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bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

O país do trabalho gratuito

O país do trabalho gratuito

Há um país assim, com pessoas que trabalham e não são pagas, serviços retribuídos com um um sorriso ou agradecimento simpático. Chamam-lhe palmadinha nas costas. Uns vivem dos favores dos outros que aguardam a sua vez de cobrar. Normalmente esperam. E desesperam. Curiosamente, nesse país, os bens de primeira necessidade são pagos a dinheiro enquanto o trabalho criativo e intelectual é, tantas vezes, menosprezado, considerado gratuito. Não são apenas amigos que se entre-ajudam. Empresas e profissionais das mais diferentes áreas consideram que o tempo, conhecimento e trabalho dos outros não merece ser pago. Apenas o seu tem valor. O dos outros, nem por isso. 

Conheço vários exemplos. E sei que vocês também. Há o caso dos estágios curriculares que deixam na mão do estagiário a responsabilidade que, em tempos foi de um profissional. Ao que sei, um estágio serve para estagiar, ou seja, um período durante o qual uma pessoa ou um grupo exerce uma actividade temporária com vista à sua formação ou aperfeiçoamento profissional (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Sendo curricular, significa que faz parte do currículo académico de um determinado grau de ensino. Será, portanto, a integração do estudante em ambiente profissional para conhecer as rotinas e aprender técnicas ou práticas profissionais. Que excelente preparação têm os novos estagiários que, antes de terminarem a sua formação já estão aptos a produzir profissionalmente. Só não entendo a razão pela qual, terminada oficialmente a sua formação, não encontram quem pague pelo seu trabalho, saltitando entre estágios, almejando um estágio profissional que lhes garanta nove meses de integração - e pagamento - numa organização. Também há a moda do freelancer, porque agora somos todos nativos digitais, nómadas e outras modernices que correspondem a uma de duas coisas: pessoas que não encontram outra forma de fazer alguma coisa na vida (sendo pagas para tal) e, outros, fartos disto, que não querem enraizar-se ou ficar dependentes de um emprego semi-escravizante de tão exigente e mal pago que normalmente é. E porque estas pessoas devem ter iniciativa também há o empreendedor. São pessoas cheias de ideias e projectos, é um facto. Muitos desistem quando percebem a dura realidade que é ser empresário nesse país do trabalho gratuito, que exige pagamentos por conta e paga tarde e a más horas. Quando paga.

Conheço quem se tenha despedido por saturação das funções e da organização. Antes de abandonar a empresa já tinha vários convites para se envolver - em regime autónomo, obviamente - em projectos que poderiam, ou não, ter rentabilidade. Envolveu-se. Foi-se deixando ir até perceber que trabalhava mais do que antes, que lhe exigiam concretizações sem terem investido um tostão no seu tempo, conhecimentos e recursos. Mostravam sempre a luz ao fundo do túnel mas o túnel parecia não ter fim. Também conheço outra pessoa que foi ficando na mesma mega estrutura passando de empresa em empresa, mantendo sempre as mesmas funções, até ao dia em que essa mega estrutura já não tinha mais empresas que o pudessem contratar em regime temporário. Está na rua sem regalias, orgulho ferido e uma experiência profissional de excelência. Já recebeu convites. Para trabalhar sem receber porque o projecto "ainda não dá dinheiro"... Também há o clássico do designer ou arquitecto a quem pedem um projecto, o qual será pago se for escolhido. E o tempo, recursos e criatividade que tal exige? Não se pagam? 

Não sei quanto a vocês mas há, seguramente, algo estranho num país que valoriza mais um trabalho do que outro, e no qual as pessoas acham normal pagar o pão ou as batatas mas não acham, igualmente natural, que o tempo e conhecimento dos outros tenha  valor....

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