, alterando a tal percepção de que se preocupam mais com a família do que com a carreira.

Não defendo a ideia de que homens e mulheres têm de ser iguais, porque não são, mas defendo a ideia de que uma relação se baseia numa partilha e que essa, não é apenas da intimidade, mas de tudo o que esta representa, inclusivamente apanhar as meias do chão. Partilhar não é 'dar uma ajuda' ou 'apoiar'. Partilhar é assumir e fazer. Eu sei que é possível porque há quem o faça. E não são os choninhas. São homens responsáveis e respeitadores dos valores da comunhão e da partilha, das diferenças e da complementaridade. Não me venham com essa dos papeis sociais, ou de que a mulher tem maior capacidade para organizar a logística familiar, porque é só uma forma subliminar de sexismo patriarcal de quem defende que cuidar da família é natural para as mulheres. Poderia ser, se não tivessem, também, de trabalhar para garantir o sustento da família. Tudo o resto é só uma ‘natural’ falta de respeito pela pessoa em questão. Quem nunca o fez, que atire a primeira pedra.

Adultério à parte, somos todos #metoo

Passou-nos ao lado o Information Overload Day, o dia do excesso de informação. O que tem este dia a ver com um acordão ou uma hashtag? Aparentemente, nada. Na verdade, tudo. Neste excesso de comunicação, falamos cada vez mais e comunicamos cada vez menos. O acordão está no topo da actualidade no Facebook, esse reduto último da realidade ficcionada e da verdade aparente.

Este não é mais um artigo de opinião sobre o acordão do Tribunal da Relação do Porto. O que está escrito na página deste acordão em circulação nas redes faz sentido? Não faz. Se pode representar um retrocesso à Idade Média? Pode. Até os Bispos portugueses já lamentaram publicamente as referências incorretas ou incompletas à Bíblia.

A Internet é uma ferramenta que precisamos aprender a usar para comunicar. Caso contrário, é apenas uma torre de Babel, um imenso palco para julgamentos sumários e linchamentos colectivos. O mundo está cheio de ruído e, no contexto online, o ruído é ensurdecedor.  O Information Overload Day serve para nos recordar que, demasiada informação não informa, e que o acesso não produz, necessariamente, conhecimento. Se pensarmos na forma como os sites de redes sociais, as notificações, o correio electrónico, telefonemas  e mensagens tomaram conta do nosso dia-a-dia, numa presença ubíqua, facilmente concluímos que precisamos reconsiderar a importância destas pseudo-conversações no Facebook.

O assédio e a violência estão envoltos numa grande vergonha, auto-comiseração, culpabilização e depreciação. Alyssa Milano pediu às mulheres para partilharem a hashtag #metoo se tivessem sentido na pele algum tipo de assédio sexual para que, desta forma, existisse alguma noção da magnitude do problema. A hashtag foi partilhada mais de 17 mil vezes no Twitter nas 24 horas que se seguiram à publicação da mensagem, mais rapidamente do que alguma vez aconteceu. O caso Weinstein e o acórdão do Tribunal da Relação do Porto são temas mais complexos do que a mera luta dos sexos quer fazer parecer, representando um contexto de juízos de valor inconsequentes, enormes desigualdades ilegais suportadas por uma conivência com um machismo latente. Weinstein usou e abusou do poder que tinha. Por cá, um triângulo amoroso acabou muito mal, com o corno e o outro a darem cabo dela. Parece uma cena de Hollywood. O verdadeiro filme é, no entanto, o filme noir da violência em Portugal, deixando agressores em pena suspensa, com reincidências de final infeliz. Importa, portanto, questionar tudo o que falha na sociedade para que isto aconteça.

São as mulheres mais instruídas as que menos sofrem actos de violência porque são também estas, as que têm maior independência financeira. Voltamos à informação e ao conhecimento, bem como  à forma como podem ser factores diferenciadores na nossa vida, quer para interpretar e pensar criticamente as mensagens em circulação, mas, sobretudo, para nos colocar num patamar de independência que nos protege de potenciais assédios e agressões. O nível educacional também está relacionado com a violência porque a força é um argumento, na ausência de outros argumentos. Dentro de dias Portugal recebe um mega evento de tecnologia, no qual as mulheres não estão sub-representadas, e que tem uma política concreta anti-assédio, definindo-o de acordo com princípios simples: comentários que reforcem as estruturas dominantes relativas à identidade de género, orientação sexual, deficiência, aparência física, raça, idade, religião, intimidação, stalking, registo de imagem ou som não consentido, contacto físico desapropriado ou contacto de cariz sexual indesejado, não são toleráveis no Web Summit.

Do ponto de vista do equilíbrio do programa, se olharmos para os oradores principais do Web Summit, verificamos que há poucas mulheres mas, se observarmos o programa no seu todo, as mulheres estão presentes em inúmeras sessões e domínios. No que respeita a participantes verifica-se uma diferença de 10% a mais para os homens. A este nível, a organização desenvolve, há dois anos, uma iniciativa para a promoção da igualdade de género, com a oferta de 14 mil bilhetes para mulheres, com o apoio da booking.com. A iniciativa já deu resultados e a percentagem de mulheres a participar no evento cresceu 42% nestes dois anos, transformando-o no evento global de tecnologia mais equilibrado em termos da relação entre homens e mulheres.

A área da tecnologia tem sido dominada por homens ao longo dos tempos e há uma tentativa genuína da maior parte das grandes empresas para atrair profissionais do sexo feminino. Este processo  resulta, também, de uma maior literacia tecnológica por parte das mulheres, do seu investimento na educação e desenvolvimento de conhecimentos de carácter tecnológico que, seguramente, contribuem para evitar que, acordãos como aquele de que tanto se fala, sejam escritos. A adjectivação da sentença, em torno das acções dela, sem adjectivar as deles, explica muita coisa. De acordo com a Lei, nada deveria ser justificação para morrer à paulada. Ou será? Talvez acharmos que sim (ainda) explique os números da violência contra as mulheres em Portugal, independentemente do que a tecnologia possa fazer por nós.

Fotografia: Matheus Ferrero

 

 

 

 

A key que faltava: fogos.pt

Lá atrás no tempo, bem atrás no tempo, cabeças rolaram para que o indivíduo pudesse ser mais do que isso, assumindo-se como figura central numa sociedade cujas hierarquias se transformaram. Hoje, raramente pensamos no significado que tem esta possibilidade de escolhermos quem nos representa na tomada de decisões e que, consequentemente, conduz, à distância, parte do nosso destino. 

A cidadania ativa é um conceito que está presente, ainda que pouco ativo, perante o paradoxo que a própria democracia em si representa: podemos escolher mas não sabemos o quê, ou como escolher, e há muito que deixámos de compreender o verdadeiro sentido da soberania popular porque, afinal, eles fazem o que querem.

Nem sempre são necessárias crises ou cataclismos, mas momentos como o que vivemos atualmente em Portugal fomentam a ação, mesmo dos que se deixaram encantar pelo laisser faire, laisser passer que também a revolução francesa implementou. O João Pina — ou @tomahock no Twitter — não deixa andar e faz. Criou um site que "dá baile" às autoridades competentes na matéria e que, na noite de Domingo, esteve perto de crashar por força do número de acessos para acompanhar os incêndios em Portugal.

Programador de profissão, criou o fogos.pt em 2015, numa altura em que a informação sobre os incêndios era disponibilizada em PDF. Arcaico, mesmo para aquela altura. Bem sei que compilar e apresentar informação complexa, de uma forma simples para o utilizador, é uma das tarefas mais difíceis na estrutura de uma página web mas, se um programador, sozinho, faz um fogos.pt, o que andam as organizações do setor a fazer?

Estrategicamente, pouco, e no momento que importa, ainda menos. Também sei que a web tem sido a última das preocupações de organizações desta natureza, mas é urgente absorver o choque tecnológico e adaptarmo-nos às características da sociedade em que vivemos. A génese do site resulta de uma conversa entre amigos, que desabafavam sobre a necessidade de acederem à informação de forma simples e rápida.

Com umas linhas de código, @tomahock começou a resolver o problema, apresentando a informação de forma direta, facilitando os processos. Poucos cliques. Como deve ser a comunicação em contexto digital. O site fogos.pt usa a informação disponibilizada pela ANPC, disponibilizando-a online, na aplicação iOS e Android, com sistema de notificações e alertas, ao mesmo tempo que comunica através do site, das redes sociais e do correio electrónico.

Para quem acha que tudo isto é simples, não é. Programar um site ou uma aplicação móvel não é a mesma coisa e a criação de aplicações para sistemas operativos diferentes também implica conhecer linguagens diferentes, bem como a aquisição de licenças para as publicar na AppStore e Google Play. No processo, @tomahock admite usar algumas algumas ferramentas da comunidade, mas foram todas programadas e desenvolvidas por ele, com o objetivo de ajudar quem, no terreno, precisa de informação em tempo real.

  Primeiras linhas de código do fogos.pt (10/08/15) @tomahock

 Primeiras linhas de código do fogos.pt (10/08/15) @tomahock

Tudo começou há três Verões e, ao longo deste tempo, o site tem sido optimizado (SEO) para direcionar para o fogos.pt as pesquisas no Google relativas a incêndios. No passado domingo foram mais de 10 mil acessos simultâneos ao site, ultrapassando os limites de pageviews do site.

Uma vez que este está associado ao Google Maps que, por sua vez, associa os acessos para cada visitante do fogos.pt, tal significa que, quanto maior o número de acessos ao mesmo tempo, maior o número de solicitações à Google, até ao limite da quota disponível para este site. O acesso paga-se (e bem!) e, na noite de Domingo, @tomahock apelou à comunidade para disponibilizar acessos, através de outras contas, para manter o site a funcionar. O Twitter revelou-se uma máquina de comunicação solidária com centenas de keys (acessos) diferentes, alguns dos quais criados por pessoas que foram, propositadamente, criar (e aprender a fazer, porque estamos num domínio de “developers” que não é o mesmo que criar uma conta no Gmail) estas keys para ajudarem a manter o site ativo. Estamos a falar de cidadãos que se envolvem, que se mexem e, com isso, contribuem para uma sociedade melhor.

Estou — estamos, creio — grata por existir um João Pina que dedica parte do seu tempo a ajudar os outros, provando que há mais na tecnologia para além de utilizadores fanáticos de Facebook e que esta, como qualquer arma ou ferramenta, tem um potencial enorme para melhorar a vida em sociedade.

No entretanto, a própria Google apercebeu-se da situação e ampliou os limites da conta do fogos.pt. Se isto não é mobilização pela tecnologia, e esta ao serviço do bem, não sei o que será.

Agora vão e aprendam a criar keys, em vez de passarem o tempo a espreitar e comentar a vida dos outros nos sites e redes sociais. Nunca se sabe quando pode ser preciso ajudar...

Acreditar. Em quê?

O mundo é um lugar estranho.

A manipulação sempre existiu e, aliás, a história do século XX é, também, a história da manipulação política e mediática. Lá atrás no tempo os fascistas foram pródigos na forma como conseguiram instituir um pensamento único, commumente aceite. Ou quase. 

Havia censura, interferência e controlo. Hoje pensamos que não. Efectivamente não sabemos até que ponto estamos, também, a ser vítimas de um fenómeno que não conhecemos na globalidade, que nos tolda a visão e condiciona a forma de pensamento. Por consequência, a opinião. 

Só vejo o que quero ver e apenas aquilo que os algoritmos pensam que eu quero ver. O que, em boa medida, faz como que não veja quase nada. Não quer isto dizer que antigamente era melhor, porque as fontes de informação eram mais reduzidas e controladas, quer apenas dizer que convém pensar sobre aquilo que nos colocam à frente dos olhos.

Sobre a Catalunha, Asange diz e com razão, que este é um momento de conflito moral e político, que opõe a Espanha com reminiscências de Franco a uma Catalunha moderna e à cidade de Barcelona, internacional e altamente digital. Uma cidade dos tempos modernos, portanto. Contudo, o que por lá se passa é tudo menos moderno porque a repressão é a forma mais arcaica de conter as ideias. 

Nos Estados Unidos, essa nação (supostamente) avançada com mais prémios Nobel da história - este ano recebeu mais um, para três investigadores que se dedicam a estudar o ciclo circadiano -  é também esta a nação que anda ao contrário em relação à licença de porte de arma, entregando-as a qualquer um. Quantas pessoas já morreram, no mundo, porque outra decidiu sair de casa, de arma em riste, e desatou a disparar sobre tudo o que mexe? Há mais malucos nos E.U.A. ou o facto do lobby das armas ser poderosíssimo cria malucos prontos a disparar? Os tempos do Far West não foram propriamente bonitos, se pensarmos na forma como as armas instalaram uma cultura de poder pelo fogo. Já deveria ter terminado há muito tempo. Este massacre prova que o que acontece em Vegas não fica em Vegas porque, simplesmente, falha num ponto fundamental da existência humana, a segurança e integridade física. Não admira, portanto, que tantos se mudem para Lisboa. 

Por cá, neste município, como em tantos outros, o Far West é outro, menos perigoso porque não é à lei da bala, mas igualmente preocupante pela sua demência. Ou esquizofrenia. A primeira não tem cura, apenas tratamento para alívio dos sintomas e declínio progressivo. A segunda é socialmente penosa. A doença mental é sempre alvo de estigma social. Em qualquer dos casos, o mundo não vai bem. As nossas autárquicas são disso um bom exemplo e, mesmo que a abstenção tenha diminuido, ainda há muitas pessoas a quem a política nada diz e sobre a qual nada têm a dizer. O que, por si, também é preocupante. Ou não, porque verdadeiramente alarmante é o circo mediático e político, a falta de ideias, as propostas que cheiram a mofo e as discussões sem alma, ideologias requentadas e candidatos que acham que, pelo facto de existirem, são uma alternativa. A quê? A quem? É triste chegar à mesa de voto, olhar para o boletim e não relacionar os nomes com as campanhas. Significa o imenso vazio e a distância entre emissores e receptores de uma comunicação que fez tudo menos passar uma mensagem. A prova de que tudo isto é muito poucochinho são vitórias retumbantes que indignaram os indignados do Facebook que, normalmente, não fazem mais do que publicar uns memes alusivos ao tema do dia. O que também é muito pouco. Talvez por isso, de meme em meme, ou de gif em gif, os menos maus vão levando vantagem. O que é tudo, menos bom.

 

Imagem: @drossthethird