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Os mitos, as fraudes e as emoções alimentares: o que comer?

Os mitos, as fraudes e as emoções alimentares: o que comer?

Estava eu na minha noite de sábado, sossegada em casa, a beber chá de hortelã e a dizer mal à minha vida porque... Eu já deveria saber. Mas, nisto de comportamentos alimentares, somos uns eternos miúdos e, por vezes, ignoramos o que o corpo nos diz e seguimos o que o ego quer.

O que, por outras palavras, quer dizer que comi o que não devia.

Para contextualizar, vou contar-vos uma conversa que tive, há muitos anos, com uma amiga farmacêutica... Na loucura das noites de Sábado dos vintes, raramente ficava em casa. Na ressaca de Domingo, lembro-me de um dia afirmar que não poderia continuar a beber bebidas brancas (#quemnunca?...) porque, no dia seguinte, ficava muito indisposta (de ressaca, portanto!) e que algo semelhante me acontecia quando comia cebola ou pimentos. E que se bebesse um galão (outros tempos, não critiquem...) ficava horas sem conseguir comer mais nada.
Também me lembro do seu ar preocupado, afirmando, de forma veemente, que deveria ir ao médico para fazer uma endoscopia e que, muito provavelmente, teria algum problema no estômago... Ficou um pouco ofendida com a minha resposta e não voltámos ao tema porque a desacreditei liminarmente: não só é mais simples não beber álcool como posso viver, sem qualquer deficiência nutricional, sem pimentos. Ou cebola.

 Photo by  Burhan Rexhepi  on  Unsplash

Esta passou a ser uma espécie de abordagem pessoal à comida: se não me faz bem, não como. Foi então que comecei a eliminar alimentos, a mudar gradualmente a minha alimentação e a procurar mais informação. Passei também a ser a esquisitinha do grupo, a única que, por sinal, na altura já sabia cozinhar, e a única que, não sendo da área de ciências, se preocupava com as consequências das suas escolhas alimentares. Era também a única que, sofrendo de um problema de saúde crónico, rejeitava medicamentos até cair à cama e pedir... socorro.
Dois ou três anos depois eliminei o leite e derivados. A seguir decidi eliminar a proteína animal e fiz o trilho das pedras de quem se inicia nesta aventura de questionar o paradigma dos almoços e jantares em família. Já vivia sozinha e tomava as minhas decisões mas houve muitos dias em que desesperei por não saber o que comer. Fui pelo caminho do vegetarianismo sem perceber que, para além da carne e do peixe, há muito mais para conhecer sobre aquilo que comemos.

 Photo by  Trent Erwin  on  Unsplash

Photo by Trent Erwin on Unsplash

Nunca fui radical ou fundamentalista e, talvez por isso, quando engravidei cedi à pressão, da mesma forma que também lhe cedi depois, muito por causa das escolas e, sobretudo, da pressão em torno de quem é diferente. Há quatro anos disse para mim que era chegado o momento, porque sentia que precisava, mesmo, de mudar. E mudei. Sem dramas, para além do que se possa imaginar que acontece quando se coloca um copo de sumo verde à frente de uma criança dizendo-lhe que “hoje não há sopa, há sumo”.
Não é fácil mas, não é impossível.

Eliminei bolachas, enlatados, sumos e qualquer alimento embalado que acrescente à sua composição algo que não seja natural. Leguminosas em lata? Sim. As que não têm conservantes, aplicando-se o mesmo princípio a qualquer outra coisa. Bolachas e afins? Acabaram-se. Cereais? Adoro. Mas não me lembro da última vez que comprei ou comi cereais das grandes marcas da indústria alimentar. Repito: não sou especialista ou radical, procurei e compilei informação e tento encontrar produtos naturais e não processados industrialmente. No caso de produtos embalados, procuro os que têm a composição mais simples e próxima do original, com baixo teor de açúcar e sódio e, principalmente, pouca gordura, o que não quer dizer que seja light. Fujam disso e do produtos sem açúcar porque, para terem sabor, têm qualquer outra coisa. E, essa coisa, não pode ser boa...

Como já antes publiquei, o que é que eu como?

Como de tudo como as outras pessoas, com a diferença que não como nada (ou evito até ao limite do possível) qualquer alimento com as palavras processado, hidrogenado, adicionado e outras semelhantes. Como muita fruta e legumes, mudei o paradigma das refeições porque nos ensinaram que comemos carne e peixe ao almoço e ao jantar quando, na verdade, quando comemos carne estamos, efectivamente, a comer uma de duas coisas:
 

  • Farinha, no caso dos animais criados em explorações agro-pecuárias;
  • Erva, no caso dos animais que são criados ao ar livre e no seu ambiente natural.

Erva, dirão?

A verdade é que há uma certa ironia nisto de sermos carnívoros porque, de facto, a proteína animal resulta da decomposição das enzimas da proteína vegetal que alimenta alguns destes animais, herbívoros por natureza. Os restantes? Pois imaginem o que poderão estar a comer, considerando que, quanto mais depressa crescerem, mais depressa vão para o mercado e mais rapidamente dão rentabilidade ao negócio...

 Photo by  Alex Guillaume  on  Unsplash

Todos sabemos e fazemos por ignorar as pequenas grandes fraudes da indústria alimentar a qual, como qualquer indústria, tem por objectivo ganhar dinheiro. Os processos de transformação dos alimentos através de processos industriais permite que estejamos permanentemente a comer gato por lebre, sem conhecermos os verdadeiros ingredientes daquela que é a maior das fraudes: a fraude alimentar. Queijo que inclui fécula de batata, mel que leva açúcar, sumos de fruta que só têm a polpa da fruta e muita água...

A lista é interminável e, muito por isso, optei por esta opção mais próxima da natureza, baseando-me em legumes, frutos, cereais e sementes. E sim, sei que as terras estão contaminadas, as chuvas são ácidas, as pragas que infestam as culturas tratadas com químicos e outros aparentes pormenores que transformam a nossa alimentação num verdadeiro desafio. A adulteração de produtos alimentares tem consequência graves para a nossa saúde. Não nos apercebemos do mal que nos causa até detectarmos novas alergias e intolerâncias ou, mesmo, doenças auto-imunes sem sabermos, exactamente, a sua origem. 

 Photo by  Adam Jaime  on  Unsplash

Photo by Adam Jaime on Unsplash

Fomos ensinados a encher o prato com hidratos, proteína animal e vegetais. Mas e se mudarmos isto e tivermos um prato cheio de fibras (cereais), proteína vegetal (em vez de a comermos reciclada através da proteína animal) legumes e frutos? E se o meu jantar for uma tigela de cereais, fruta e sementes? Fará sentido ter lanchado legumes? E se trocarmos as voltas a isto tudo e comermos o que fizer mais sentido para nós, de acordo com as nossas necessidades, aporte calórico, saciedade e satisfação e menos de acordo com o “que têm de ser”? Porque, na verdade, não tem. Por muito que vos queiram convencer do contrário.

Para além dos mitos alimentares que ainda prevalecem, a nossa relação com a comida tem muito de social, imitação e emoção.

Socializamos comendo e esse é um dos momentos mais difíceis num processo destes porque damos por nós a sermos os únicos a comer coisas diferentes. E, depois, percebemos que o problema não somos nós mas os outros, que rejeitam a diferença, não aceitando acolhê-la ou integrá-la, são os espaços que frequentamos, pouco adaptados a estás modernices das bowls, sementes e afins. Quando damos por isso, comemos mais vezes em casa, temos amigos novos e frequentamos sítios diferentes. Porque o paradigma habitual deixa de fazer sentido.

A imitação é outro processo, porque tendemos a repetir o que vimos os nossos pais fazer, a cozinhar como nos ensinaram e a questionar tudo isto para mudar. Novamente, não temos de ser nós contra o mundo ou a família mas, simplesmente, seduzir os mais renitentes com o sabor de refeições preparadas com amor e ingredientes naturais.

Finalmente, a emoção. Temos uma relação altamente emocional com a comida e décadas de um palato educado a sabores tão aparentemente inocentes como o do pão com fiambre. Para muitos, a comida é recompensa ou escape, aspectos que nos deverão levar a pensar nas razões pelas quais nos recompensamos através da comida, nos refugiamos comendo ou acalentamos algum tipo de mau estar.

Mitos? Quantos querem? 

  • come a carninha toda: não lhe conheço a origem mas sei que a proteína animal foi, durante muito tempo, um luxo que a industrialização massificou para, as Grandes Guerras Mundiais, voltarem a tornar um bem escasso. Foi principalmente a Segunda Guerra Mundial a que marcou uma geração que cresceu para nos passar essa ideia de que a proteína animal tem de ser valorizada porque, durante muito tempo e por falta de recursos financeiros, este elemento era um luxo na nossa alimentação.
  • O pão engorda (e, mais recentemente, tem glúten, faz mal): o pão, em si, não engorda. O que engorda é a farinha altamente refinada com que o mesmo é produzido, que se transforma em açúcar no processo digestivo, acumulando-se no nosso organismo. Aquela carcaça que antigamente comíamos ao lanche? Essa engorda. Mas o pão do ainda mais antigamente não engorda porque as farinhas usadas eram moídas a pedra, fazendo prevalecer as fibras e os nutrientes do cereal usado. Da mesma forma, o pão escuro, que lá muito no antigamente era o pão dos pobres passou a ser trocado por um pão branco, de trigo altamente refinado, com um miolo semelhante a algodão. Felizmente a moda é  um eterno retorno e o pão escuro (centeio e outros cereais) está de volta, da mesma forma que surgem padarias que controlam o processo desde a produção, moagem e fabricação do pão. Não é barato mas até os intolerantes ao glúten deixam de o ser... Onde? Que eu conheça, aqui e aqui.
  • O leite faz bem aos ossos: não é o leite, é o cálcio. E um punhado de brócolos tem mais cálcio do que um copo de leite,  ao azeda no estômago e ainda fornece vitaminas e minerais que o leite não tem. Azeda? Como assim? É isso. Nunca se perguntaram a razão daquela halitose quase imediata depois de bebermos leite? É que o processo de digestão desta bebida passa exactamente por... azedar, resultado da interacção com os ácidos do estômago.

A comida é energia, serve para permitir que o nosso corpo funcione de forma harmoniosa. Da mesma forma que um automóvel não circula sem combustível, também podemos olhar para os alimentos dessa forma, usando-os para nos servirem da melhor forma possível sem nos tornarmos escravos do que podemos, ou não podemos, comer. A grande vantagem de uma alimentação baseada neste princípio do que é natural é que não têm restrições porque é rica em nutrientes e pobre em gorduras e açúcar. Ou seja, se comermos mais do que o organismo consegue queimar, engordamos como em qualquer outro regime alimentar a diferença é que a quantidade do que teríamos de comer para tal acontecer é absurdamente superior ao que somos capazes de fazer porque entre as fibras, minerais, vitaminas, proteínas e hidratos de decomposição lenta que estes alimentos nos dão e o açúcar, sal, proteínas vazias e hidratos que se transformam em açúcar quando os começamos a digerir vai uma grande diferença que não se conta em calorias porque, simplesmente, não é comparável.

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