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Não sou solteira. Mas, se fosse, também (não) gostava...

Não sou solteira. Mas, se fosse, também (não) gostava...

Na sexta-feira celebrou-se o Single's Day, ou dia do solteiros. E se há coisa que os solteiros, mais ainda as solteiras, conhecem é a pressão social para se casarem...

A pressão social incomoda-me. Há muito tempo era só um bocadinho. Agora incomoda muito. Pressão?... Para casar. Para ter filhos. Para ter um emprego estável. Para mudar de carro quando nasce um filho. Para encontrar "o tal". Para sermos aquilo que esperam de nós sem esperarem que sejamos exactamente o que somos. Como somos. 

Até um determinado momento espera-se que sejamos solteiras. Depois questionam-nos a opção, tentando descobrir-nos um namorado (que não temos), questionando, quando temos, a razão pela qual não o apresentamos à família. Questionam-se sobre a sua origem e características. Questionam-nos sobre as suas intenções - e as nossas - achando que por não ser sério, é questionável. Questionando a importância dessa relação quando, na maior parte das vezes, nem nós (ou eles), temos a exacta noção dessa importância. Que nem queremos ter, porque isso equivale à caricatura do primeiro encontro em que um deles fala sobre filhos e casamento. Nem sempre é um deixa andar ou um deixa ver. Por vezes é apenas o que é. No questions asked. No strings attached.

Se depois desse momento continuarmos solteiras, então é porque não conseguimos encontrar "o tal" ou porque não levamos as relações a sério. Somos isto e aquilo. Vamos ficar para tias. A palavra solteirona emerge no horizonte como uma nuvem muito cinzenta que se poderá abater sobre nós. So what?!... No caso deles, levantam-se as suspeitas. Se tem amigos próximos, ou muitas amigas sem se envolver com nenhuma delas, está o caldo entornado porque deve ser gay. Como se o mundo desabasse. Na família a dúvida persiste, mesmo que ele negue. São precisas provas para os acalmar. E quanto maior a família mais temos de os apaziguar. Os jantares e encontros com os primos, que são sempre um exemplo, ou uma desgraça pior do que a nossa, as festas de Natal com os tios que nos agarram a bochecha - mesmo quando já não temos idade para isso - perguntando sobre namoros e emprego, soltando suspiros e o eterno "no meu tempo..."

O tempo é o nosso, não deles, e não há familiar que verdadeiramente o entenda. A não ser aquela tia rebelde, a quem olham meio de lado considerando-a algo hippie ou esquisita, a tia modernaça que nos deu um cigarro às escondidas ou aparou outros golpes quando precisámos. A que nos fita à mesa suspirando sem suspirar, sabendo exactamente o que pensamos porque ainda agora, muito tempo depois dos seus vintes, continua a ouvir os comentários que não quer, respondendo - sempre - o que não querem ouvir. A irreverente, portanto. Um arrepio de gente. Solteirona, claro está.

Se optarmos por estar numa relação, começa a conversa do casamento, enquanto a mãe vai mentalmente preparando o enxoval que a proibimos de fazer, e o pai olha de alto abaixo aquele gajo que lhe vai roubar a filha. Não querem saber o que pensamos, preferem pensar que aquele é que é, mesmo sabendo que aquele não é, e nunca será. É apenas o que está, naquela altura. Em seguida contabilizam-nos as relações questionando se não será (já) demais porque vai sendo tempo de assentar. Sentamo-nos pela exaustão da pressão mas não desistimos de fazer o que queremos. E, também nós, pressionamos. No sentido contrário, claro está.

Até que, do nada, anunciamos que vamos casar. A família em êxtase até ao potencial rebuliço de um eventual divórcio ou a alegria do primeiro filho. Não sem antes pressionarem - uma vez mais - em relação à casa e sua decoração, organização de gavetas, móveis demasiado modernos e outros pormenores. Na gravidez, o que devemos ou não fazer. Comer. Comer. Comer. A criança nasce e todos sabem o que fazer, como se a maternidade não tivesse qualquer ponta de intuição. Quando engravidei, mais do que me perguntarem sobre a barriga, perguntaram-me se não ia mudar de carro. Na primeira vez não entendi, nem soube o que responder, porque me parecia óbvio que tal não seria necessário. Nos 30 segundos que medeiam a pergunta e a resposta percorri todos os elementos relevantes, relacionados com a idade, segurança e características do automóvel e continuei sem atingir. Foi então que apontaram para o veículo, afirmando que tinha 3 portas... Tenho uma amiga que criou 3 filhos num carro com 3 portas até ao limite do espaço. Trocou quando lhe foi possível. Especialmente, quando a segurança assim o exigiu e o espaço se tornou exíguo. Com ela, percebi que era desnecessário trocar de carro quando nasce uma criança. Estamos, aliás, mais protegidas do frio e da chuva porque entramos com a criança no carro para lhe apertar o cinto, passando para o lugar da frente directamente. Obriga a uma certa ginástica. Mas ginástica é o que todas as mães fazem a partir do momento em que nasce um filho. No harm done.

A pressão não acaba aqui. Depois do primeiro, a pressão para nascer o segundo. Porque precisa de um irmão. Porque... Porque...

Também não acaba a pressão relativa à nossa relação e o que fazemos dela. Sejamos casados ou solteiros, há sempre alguém, a quem não perguntámos nada, que acha que sabe o que é melhor para nós. Cada relação é o que é, com características únicas que cada um - dos dois - saberá gerir. Na verdade, sabemos sempre o que é melhor para nós. Mesmo que, aparentemente, não seja...

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