olá.

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Primeiro a Cristina. Quem é a senhora que se segue?

Primeiro a Cristina. Quem é a senhora que se segue?

Comecei por pensar que este seria mais um tema de cordel, de exploração do tema Cristina Ferreira para gerar cliques. Contudo, esta crónica  publicada na revista Sábado fez-me procurar melhor e ir além dos cabeçalhos made in CM que se espalham como fogo num palheiro no Facebook. 

Cristina Ferreira publicou um livro.

Chama-se "Sentir". Até aqui, o habitual, num contexto de edição em que os livros se sucedem em catadupa. No livro, expõe. Expõe-se. Denuncia. Coloca o dedo numa ferida (sempre) aberta. De tal forma que a boçalidade não se cala acusando-a de tudo. Desde a tentativa de imitação, passando pela invenção, até à sua popularidade conquistada horizontalmente. Que homens o façam choca-me. Mas que mulheres acusem outra mulher disso mesmo não me choca, ou surpreende, porque muitas mulheres são assim mesmo: mais invejosas do que solidárias. Independentemente de nos identificarmos (ou não) com a Cristina Ferreira, de gostarmos do seu trabalho ou da forma como este tem sido ultimamente substancialmente promovido, que vantagem para nós, mulheres, em reforçar a ideia de que fez por merecer ou que sim, obviamente que teve de haver alguma conotação sexual na sua ascenção. 

Fui propositadamente a uma livraria folhear o livro. Ler as passagens que estão a fazer correr tinta. Solidariedade feminina, empatia e a certeza de que não será em vão, mesmo que possa ser o clique que fará vender livros. No entanto, sobre este assediozinho quase diário, dos sorrisos e insinuações, quem nunca? Sobre este comportamento paternalista que nos trata como se fossemos pequenos bibelots, quem nunca? Sobre os elogios e os olhares, sobre as sugestões e os convites só aparentemente inocentes, quem nunca? Sobre as frases directas que nos encostam imediatamente à box eliminando-nos a reacção e o tom pespineta que nos caracteriza, quem nunca? Sobre as sms, os tweets, os comentários aos posts, as mensagens de e-mail, os corações no instagram que sabemos não significarem "fixe pá, gostei da tua publicação", quem nunca? Sobre as pessoas a quem dizemos delicadamente thanks, but no thanks que continuam a insistir escondendo-se atrás do conceito de amizade, quem nunca? Sobre os comentários à roupa, como se estivéssemos nuas, quem nunca? Sobre as estratégias dissimuladas relativas ao trabalho, à promoção no emprego, à perspectiva de um novo emprego ou de mais um cliente, quem nunca? Sobre a pressão quando dependemos de algo que apenas aquela pessoa pode dar para continuarmos o nosso caminho ou terminar uma tarefa, quem nunca?

São mais os homens que fazem isto do que os outros que, mesmo sentido o corpo a ferver têm o respeito necessário pela mulher com quem estão a interagir evitando comportamentos e atitudes despropositadas. São mais os homens que acham que podem tudo do que os que aceitam que não podem nada. São mais os que não percebem que um sorriso é apenas delicadeza ou educação. São mais os que se consideram o sexo forte que pode tudo. Por isto, para aqueles que ainda nos olham como objectos, para os que se intimidam com mulheres inteligentes e as tratam como se fossem burras, para os que acham que a mulher tem a dízima a pagar para poder trabalhar, percebam uma coisa: na maior parte das vezes vamos dizendo que sim até ao limite do aceitável e do possível, porque sabemos o que acontece se dissermos que não, porque queremos concretizações sem discussões ou pressões. De qualquer tipo. Outras tantas estamos concentradas no trabalho que temos para fazer ignorando os vossos discretos avanços. No resto do tempo não estamos mesmo interessadas. E, no que sobra, não queremos mesmo nada com vocês, como a aliança que trazemos no dedo normalmente quer dizer. Percebem? Acabou o tempo da secretária para todo o serviço e da subalterna a quem podem apalpar o rabinho redondinho. Também acabou o tempo em que dizemos que sim porque temos medo de perder este jogo de poder. Temos o poder de dizer não.

No hard feelings, ok?

 

LEAN IN = lean on?

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5 horas (III)

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