2018

no Sapo24: Pior cego é o que não quer ver

Portugal é um país pobre. Sempre foi um país pobre e dificilmente passará a ser um país rico, apesar da riqueza, em bruto, que existe em Portugal.

Podemos não ter diamantes, petróleo ou outras fontes naturais de riqueza mas temos o mar. E foi sempre o mar que tornou este país enorme, apesar da sua reduzida dimensão em terra. Evito falar mal do nosso país porque nós, todos, somos como a mulher casada que fala terrivelmente do seu marido mas que, simultaneamente, não admite que ninguém o faça, defendendo-o e justificando as suas acções. Estranho, mas acontece.

Contudo, há alguns factos simples que teimamos em ignorar, que podem ajudar a perceber a razão pela qual nunca deixaremos de ser remediados e que nada têm a ver com o lastro negativo que o regime de Salazar deixou em muitos de nós. Na verdade, são aspectos que nada têm a ver com ideologias políticas ou sistemas económicos, relacionando-se, ainda que indirectamente, com a mais prosaica das economias domésticas: não podemos gastar mais do que temos ou produzir sem matéria prima. 

Portugal nasceu pobre e, um dia, olhou para o mar, percebendo que poderia ser essa a sua saída. Aventurou-se e descobriu pessoas, produtos e locais, abrindo novos mundos ao mundo. Esqueceu-se, contudo, que, cedo ou tarde, outros lá chegariam. Explorou, enriqueceu sem investir no seu próprio desenvolvimento. Quando as novidades deixaram de ser novas, procurou outros locais e repetiu a fórmula até que uma de duas coisas acontecia: outros chegavam, inovavam ou, simplesmente roubavam enquanto, no local, deixávamos de ser bem vindos. Voltámos muitas vezes à metrópole do mundo para recomeçar, tudo outra vez, porque é essa a nossa natureza: desbravar sem consolidar. Avançamos sem medo mas pouco ou nada ganhamos com isso. 

Ainda assim, houve quem tivesse olho para perceber que poderíamos usar o que vinha dali, para produzir aqui, e vender acolá mas faltou-nos, sempre, o fio condutor que é fundamental nestas políticas e, por isso, inevitavelmente acabámos por deixar indústrias morrerem obsoletas. Mais tarde, enfiámos a mão numa espécie de saco sem fundo e pensámos ter encontrado a solução para os nossos problemas. Novamente, a visão de curto prazo repetiu os erros e estamos, ainda, reféns de uma Europa que aprendeu, usou e abusou, cresceu inspirando-se e apoiando-se no que começámos a construir há muitos séculos e que nunca soubemos verdadeiramente aproveitar. Usámos as especiarias, a seda, o ouro, os escravos e o café, esbanjando. É o que sabemos fazer melhor: monumentos. Exposições. Viagens. Representações. Estradas. Estádios. Muita parra e pouca uva que se traduz em muitos Portugueses pobres. Não são remediados ou classe média que estica o ordenado até ao final do mês. 

São p o b r e s. 

Sabem o que isso significa? Quer dizer que, apesar de estarem empregados, continuam a não ter dinheiro para o essencial. E o problema não é o preço da habitação em Lisboa que serve para os estrangeiros se instalarem e passearem alegremente no eixo Amoreiras - Lapa - Estrela. O problema é maior porque o trabalho é precário, mal remunerado e vivem em condições de habitação pouco dignas. Traduzindo: não têm casa ou vivem em casas degradadas o que contribui para desencadear (ou não resolver) problemas de saúde. A chamada pescadinha de rabo na boca porque para estas pessoas não há prevenção, os cuidados básicos são muitas vezes inexistentes e a doença tende a tornar-se endémica porque não só não é evitada como, para além disso, não é tratada ou é mal tratada, por falta de meios e dinheiro para medicamentos. Mas é também este o país que aprova leis urgentes para os cães nos acompanharem aos restaurantes, da mesma forma que, precisando de renovar e cuidar de insfraestruturas esenciais, opta por investir num elevador panorâmico para levar os turistas a ver as vistas na Ponte 25 de Abril. Ou que, em vez de discutir como vai resolver os problemas fundamentais da vida da sua população (ou boa parte dela), aquece a discussão no Parlamento com questões conceptuais, dignas de países em que a pobreza foi erradicada e nos quais as condições de vida são equivalentes para toda a população. Nenhum tópico que respeite à vida humana é mais ou menos digno do que outro contudo, sempre ouvir dizer que casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão…

 

Photo by Monica Silva on Unsplash

no SAPO24: Este dia é das mulheres. Não serão, todos os dias, dias das mulheres?

Este dia, esta semana, é das mulheres. Não serão, todos os dias, dias das mulheres?

Um pouco por todo o mundo celebra-se um dia que deveria ser todos os dias e, dessa forma, dispensaria um dia especial. Acredito que o empoderamento feminino tem de acontecer diariamente e que a discussão em torno do eterno feminino se deve fazer, também, todos os dias, com medidas e acções que, efectivamente, tenham consequências positivas para os direitos, liberdades e garantias da mulher sem, contudo, desprezar as do homem. Não faltam debates e discussões, mas ainda faltam soluções.

Espera-se que o 2018 seja um ano de mudança no que toca ao ativismo feminino. Espera-se que, depois de 2018, as mulheres deixem de sentir medo e que a igualdade, em termos de segurança, poder e remuneração salarial, se torne uma realidade. 

É também esperado que este seja o ano em que se põe, finalmente, fim ao sexismo e ao assédio sexual. Não sei se já perceberam mas o capítulo sobre estas conquistas, resultado da união das mulheres em torno de uma causa maior, está a ser escrito e cabe-nos a nós - todas - ajudar a escrevê-lo. Contudo, não o podemos fazer sozinhas. Os homens podem - e devem - ser chamados à discussão. Mesmo os machistas, para perceberem que estão cada vez mais isolados na sua acção.

Boa parte da discussão pública sobre esta questão faz-se numa separação entre homens e mulheres quando, na verdade, me parece que o que precisamos é de maior união e reconhecimento das diferenças que podem - devem - ser complementares. 

Juntos - juntas - seremos mais fortes e a integração do outro tem de começar exactamente por nós, mulheres, que tantas vezes fomos colocadas de parte em função disso mesmo: a diferença dos papéis de género. Não adianta discutir diferenças fisicas e biológicas porque, simplesmente, existem. Precedem, inclusivamente, toda esta discussão de carácter socio-cultural. Importa discutir os pequenos problemas que afectam todos os dias as mulheres, porque é nestes aspectos que reside parte da solução: ao ignorarmos onde se fundam as grandes questões não estamos, em nada, a contribuir para a sua solução porque se trata de uma maquilhagem do problema. Não vamos conseguir mudar o paradigma numa geração sem educar os nossos filhos e filhas para um mundo diferente, fundado numa lógica de aceitação e respeito pela diferença, de entre-ajuda e alteração da lógica inerente aos principais papeis sociais. Também estes precisam actualizados…

Podemos criar quotas na Assembleia da República ou obrigar as grandes empresas a integrar mais mulheres nos seus quadros de administração. Pouco mudará se não mudarmos a mentalidade que ainda baseia a estrutura social na mãe e mulher-que-é-também-profissional. Os nossos irmãos, maridos e amigos foram educados numa cultura machista e actuam, diariamente, em conformidade. Sem que disso se apercebam. Nós também, sempre que dizemos, deixa estar eu faço ou quando reproduzimos, em casa, o velho paradigma… 

Quando duas pessoas decidem viver em comunhão, enquanto casal, estão a decidir partilhar a sua vida. Essa vida inclui almoços e jantares, roupa interior que deve ser lavada e pendurada no estendal, lixo carregado escadas abaixo, filhos com fraldas, outros que adormecem ao colo, TPC e reuniões de pais. Inclui também um plano alimentar definido e listas de compras no supermercado, bem como a planificação das tarefas de limpeza e arrumação da casa. Um frete, portanto, já que nem todas as mulheres de carreira podem suportar os custos de alguém que toma conta da casa. 

É, normalmente, a mulher que assume a liderança da economia doméstica. Em 90% dos casos, a culpa também é sua, pelo tom paternalista que usar quando o acusa d não saber fazer as coisas. E, então, ele não faz. Perdemos todos porque continuamos desnecessariamente sobrecarregadas e o mundo não muda porque mantemos a ideia de que assim é que está bem. Não está. O tempo que ocupamos com acumulação de tarefas domésticas é tempo que eles ganham para progredirem nas carreiras. 

Então e a nossa carreira?

Este texto inclui um podcast que podem ouvir aqui

 


Photo by Ahmed Carter on Unsplash

no SAPO24: o sorriso de um filho não tem preço

Nunca me assumi como especialista na matéria e, talvez por isso, sempre que escrevo sobre o mercado de trabalho o faça com de coração aberto. Acabo de me cruzar com um artigo, já antigo, do Expresso, que revela exactamente o que venho afirmando ao longo o tempo: a escravatura moderna, a produtividade e o excesso de horas que passamos a trabalhar. O volume de trabalho excessivo, os outros que não cumprem as suas funções (ou as desempenham de forma insatisfatória prejudicando o fluxo dos processos de trabalho) ou porque, simplesmente, fica mal ser eficiente.

Quando, em França, se institui que depois do horário de trabalho não se consulta o correio electrónico, nós por cá continuamos a insistir no erro de empurrar com a barriga as tarefas que nos desagradam, a interromper o trabalho por tudo (e por nada), a adiar decisões em reuniões que, como diz a frase que circula em memes e fotografias inspiracionais, poderia ter sido um e-mail. A tecnologia não veio facilitar grande coisa. Aumentou a velocidade, e capacidade de produção, libertando-nos para fazer mais. Não necessariamente melhor.

Há vários estudos sobre o tema revelando que trabalhamos mais horas do que deveríamos e que se instituiu o (péssimo) hábito de levar trabalho para casa: porque podemos, estamos sempre conectados e, porque, ligações VPN simulam o sistema a que temos acesso no escritório.

Que bom.

Também sabemos que exemplo vem de cima, ou seja, são as chefias (provavelmente aquelas que chegam depois das 10h) que impõem verticalmente que as horas sejam dilatadas além do horário de trabalho. E aceitamos porque?...  Temos medo de perder o emprego.

Pois. O tal "deixar de fumar" de que falava a semana passada. Lembram-se?

Acontece que este fumo passivo nos está a matar: dormimos menos e, por isso, corremos maior risco de doenças cardiovasculares mas, também, exaustão, ansiedade e depressão. Para quem tem filhos, a falta de paciência é o denominador comum. Normalmente não são eles os terroristas. Somos nós que, na nossa indisponibilidade, fazemos deles pequenos terrores quando, afinal, só querem o nosso amor e atenção. Contudo, sem trabalho, não há pão. Apenas amor.

Terrível equação.

Nest quadro destacam-se os jovens, mal pagos e sem grande esperança no futuro. Muitos estão em situação de desemprego ou emprego precário. Todos os que conheço se queixam disso, dos estágios que vão acumulando, das ofertas com contratos irregulares e baixos salários. Dividem apartamentos e pouco lhes sobra para uma vida confortável. Continuam, quase aos trinta anos, a depender dos pais. Outros escapam-se lá para fora, provando que o problema não são eles, as suas capacidades ou formação mas um sistema muito dúbio de contratação e distribuição dos rendimentos nas empresas.

Depois temos os que foram despedidos numa vaga qualquer de downsizing , a par com os que ganharam coragem e largaram tudo para procurarem uma vida melhor. Não procuram mais dinheiro, nessa lógica que a sociedade instituiu de que precisamos de mostrar o nosso sucesso com base naquilo que possuímos mas a sensação de missão cumprida. 

Talvez por isso existam tantas novas formas de trabalhar: os que optam por deixar as grandes empresas para se tornarem empresários em nome individual - os freelancers e empreendedores modernos -, os que agarram nas suas economias e começam a fazer o que os apaixona: do turismo à alimentação saudável, não faltam exemplos. Há, ainda, quem reaprenda a organizar as suas prioridades e transforme o que sempre lhe deu prazer para ocupar os tempos livres numa ocupação remunerada. A seguir aparecem pessoas com influência digital e grande sentido de oportunidade que reúnem estes novos pequenos empresários no mesmo espaço. Com a magia da comunicação estratégica, transformam aquilo que poderia ser apenas um ponto de encontro de pequenas marcas num happening muito cool, repleto de projectos que queremos mesmo conhecer. A seguir chegam marcas maiores e agarram na ideia para a levar ao mainstream, chegando a cada vez mais pessoas. O próximo acontece dentro de dias, no início de Março, e reúne dezenas de marcas portuguesas - que existem sobretudo nas redes sociais - para apresentarem fisicamente os seus produtos.

A ideia não é nova mas corresponde, de certa forma, à tendência de recuperação de práticas antigas: nós sempre tivemos feiras e mercados. Actualmente têm mais estilo, posicionando-se como a cena urbana mais trendy do momento. O Blog da Carlota começou há cerca de 5/6 anos quando Fernanda Ferreira Velez decidiu começar a retratar o dia-a-dia da filha Carlota. Criou o Mercadito da Carlota, com marcas maioritariamente portuguesas que vai apresentando no blog ao longo do ano. Numa lógica semelhante, o Market Stylista, organizado pela blogger Maria Guedes, resulta da sua inspiração no Coolares Market, para criar um espaço no qual as marcas nacionais, que já promovia no seu Blogue Stylista, pudessem contactar com o público.

© Luis Neto

© Luis Neto

Algo semelhante acontece no próximo sábado, no Mercado NiT, no Lx Factory, em Lisboa, seguindo a lógica de transição da revista do digital para novas plataformas, e da criação de um ponto de contacto entre marcas e o seu público, muitas das quais são já habituées nestes mercados. Ou markets. As palavras estão em inglês para o texto ser propositadamente mais cool e promover a ideia que Obama protagonizou: yes we can. Podemos sim, melhorar a nossa vida fazendo mais com menos. Porque o tempo - mais ainda o sorriso de um filho - não tem preço e a nossa inspiração para a mudança pode muito bem estar num destes mercados. 

Fonte da imagem de capa

no SAPO24: #LoveWhatYouDo é mais do que uma hashtag

Há uma semana, escrevia sobre o amor, nas suas várias formas e, confesso, há muito que não tinha tanto prazer na escrita. Quem se dedica a um projecto como o urbanista tem de o fazer por amor, caso contrário, desiste ao fim de pouco tempo. O amor por aquilo que fazemos contribui para o nosso bem-estar, especialmente porque permite aquele cliché sobre saltar da cama com um sorriso... Estou segura em relação a essa determinante, bem como da sua importância para a nossa sanidade mental e consequente felicidade.

Estamos numa altura que tudo parece muito simples, que o digital tudo resolve e que as respostas estão todas no Google. Não estão. Mas estão dentro de nós, desde que as queiramos encontrar. O mundo, no entanto, é mais complexo do que alguma vez foi. Rápido e exigente, com mais opções e, contudo, limitando-nos perante cada uma delas, numa cultura social complexa, repleta de idiossincrasias paradoxais que nos fazem, muitas vezes, não perceber o que se passa, associada a uma cultura laboral que é tudo menos justa ou motivadora. A meritocracia é apenas uma palavra no dicionário e a liderança depende mais de autoridade do que do exemplo ou carisma. Trabalhamos horas a mais porque não nos organizamos, não deixam organizar ou porque parece mal acabar o trabalho a horas. Há inúmeros exemplos de liderança negativa que não só não lidera, como não sabe gerir, criando contextos laborais de insegurança e mau estar, baseando as relações profissionais na agressividade e, muitas vezes, no medo, principalmente o medo de perder o emprego. A Associação de Psicologia dos Estados Unidos alerta para esta relação entre a liderança e a nossa saúde: trabalhar com um chefe que nos deixa infeliz equivale a fumar um maço de cigarros por dia.

Eu, se fosse a vocês, deixava de fumar. 

Abandonar um vício é extremamente difícil, assim como a decisão de deixar um emprego que não nos faz feliz. Porquê? 

Está na moda dizer que a principal razão é o medo. Porque as pessoas são avessas à mudança, porque têm muito medo... Eu não concordo.

Este argumento do medo não desenvolve. Medo de quê? De mudar? Ou de perder?...

Reconheço que é, efectivamente, o medo que impede muitas pessoas de abandonarem um emprego de que não gostam. Trata-se, no entanto, de um medo muito realista e uma noção concreta de como funciona o mercado de trabalho, sobre o qual se diz que os Portugueses não querem trabalhar quando, na verdade, para trabalhadores qualificados - e altamente qualificados - não há propriamente grande variedade de oferta no mercado. Como escrevi a semana passada, a situação agudiza-se a partir dos 40 anos porque, consta, são profissionais cheios de vícios e com uma experiência cuja remuneração supõe um salário acima da média, se entendermos que a média está entre os 500 e os 1000€. É então que nos falam do propósito de vida e lixam isto tudo porque percebemos que estamos entre a espada e a parede: se ficamos e não arriscamos continuamos infelizes, se nos atiramos de cabeça acabamos, muitas vezes, a ter de transformar o nosso hobby num trabalho a tempo inteiro ou a acabar num emprego sem saída e muito mal pago. Todos sabemos que recomeçar só é fácil para os amigos dos amigos dos amigos que nunca ficam desempregados. Estão entre projectos.

O país também sofre com esse outro problema dos amiguismos. Não são as cunhas, porque essas só servem para criar os empregos de cabide, para pendurar pessoas numa empresa sem que estas sejam verdadeiramente úteis. Isto de amiguismos é um fenómeno que ocorre de forma natural, embora altamente prejudicial, porque favorece sempre os mesmos: os que têm amigos e que acabam por ser escolhidos em detrimento de qualquer outra pessoa que possa querer candidatar-se a uma determinada posição porque, simplesmente, esta não é anunciada. O amigo até pode ser a pessoa certa mas, disso, nunca teremos a certeza porque o processo de selecção se baseou exclusivamente no núcleo de pessoas que já conhecemos ou das que nos chegam recomendadas por outras. Os nossos amigos. E daqui não saímos, num clube para o qual também é difícil entrar. E que não é, exactamente, o tão afamado networking.

O networking funciona. Obviamente que sim, porque quando nos perguntam se conhecemos alguém para uma determinada função, pensamos imediatamente nos que nos são próximos, naqueles em quem confiamos e cujas competências são adequadas. Será que isso se consegue participando em eventos de networking que continuam a estar na berra?

Sim e não.

O networking que funciona não depende de cartões de visita que entregamos num contexto em que todos os trocam porque sim. O networking que funciona baseia-se em relações com pessoas que passam a conhecer o nosso trabalho, que gradualmente o vão respeitando para que, quando a oportunidade surja, poderem recomendar. Não acontece do dia para a noite, não depende que encontros fortuitos a que chamam networking, de feiras meetings, meet ups, conferências sectoriais ou de um Cv. Depende de relações desinteressadas que se desenvolvem numa lógica de entre-ajuda para a construção de um novo contexto profissional que possa servir melhor a todos e a cada um de nós, focado no que realmente interessa e que expliquei, também, no texto da passada semana: fazermos o que gostamos e sermos remunerados por isso.

no SAPO24: Internet a mais, arranhões a menos

A ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) apresentou um estudo sobre a relação das crianças, entre os 3 e os 8 anos, com os ecrãs, assumindo, no título, o boom digital referente ao tempo passado online. Tive um professor na faculdade que nos obrigava a ler um livro com uma passagem que me ficou na memória, relativa à televisão. O autor afirmava que esta era uma ladra do tempo e criada infiel, chamando à atenção para a forma como uma geração foi deixada sozinha de frente ao ecrã para se socializar e educar, enquanto alertava para a necessidade de contextualização e explicação daquilo que era transmitido na televisão. 

Longe vão os tempos em que a televisão começava a meio do dia e em que, chegados a casa depois da escola, tínhamos desenhos animados na tv. As manhãs de fim de semana eram passadas com o Vasco Granja e aqueles desenhos animados que nenhuma criança entendia, mas assistia, ou o Eng. Sousa Veloso no TV Rural. Eram os tempos em que andávamos na rua até uma das mães vir à janela gritar “oh João, anda jantar”, em que nos esfolavamos, partiámos cabeças, erámos terroristas mas nenhum pai se queixava de sermos hiperactivos porque, normalmente, depois de regressarmos a casa, caíamos na cama para dormir, sem o excesso de solicitações dos ecrãs brilhantes de hoje. Não era necesariamente melhor, era apenas diferente, com mais bactérias e arranhões. Principalmente, menos alergias.

O estudo hoje apresentado indica que mais de 20% das crianças entre os 3 e os 5 anos, e mais de 60% das crianças entre os 6 e os 8 anos, acedem regularmente à internet. Se é um facto que há muitos aspectos positivos neste facto (estímulo à criatividade e imaginação, domínio de ferramentas multimédia, favorecimento da aprendizagem, …) e que estes recursos, quando bem utilizados, potenciam o aumento do conhecimento do mundo, também é verdade que, na maior parte dos casos, pais e professores (perdoem-me todos os que diariamente fazem um esforço por se manterem actualizados!) não sabem usar a internet como ferramenta de conhecimento, usando-a apenas como entretenimento. Por vezes duvidoso… É importante percebermos que esta nova realidade substitui a antiga cultura de pares, na qual as crianças estão em rede, num processo de integração e dinamização de laços sociais que contribuem para a cosntrução da sua identidade. Contudo, num universo tão rico e diversificado, poderão fazê-lo desacompanhadas, sem a real noção dos perigos que esta realidade também representa, da diferença entre o real e o virtual ou da credibilidade das fontes de informação? Não. Essa será, em boa medida, a nossa tarefa e a da escola, ensinando a utilizar, a compreender a diferença entre realidades, sem depositar todas as esperanças num futuro meramente online.

Um dia, quando percebi que os maiores cromos da tecnologia não permitiam que os seus filhos crescessem rodeados de aplicações e ecrãs tácteis, pensei que saberiam, melhor do que qualquer um de nós, o que estariam a fazer. Deveríamos pensar neste aparente pormenor alternativo por uns minutos para concluírmos que, na maior parte das vezes, a culpa não é da tecnologia, é nossa. Usamo-la, hoje, como usaram a televisão antes da massificação do acesso à internet: uma ladra do tempo e criada infiel. 

A criança não come, precisa de umas palhaçadas. Fazemos de palhaços. Não come, precisa de uma distracção, contamos uma história. E assim sucessivamente, até percebermos que é muito mais fácil ligar a televisão para a criança abrir a boca e comer sem refilar. Sem birra. Sem ‘não quero ou não gosto’, com os lábios semi-cerrados. Depois, percebemos que seria ainda melhor se estivesse a assistir aos seus desenhos animados preferidos, para ficar verdadeiramente absorvida, comer e calar. A isto chama-se último recurso ou preguiça. Não atiro pedras porque também eu já precisei de uma distracção para a criança comer mas, transformar uma criança numa espécie de amiba acritica, que não sabe que alimentos está a ingerir, é ir longe demais. Como também é demais vê-los chegar ao restaurante, montar o kit multimédia, sentar as crianças e deixá-las ficar a olhar para o ecrã ignorando o que se passa à volta. Para os pais é certamente um descanso, enquanto os resistentes ficam no embaraço da criança que mexe nos talheres, não se senta sossegada, quer comer pão, mexe nos patés, aponta e fala alto. Uma vergonha constante enquanto, na mesa ao lado, vemos outra criança, verdadeiramente bem comportada, sentada e sossegada. Anestesiada?

no SAPO24: A tecnologia já não é... um boys game

O ano começa com um big no em relação ao sexismo, um discurso de Oprah Winfrey nos Globos de Ouro, a par com denúncias várias sobre assédio e desrespeito e a esperança, sempre, num mundo melhor. Um pouco por todo o mundo, as mulheres resistem, reclamam e unem-se em torno de uma causa comum, que se apresenta com várias frentes. Um dos cartazes da última Woman’s March diz tudo: ugh, where do I even start. É isso mesmo de que aqui falamos. Por onde começar quando o que se trata é dessa invisibilidade da desigualdade, da normalização do comentário abusivo, dos excessos, do trabalho igual para salário diferente. 

Donald Trump chegou ao poder há um ano e ainda não mudou o mundo, muito embora as suas ideias e decisões políticas estejam a fazer o mundo mudar mais depressa. Também há um ano, mais de 4 milhões de pessoas saíram à rua em protesto, em 50 Estados da América e em sete continentes, naquela que ficou para a história como a Marcha das Mulheres. Por cá, no maior evento mundial de tecnologia, também se verifica um esforço para equilibrar o género dos participantes, motivando as mulheres à participação. Por isso, nesta última edição o evento Web Summit fui procurar, de forma aleatória, mulheres na tecnologia. A pergunta era simples: trabalhas em tecnologia? Se sim, o que fazes?

Conheci várias mulheres, todas com histórias para contar. Portuguesas e estrangeiras  com traços comuns no seu percurso. A imprevisibilidade da aleatoriedade não me fez cruzar com nenhuma engenheira ou programadora porque, apesar de encontrarmos cada vez mais mulheres em cada Web Summit, a verdade é que ainda estão muito mais ligadas às áreas complementares do que à tecnologia em si, ou seja, há mais designers, profissionais do marketing e das vendas, pesquisa e investigação. Também estão, muitas vezes, em funções que combinam as ciências humanas com a engenharia, como é o caso de Ivanna Gladysh-Mirkovska que combina diferentes conhecimentos para desenvolver o seu trabalho na área de marketing, relacionando a sua formação de base em psicologia com técnicas elaboradas de análise semântica do discurso. Sobre as funções das mulheres nas empresas, a portuguesa Joana Peixoto afirma que esta é uma indústria tradicionalmente mais representada por homens, admitindo, no entanto, que hoje há uma abertura diferente. No caso da empresa na qual trabalha, 30% dos colaboradores são mulheres e a empresa tem mulheres não só da área de Marketing e Comunicação, como é o caso de Joana, como também a nível do desenvolvimento e gestão de projetos: “na Opensoft há muitas mulheres engenheiras. As coisas estão a mudar. Acho que as últimas contratações foram só de mulheres, porque as mulheres são tão aptas para trabalhar em tecnologia como os homens e isso já é reconhecido. Se olharmos para as estatísticas globais obviamente ainda não há um equilíbrio mas, creio, estamos no bom caminho”, concluiu. Este será um exemplo de excepção porque a maior parte das mulheres com quem conversei neste evento não admite ser vítima mas reconhece, sem excepção, que o sexismo ainda existe. Andreia Ferreira, fundadora da bia.pt, tem vivido na Holanda onde “o preconceito é menor”, como afirmou. Não recorda nenhum momento que possa enquadrar-se nesta lógica de sexismo na indústria e, na sua aproximação aos investidores, reforça que eram todos homens ou seja, “não tiveram um comportamento sexista” mas, como também reconhece, “ainda há mais homens neste sector”. Talvez por isso as mulheres não sejam “levadas muito a sério”, como explicou Carla Patrícia Costa, da Guidesquare, afirmando ainda que o papel das mulheres é fundamental para mudar o panorama. Como revelou, “estamos aqui para lutar por isso”. 

Ina Danova, da República Checa, defende que que o sexismo existe. Contudo, sente-se uma verdadeira sortuda porque nunca o sentiu na pele. Ao contrário, a designer italiana Piccia Neri, actualmente a viver em Espanha, depois de vinte anos em Londres, não desarma: “há sexismo na indústria, de tal forma que nós, mulheres, até já nos habituámos a isso”. É a mais experiente deste grupo e afirma que tem sentido o sexismo durante toda a sua vida: “tenho 50 anos, estou no mercado de trabalho há 25 e o sexismo tem sido sempre evidente e enfurecedor ou, então, muito subtil. O que eu acho é que nós estamos tão habituadas que já nem notamos, o que também revela a cadeia de poder na sociedade”. E continua, num tom mais incomodado, afirmando que “mesmo aqui na Web Summit já me apercebi de diversos exemplos da própria organização, e seguramente que a Web Summit tem as melhores intenções”, concluiu. Na verdade, Piccia considera que ainda há muito a fazer e que não podemos enveredar por uma lógica de confrontação ou vingança pois, como defende, a ideia é “colaborar para mudar”. Carla Costa reforça esta ideia quando afirma que “as maiores dificuldades são sempre o género e a idade, na tecnologia e na vida”. Apesar de ser bastante crítica em relação aos comportamentos masculinos nesta indústria, Piccia Neri admite que as coisas melhoraram bastante, mesmo quando afirma que “aceitamos demasiadas vezes um certo sexismo inconsequente” que, na verdade, não é assim tão inconsequente: “na indústria da impressão, tenho de ser honesta… eles tentavam sempre! Essa era a primeira coisa que acontecia se houvesse uma rapariga nova, e isso não significa que fosse desagradável ou que existisse alguma má intenção, mas o flirt era garantido. Há pessoas que acham que não há problema, que o sexismo casual é aceitável porque ‘é assim’, e há ainda aquelas que dizem que devias estar agradecida por isso acontecer. Isso tem de mudar”.

Efectivamente, mais de metade dos profissionais da indústria da tecnologia são homens. Ao longo da história, prevaleceu a ideia de que as mulheres não são tão boas com números e que, geneticamente, não estão tão bem preparadas para lidar com a tecnologia. Ina Danova, da Bulgária, explica que “nas empresas mais pequenas já não é tanto assim embora as grandes empresas sejam ainda, dominadas pelo sexo masculino. Não existem muitas mulheres, especialmente em cargos de decisão. Na área do marketing sim, existem, mas não em áreas mais técnicas”.

Mesmo que consigamos ignorar tantas ideias preconcebidas que circulam na nossa sociedade, o paradigma não deixa de nos afectar, tornando-se mais difícil para as mulheres ultrapassar os limites invisíveis que ainda existem, especialmente nas grandes empresas, como avança Ina Danova: “no mundo das tecnologias de informação e áreas mais técnicas há algumas engenheiras mas estas não chegam a alcançar cargos relevantes e de tomada de decisão. É um sector muito conservador”. Talvez por isso, mesmo que a sociedade tenha permitido a emancipação feminina, o seu estatuto social mantém-se enraizado num modelo antiquado e as assimetrias entre sexos, ainda que esbatidas, continuam a existir. Como explica Ivanna da República Checa, hoje temos mais oportunidades mas, ao mesmo tempo, “exigem-nos mais e temos de estar constantemente a provar que somos capazes. Parece que o mundo está a testar-nos. Algumas pessoas pensam que, por sermos mulheres, não conseguimos gerir equipas. Acho que somos muito melhores a desempenhar várias tarefas simultaneamente”.  

Os programas de mentoring  e os grupos de empreendedorismo destinados a mulheres têm ajudado ao desenvolvimento profissional e à criação de novas empresas. A irlandesa Noelle Dally, fundadora da Mobility Mojo, explica isso mesmo, uma vez que desenvolveu o seu projecto com o apoio de uma organização desta natureza, que tem ainda um grupo WhatsApp no qual as conversas geram, muitas vezes, novas ideias e soluções para problemas: “tive a sorte de integrar um programa de mulheres patrocinado pela Enterprise Ireland. É o melhor programa em que já estive (e já estive em alguns) para começar uma empresa. Como era um núcleo de mulheres fundadoras, tínhamos um grupo de WhatsApp para apoio e discussão com regras simples: não sermos más umas para as outras, não desistirmos e respondermos com ideias e soluções. É fenomenal e não, estar numa cadeira de rodas não me impediu de nada. Na verdade, até gosto mais porque nos negócios somos aceites por conseguirmos fazer o trabalho. As pessoas não vêem a cadeira de rodas, vêem-te a ti e o que és capaz de fazer. E se provares que és capaz, és aceite”. Noelle criou uma startup cujo objectivo é compilar informação sobre a acessibilidade no espaço público. Uma espécie de TripAdvisor para pessoas com mobilidade reduzida. Pelo facto de sermos mulheres, refere, “podemos ser tratadas de forma diferente e precisamos aprender a usar isso de forma inteligente. Às vezes os homens lidam melhor com outros homens porque há um tom ou uma força nas suas vozes que as fazem ser ouvidas de forma diferente. Enquanto que, para as mulheres alcançarem isso, são frequentemente vistas como autoritárias”. No mesmo sentido, Ivanna, da República Checa, explica que estes grupos de entre-ajuda garantem mais confiança às mulheres e as ajudam a tornar-se empreendedoras, abandonando os seus empregos mais tradicionais, embarcando nesta aventura de serem empresárias. Ivanna criou um grupo de “mães que trabalham”, juntando muitas mulheres diferentes, e explica que “muitas têm receios e empregos com horários que não permitem que tenham tempo com a sua família. Nós estamos a encorajá-las para que tenham uma atitude mais empreendedora, para abandonarem as suas dúvidas, para serem mais independentes e para terem a certeza que conseguem fazer o que têm em mente, com todo o apoio das pessoas ao seu redor”. Na verdade, não há nada na nossa biologia que determine maior ou menor capacidade para lidar com os números. A questão é meramente cultural. Como também é cultural essa ideia sexista de que somos menos capazes do que eles e que temos de fazer mais e melhor a cada momento. E, por isso, tantas vezes fazemos.

Imagem: Mikayla Mallek

no SAPO24: Há gays no cais. No YouTube também.

No início de cada novo texto há (quase) sempre dois sentimentos que se misturam: a alegria na partilha de novas ideias e a auto-censura que nos inflige cada vez mais, fruto de um intenso (e por vezes despropositado) escrutínio, associado a uma vigilância ao estilo vigilant, aquela palavra em inglês que remete para vigília de bairro. É também nesta nova cultura de vigília e crítica constante sob a forma de anonimato, da persona digital, dos avatares ou, na sua versão mais simplista, da alcunha impenetrável, que se processam as guerras virtuais, das que atiram pedras em todas as direcções. O mundo está cheio de temas para discutirmos e nunca, como agora, tivemos tanta liberdade e oportunidade para o fazer. Talvez por isso estejamos, para já, numa fase de deslumbramento que se revela numa espécie de caça às bruxas nos social media e de um politicamente correcto exagerado, do moralismo e da indigação inconsequente.

Não sabem do que falo? Da polarização em torno do feminismo e do assédio moral e sexual, como se os temas se confundissem, da hipocrisia de tantos comentários sobre a H&M mas, também, de contextos que merecem debates profundos e que se limitam a ser alvo de notícia: a nanny da SIC e os youtubers que mais parecem youtúbaros. São aspectos mais profundos da nossa vida em sociedade que estão a ser colocados em causa, queiramos, ou não, ver isso.

Como em todos os domínios da vida, neste mundo infindável que é a World Wide Web há um pouco de tudo. Arrisco a afirmar que há YouTubers, pessoas que criam conteúdo visual com algum tipo de interesse e relevância e os outros, que atiram disparates e alarvidades, como se mandar a mãe àquele sítio fosse, ou tivesse alguma vez sido, motivo de orgulho. Putos, get a life.

© Emma Saints

© Emma Saints

Mas é também no YouTube que nascem pequenas pérolas que a RTP - exacto, esse operador de media tão conservador e supostamente tradicional - resgatou para criar algo verdadeiramente inovador. Ao abrir portas à criatividade, a RTP consegue cumprir vários pontos da sua missão e do contrato de serviço público, quer ao nível da inovação, quer no que respeita às minorias, criatividade e produção independente. Touché porque a Casa do Cais é tudo isto é muito mais. Não vou cingir-me a critérios de objectividade porque admito gostar da capacidade de transgressão e rebeldia que uma série como esta representa. Posso fazer parte de uma geração que olha para isto de lado, imaginado que “os meus filhos não vão ser assim”, sem comentar negativamente porque parece mal - o tal moralismo ou o politicamente correcto - mantendo o silêncio ou optando por afirmar “não vi/ não sei” porque a sua opinião é de horror, esquecendo que é na adolescência e início da idade adulta que podemos ser parvos ou irresponsáveis. Há, contudo, alguns empertigados que preferem fazer de conta que nunca beberam um shot de uma vez para aumentar a confiança, disseram disparates para provar a sua coolness ou qualquer outra coisa igualmente idiota para garantir a pertença ao grupo. Há, talvez, quem tenha sido sempre uma versão polida  se próprio, que nunca mandou uns canecos abaixo ou que, na P… da loucura, rodou a Baiana em festas que não se percebe como começaram ou onde acabaram. 

Crescer sem experimentar o lado mais radical, rebelde ou destrutivo da juventude poderá resultar em pais que não fazem ideia de que falam os filhos e, dessa ignorância, cresce o fosso entre gerações que resulta, tantas vezes, em famílias que se limitam a dividir uma casa. Não defendo os pais muit’a malucos que vivem on the edge, aquele limite impróprio em qualquer idade e que raramente traz alguma coisa de bom, mas defendo que sejamos pessoas informadas, que conheçamos a evolução dos dialectos e das referências, dos hábitos e das práticas para estarmos cientes de que as nossas crianças podem estar a assistir a um YouTúbaro ou para aceitarmos, compreendermos e sermos dignos de confiança sobre as indiossincracias da adolescência e início da idade adulta. 

© Emma Saints

© Emma Saints

Não interessa se eu fui assim ou se tinha amigos que eram assim. Interessa percebermos que a Casa do Cais não é uma mera representação mas, antes, uma nota autobiográfica de uma juventude perdida. Fica mesmo bem acabar a frase assim não é?... Perdida. A questão é essa mesmo: nenhuma geração está perdida e se, no meu tempo houve quem mostrasse o traseiro para a televisão e os jornais, manifestando-se contra as políticas da educação no ensino superior, as causas de hoje são igualmente válidas e apresentam-se de outra forma. Gostem ou não, a Casa do Cais é um marco em 2018, pela forma como está a chegar ao público com uma história tão simples e tão real, personagens que tocam alguns dos temas relevantes do mundo contemporâneo, uma fotografia e realização que está taco-a-taco com o melhor que se faz internacionalmente. Sexualidade, opções e identidade(s) sexuais, amor-próprio e imagem corporal, ingenuidade, dinheiro, trabalho e família... está tudo lá, na emancipação de Ema a chegar a Lisboa e na forma como os seus amigos contribuem para esse processo. O momento do corte de cabelo é único (como assim, aqueles caracóis, Peperan?...) o pormenor da porno-chachada incluindo o ícone Bambi (quem nunca?!) é brilhante e mesmo a referência cultural da garganta funda ganha o significado politicamente incorrecto que sempre lhe demos em sussurra… Afinal, não é apenas a história de um filme, pois não?... Na Casa do Cais as coisas têm nome e não há medo de o dizer ou mostrar. Só por isso, #respect enquanto aguardamos pelo próximo episódio. Voltando ao início deste artigo, “comentários maus há em todo o lado também, não é?”

É.

Obrigada por isso, Jay.


Imagem de capa: © Emma Saints

no SAPO24: O tempo acabou para o elefante na sala

 

Dizia Noelle Neuman que os indivíduos tendem a calar-se quando a sua opinião é diferente da dos outros, num processo que os leva a seguir a opinião maioritária até que esta se torne prevalecente, ignorando as restantes opiniões. Ou seja, há, muitas vezes, um elefante na sala que ignoramos deliberadamente porque precisamos do colectivo para validar a nossa opinião. E quando o que temos a dizer é diferente da opinião da maioria?

O melhor é estar calado.

Foi talvez isso que aconteceu a tantas actrizes que, durante anos, calaram as situações de pressão e assédio de que foram alvo, até a bolha rebentar no final do ano passado. Obviamente que nos questionamos sobre as razões que as levaram ao silêncio. Calar, por medo, pressão ou chantagem é compreensível. Aguentar porque há contas para pagar, como referiu Oprah, talvez... Oprah Winfrey afirmou, no seu já famoso discurso nos Globos de Ouro, que as mulheres foram, durante muito tempo, ignoradas e desacreditadas em relação a esta questão  mas, na verdade, bastou uma hashtag no Twitter (#meetoo) e uma reportagem do jornal New York Times, para criar uma onda que, rapidamente, se tornou um tsunami.

E porque não antes, acusam alguns, usando a hashtag #WeAllKnew, criticando também uma fotografia de Oprah, alegremente dividindo as atenções com Harvey Weinstein, manipulando imagens, acusando Meryl Streep de saber do que se passava (“she knew”), ou censurando Justin Timberlake por ser o protagonista do novo filme de Woody Allen. Hollywood é mesmo assim e nós vamos atrás, glorificando a cerimónia. Mesmo que parte da mensagem fique perdida, que as nossas preocupações sejam a conta da electricidade ou o aumento dos impostos, esta cerimónia dos Globos de Ouro vai muito além da entrega dos prémios.

A(s) indústria(s) está repleta de pessoas com medo de revelar o que lhes acontece, silenciadas pela espiral do silêncio do preconceito que as culpabiliza, que desvaloriza os actos, que lhes diz que são umas convencidas que interpretaram mal o comentário, ou umas histéricas a quem não de pode tocar. O assédio moral e sexual existe. Esta cultura de silenciamento e vergonha tem de ser substituída pela justiça restauradora de que se falava na cerimónias dos Globos de Ouro. É preciso denunciar, mudar mentalidades, garantir que qualquer pessoa vítima de assédio não tenha medo, que não tenha vergonha e, principalmente, que não se culpabilize por isso.

Palmas para Oprah? Tenho para mim que o seu discurso procurava ir mais longe do que a denúncia, apelando à liberdade de pensamento e de expressão, apontando o dedo ao jornalismo e ao marasmo em que aceitou viver, ao discurso de ódio, racismo e xenofobia, lembrando que as maiores vítimas do sistema não serão as actrizes de Hollywood, mas as mulheres que, na sociedade, não têm voz.

Talvez também não seja coincidência a noite ter sido de “Big Little Lies”, com actrizes #metoo no elenco, representando uma indústria em que os sonhos, tantas vezes, se confundem com a realidade e uma narrativa que retrata abusos que também acontecem na vida real. Curiosamente, também continuam a ser mais homens nomeados para os Globos de Ouro e, dos que receberam o prémio, apesar do smoking (preto, obviamente...) nenhum fez referência à questão que pairava no ar durante a cerimónia: nenhum, parece, será #metoo ou talvez ainda não seja, para estes homens, #timesup.

 

Fotografia: Kristina Flour