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Eutanasiar o ponto

Eutanasiar o ponto

Numa semana recheada de temas quentes e outros que só servem para nos distrair dos mais quentes de todos, que podem pôr em causa muitas das instituições e estruturas que damos como certas, a eutanásia, tema controverso, algo abstracto na sua essência, pela forma como filosoficamente questiona a natureza humana, encheu a esfera pública numa discussão morta à nascença. Obrigou, portanto, a dar como estéril a questão que se levantou no início da semana, sobre a desigualdade salarial que ainda persiste na nossa sociedade. Não vou esgrimir os habituais argumentos feministas a favor da igualdade porque o tema me recordou outro, raramente discutido, que foi alvo de uma acessa discussão entre colegas de profissão e outras áreas relacionadas, pela forma, absolutamente igual e redutora, que o sistema de ponto impõe na maior parte das empresas.

Sobre o ponto é a pontualidade, a culpa é sempre dos recursos humanos porque, em última análise, a responsabilidade é sempre das pessoas. Especialmente as que gerem outras pessoas e que, por isso, têm uma responsabilidade acrescida. Pensei, demasiadas vezes, ser a carta fora do baralho, estar errada, fazer tudo ao contrário, ser aquela que não se consegue adaptar quando, na verdade, nada disso era verdade. A culpa disto é do departamento de recursos humanos porque, na maior parte dos casos, não consegue ver o mundo como ele é, na sua diversidade e amplitude, tentando confinar a criatividade aos limites administrativos da contabilidade. Confuso?

Gerir pessoas não é mesmo do que gerir outros recursos. Até aqui estaremos, certamente, de acordo: resmas de papel não se queixam, reclamam ou sofrem de absentismo. A gestão de pessoas supõe a sua agregação, aplicação em funções, recompensa, desenvolvimento e monotorização, em organizações que dependem de pessoas para, conjuntamente, alcançar determinados objectivos ou seja, pessoas motivadas em torno de uma ideia e identidade que as une. O gestor de recursos humanos tem a inglória tarefa de organizar essas pessoas em função do negócio da organização, gerindo os diferentes processos que lhe estão associados. O(s) problema(s) quando decidem implementar medidas que aglutinam sem diferenciar. Reconhecer a diferença de funções e tarefas é fundamental para conseguir que as equipas funcionem, se reconheçam e sintam motivadas.

Motivação é outra palavra que é, também, altamente desvalorizada neste contexto da gestão de recursos humanos, tratando as pessoas como recursos técnicos que não dependem de influencias várias. Não defendo que cada um faça o que quer no quadro do seu humor mas, a ignorância em relação às características do trabalho que cada pessoa desenvolve transforma este processo de gestão de recursos humanos numa gestão de processamento de fichas de colaborador e salários, sem valorização humana e, principalmente, sem retenção de talento. Acontece. No melhor pano cai a nódoa, especialmente nas organizações que dependem tanto de trabalho rotineiro e altamente burocrático como de trabalho criativo, o motor de arranque para que as restantes funções possam existir. Também conheço bem organizações que, não dependendo directamente de criatividade, baseiam-se no trabalho científico e/ou intelectual, tantas vezes organizado como se de outra qualquer tarefa se tratasse. Que fique claro que defendo que todas - sem excepção - as tarefas e funções são dignas e relevantes e, mesmo as que são muitas vezes menosprezadas devem ser valorizadas. Esquecemo-nos tantas vezes de quem chega, no final do dia, para garantir que o nosso espaço de trabalho está impecável na manhã seguinte, de quem organiza papeis para assegurar que a organização funciona ou de quem nos garante a abertura de portas.

A esses, independentemente do trabalho ser mais ou menos criativo, o meu apreço.

Contudo, não é sobre estas funções que escrevo, porque estas, como todas as outras administrativas, são passíveis de ser organizadas e controladas de uma só forma, com sistemas de ponto que controlam entradas e saídas. E os outros, cujas funções implicam, por vezes, trabalho fora de horas, eventos ao fim de semana ou alterações ao horário, começando mais cedo ou terminando mais tarde em benefício da empresa? Limitamo-los, também, ao sistema hieráriquico e funcional que desconta os atrasos e não remunera o trabalho extra? Obrigamo-los a acelerar na auto-estrada para que um minuto de atraso não seja descontado? E as ideias? Terão de ocorrer dentro de um horário pré-determinado ou deveremos deixar que as pessoas circulem livremente, dando-lhes responsabilidade para apresentarem os resultados esperados para que, quando falham, podermos cobrar?

As ideias não picam o ponto e para quem tem funções que dependem de criatividade, a excessiva burocracia e regras em demasia, num quadro sistémico organizado de forma administrativa, é um valente balde de água fria. As ideias surgem. Normalmente fora da caixa ou seja, num contexto de liberdade e responsabilidade que permite que o indivíduo não se auto-limite, censure e proteja para não ser questionado.

Que motivação para quem chega a horas, cumpre o que lhe é pedido sem que lhe seja permitido rasgo e exuberância? Nenhuma, garanto. Eu sei, porque estou a escrever este texto na cozinha enquanto o jantar está ao lume. As ideias e o pensamento fluem independentemente de nos obrigarmos a criar num determinado contexto. Imaginem o  ridículo de poder pensar e criar apenas num horário definido para o fazer….

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