olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

E tu, pagas?

E tu, pagas?

Não.

Foi esta a resposta que recebi quando perguntei quem estaria disponível para pagar pela leitura de notícias no Facebook. A consulta vale o que vale mas juntei mais de 80 pessoas que foram muito claras: não. Sobram-me dedos de uma mão para aqueles que até poderiam pensar nisso.

Houve quem argumentasse que o Facebook não tem notícias o que, efectivamente, é verdade. Outro afirmou: giro, giro, era o Facebook pagar para os (jornais) ter aqui.

Para além da arquitectura e estrutura de distribuição, o Facebook não tem nada, porque vive dos seus utilizadores, entre os quais se encontram marcas, organizações diversas, órgãos de comunicação social e nós. Conta com 2 mil milhões de utilizadores mensais e, diariamente, mais de 800 milhões de pessoas gostam de alguma coisa no Facebook. Impressionante, se pensarmos existe desde 2004 e que, na sua génese, está uma ideia tão simples como a de ligar as pessoas entre si. Longe vão os tempos ingénuos em que Zuckerberg conectava estudantes universitários da Ivy League, nos Estados Unidos. Qualquer pessoa com um endereço de email pode registar-se para fazer parte deste universo que se estende ao quotidiano, integrando as nossas conversas ou sendo motivo de notícia.

Quantas vezes parámos para pensar no real significado desta nossa extensão para o online? E quantas nos preocupámos com o que publicamos no Facebook?

Poucas. Muito poucas.

Como o Google, o Facebook cresceu e consolidou-se sem recorrer a um único anúncio publicitário. Fomos nós os seus embaixadores, sempre que afirmávamos ter visto no Facebook ou questionado um amigo sobre o facto de ainda não ter um perfil.

Fomos também nós, em parte, responsáveis pelo estado das coisas, pela forma displicente como fomos fazendo publicação atrás de publicação, para desvendar quem somos... mostrando igualmente os nossos interesses enquanto os órgãos de comunicação social procuravam encontrar-se connosco no Facebook... Se Maomé não vai à montanha... Eram (e são) tempos de diminuição das vendas dos jornais e revistas ao mesmo tempo que a crise económica fazia diminuir o investimento publicitário, afectando de igual forma a rádio e a televisão. Dizem que melhorou, contudo, a comunicação social continua desesperadamente à procura de um modelo de negócio que cubra o investimento que é feito na digitalização dos processos e na distribuição, bem como na face mais visível, os custos associados à produção de carácter multimédia. E enquanto o Facebook garante boa parte do tráfego para os websites de notícias, também se faz garantir de um certo investimento que, novamente, garante a visibilidade das páginas. Demasiadas garantias, excepto para o utilizador individual, a quem não se garante a informação de que é alvo de uma verdadeira acção consentida de phishing diário, relativa aos seus comportamentos online.

Se quisermos podemos sair. Obviamente que sim. No entanto, mesmo que abandonemos a nossa conta, que façamos a escolha de a desactivar nunca mais de lá saímos porque o perfil continuará visível. Da mesma forma, os dados de acesso, a palavra passe e cookies que nos identificam serão preservados, provavelmente para continuar a seguir a nossa actividade e guardar dados, entregando-os de bandeja a quem pagar.

A questão é ainda mais preocupante porque a informação circula mesmo depois do log out diário. Piora um pouco porque, na generalidade dos casos, temos o acesso memorizado no browser e entramos directamente na aplicação. Verdade?

Não serão de estranhar, portanto, SMS's que apresentam um curso de formação, mestrado ou pós-graduação a um recém-licenciado. Como souberam?! Bastou o recém-licenciado ter trocado uns comentários com amigos. No Facebook. Assustador? Não. É pior do que isso porque esta plataforma aparentemente inocente, que liga pessoas entre si, também vive daquilo que é cada um de nós, sugando informação. Tudo o que fazemos deixa rasto e há quem esteja a rastrear cada passo que damos para entregar essa informação a quem dela precisa. Fecha-se o ciclo da monitorização vendendo esses dados a marcas e organizações diversas que procuram consumidores, ou seja, nós. Estes dados são de carácter pessoal, respeitam a singularidades e representam pessoas reais que são, também, consumidoras. O lado perverso disto tudo é que o Facebook, sendo gratuito, depende de cada um de nós para ganhar dinheiro, facturando duplamente com cada utilizador: quando monitoriza a informação que de bom grado lhe damos, analisando as frases que publicamos, compilando esses dados para vender a quem estiver interessado; quando exige pagamento a marcas ou organizações para dar visibilidade às suas publicações, quando também se faz pagar pelos anúncios que nos são apresentados no mural ou na coluna lateral. O segredo do seu sucesso somos sempre nós e, insatisfeito, agora planeia criar uma paywall para cobrar pela leitura de notícias que não produz, que agrega de acordo com os nossos likes e que nos mostra de acordo com um algoritmo cujos interesses desconhecemos. Seriously Zuckerberg?

Para pagar "subscrevo as notícias nas agências ou sites dos jornais".

 

Meu querido mês de Agosto

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Lá vamos nós outra vez...

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