Somos mais do que uma profissão

Há dias conheci uns amigos de amigos. Aquelas situações banais do quotidiano para as quais nunca estamos verdadeiramente preparados. Pensamos que sim, contudo, atiram-nos invariavelmente para fora da nossa zona de conforto, quando nos perscrutam tentando avaliar-nos, perceber-nos... Amigos dos nossos amigos nem sempre têm de ser nossos amigos, certo?

A sociedade organiza-se de uma determinada forma e quem escapa à norma nem sempre é facilmente aceite. Aceito muitas vezes um certo cinismo social, aquele que nos faz conviver pacificamente. No entanto, outras vezes (talvez vezes demais), digo o que penso e actuo em conformidade. Os amigos aceitam. São, por isso, amigos. Os outros, nem tanto. 

Depois do nosso nome, há um conjunto de outras perguntas que ficam, latentes, à espera de resposta ou do melhor momento para saltarem para a conversa. Os filhos, a escola que frequentam. O que fazemos. Profissionalmente e nos tempos livres. Tudo serve para catalogar. Sempre achei que ninguém se define por aquilo que faz na vida e que a eloquência de um filósofo pode ter paralelo na de um pedreiro, desde que ambos estimulem a sua inteligência, cultivando o conhecimento e a sabedoria. Raramente acontece, é certo, mas serve o exemplo apenas para deixar claro que não podemos definirmo-nos pelo trabalho. Porque o surfista preso num advogado pode apenas estar à espera do momento certo para se manifestar.

Parece-me que o peso que a sociedade atribui à nossa profissão pode estar na base de muitas frustrações. Creio que muita arrogância acabaria se não fosse tão importante aquilo que fazemos mas antes, como fazemos.

O problema coloca-se quando não queremos responder à pergunta, quando temos vergonha ou, simplesmente, não gostamos da nossa profissão. Ser definido por algo de que não gostamos? Consegue ser pior do que fazermos o que não gostamos... Mas não somos (apenas) a nossa profissão. Mesmo quando somos apaixonados por aquilo que fazemos.

There's much more to it... É importante que percebam isso.