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Regressar nem sempre significa voltar

Regressar nem sempre significa voltar

Para muitos de nós, Agosto é mês de férias. Quem tem filhos nem sempre sabe o que lhes fazer entre Julho e meados de Setembro. O Verão parece interminável, dividindo-se entre colónias ou campos de férias, actividades ou workshops e, para quem os tem, os avós. Ou tios. Ou primos. Ou alguém que nos seja próximo, que lhes deite o olho enquanto trabalhamos. 

Nas lojas ou na televisão gritam regresso às aulas, as montras da moda estão mais escuras, com tecidos pesados e quentes, enquanto (ainda) pensamos no calor da praia e a brisa de final de dia nos invade no momento em que fotografamos um pôr do sol estonteante para partilhar no instagram.

Regressar à rotina não é fácil, seja lá ela qual for, especialmente se a rotina que a substituiu nos parece melhor do que aquela para a qual temos de voltar. Voltar e regressar são sinónimos mas nem sempre as palavras se substituem. Ou substituem? O dicionário diz que sim mas quero deliberadamente utilizá-las de forma diferente.

As férias - todas as férias - correspondem a uma interrupção no trabalho para descanso. Precisamos dessa espécie de suspensão no tempo para recarregar baterias e regressarmos cheios de energia. O problema é quando o interregno não chega. Quando não permite descansar porque nos ocupamos em múltiplas pequenas tarefas para as quais as 24 horas do dia não chegam, o dia-a-dia não permite esticar nem o tempo e, menos ainda, a vontade de organizar, mexer e remexer, limpar e arrumar ou, simplesmente, resolver o que fica para depois ser resolvido. Quem nunca ocupou dias de férias com aquilo que não interessa a ninguém mas que tem de ser feito? E vontade de regressar para este imenso nada quando estamos sentados na areia da praia a ver o tempo passar?

O regresso é muitas vezes um duro confronto com a realidade real. Se aterramos ficamos dependentes da sorte e do táxi que nos leva de regresso a casa. Se conduzimos encontramos filas e monóxido de carbono que nos recordam de imediato a (pseudo) civilização. Se somos conduzidos temos tempo para ver o recorte urbano e perceber que nos deixámos encaixotar em edifícios sem charme nem história, varandas substituídas por marquises para ampliar o espaço que é sempre exíguo. Depois as pessoas são infelizes e não sabem o que fazer da vida. Parece-me bem que nos perdemos todos numa excessiva urbanização da vida e das cidades, especialmente Lisboa, que se esqueceu de continuar a olhar o rio e abdicou das praias que tem a vinte minutos. Voltar significa arrumar os chinelos de enfiar o dedo que só servem na praia ou quando, ao fim de semana, nos arriscamos a sair do centro em direcção ao mar. Isto significa que, para além de regressarmos, voltamos ao mesmo. E isso não. Isso é que não. 

Bom regresso!

 

Foto de capa: Ragnar Vorel

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