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urbanista

a vida como ela é

A inspiração é muito transpirante, profundamente dolorosa

A inspiração é muito transpirante, profundamente dolorosa

A vida é feita de regressos, partidas e outros regressos. 

Demorei a escrever este texto, não por falta de vontade ou inspiração mas, porque, em cada palavra, há sempre uma parte da transpiração de que fala o título. Escrevê-lo foi regressar às minhas parcas memórias dos Açores e, por consequência, da Madeira, ilhas de que gosto genuinamente por razões muito diferentes. Como partilhei [aqui] na altura [aqui], os Açores têm em definitivo, algo de muito particular. Conversar com o Joel Neto transportou-me para as paisagens açorianas, o jardim da sua casa e o verde encantador no meio do Oceano.

Independentemente das modas, do protagonismo e do que se vê na televisão, o dia do Autor Português deveria ser todos os dias por uma simples razão: falam a nossa língua, conhecem-nos as entranhas e são parte de nós, contribuindo, cada um à sua maneira, para a nossa cultura. Entrevistei o Joel Neto, autor e cronista, na véspera do lançamento do seu novo livro, Meridiano 28. Poderia ter sido uma manhã igual a tantas outras mas enchia-a de palavras, influenciadas pela luz das janelas enormes e o ambiente acolhedor com cheiro de café e bolo quente. Encontrei-o num cenário único, em Lisboa, para conversarmos sobre o seu novo livro. Mais do que isso, esta é uma conversa sobre nós, as nossas ideias e perspectivas sobre o que pode ser a vida moderna, vista por dois quarentões que não perdem a inocência dos vintes que já lá vão.

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O Joel Neto, para além de excelente cronista e escritor é, também, meu amigo, daqueles com quem não falamos todos os dias, ou partilhamos pormenores do quotidiano, mas que fazem parte da nossa vida e que vamos acompanhando à distância. Conhecemo-nos num cubiclo rectangular, ao qual chamávamos estúdio, uma rádio cuja emissão chegava tão longe quanto os limites do pátio da faculdade que ambos frequentámos. Parecia-nos que a rádio não se esgotava naquela instituição e, mesmo com o som dos matraquilhos a abafar a potência da emissão, acreditávamos estar a falar para o mundo. Eu subia semanalmente ao estúdio porque sim, pelas mesmas razões que ainda hoje entro num estúdio profissional para amplificar cada palavra, ou improvisar com um smartphone em podcasts publicados na Internet. O Joel queria impressionar uma rapariga, impressionando a rapariga errada porque, ainda hoje, lhe tenho muito respeito intelectual. Na altura, pelos discos que trazia na mala. Hoje, pelas palavras que publica em cada um dos seus textos e, especialmente, pelas histórias dos livros que já publicou.

Meridiano 28 é uma história dentro da história que recupera a memória cruzando-a com a ficção. Se os anteriores foram um sucesso, não tenho dúvida de que este irá fazer render os que seguem o seu trabalho e cativar novos leitores. O cenário é o Faial no epicentro da Guerra, repleto de cenas bucólicas que são, simultaneamente, burguesas e hedonistas, recordando um cenário de paz entre rivais na Europa de Hitler, enquanto recria piqueniques ou concertos de jazz nos anos de 1940 do século XX. Há muito tempo, portanto. O que mudou, entretanto? Tudo.

Urbanista: Como é que chegámos ao dia de hoje? De estudante de Relações Internacionais, no ISCSP, a assinares crónicas e a dares entrevistas na rádio sobre o teu novo livro?

Joel Neto: Como qualquer escritor, sou de olhar para trás, porque a memória é a nossa principal matéria. Mas isso não me impede de dar o passo seguinte e, portanto, inibo-me de ter esse tipo de reflexão... estou é preocupado em saber como vou chegar ao ponto seguinte. E espero que essa ansiedade, esse impulso, se mantenha muito tempo. O mundo não vai acabar se falharmos. Sinto que algumas pessoas, da minha idade, sobretudo nos Açores, já pensam e falam sobre a reforma. Eu nunca penso nisso, espero não acabar nunca e quero estar sempre a pensar no passo a seguir para evitar a tentação do comprazimento ou da frustração. Acho que todas as pessoas que escrevem, compõem, pintam, estão a estender o braço na direção do outro e estão, ao mesmo tempo, num processo de auto-validação. No fundo estamos a gritar: “eu estou vivo”. E tens sempre a vaidade... É uma preocupação de todos os dias, não me deixar tolher pelas tentações dessa vaidade... Mas de qualquer maneira, outra das preocupações que tenho é pensar no livro seguinte, já ter selecionado, se possível, o coração do próximo livro. 

aquilo que distingue a literatura da não literatura, ou ficção pura e simples, é que ela se completa no leitor num um ponto em que, leitores diferentes que leiam o mesmo livro, o interpretem de forma diferente, e o leitor que lê o mesmo livro em diferentes momentos da vida, desenvolve significados diferentes.
— Joel Neto

U: Quando a obra é pública, está morta? 

JN: Não, não... Pelo contrário. O livro só se completa no leitor. É o leitor que definirá se existe ou não literatura. Do meu ponto de vista, aquilo que distingue a literatura da não literatura, ou ficção pura e simples, é que ela se completa no leitor num ponto em que, leitores diferentes que leiam o mesmo livro, o interpretem de forma diferente, e o leitor que lê o mesmo livro em diferentes momentos da vida, desenvolve significados diferentes. O que comprovará que o livro tem mais a dizer do que aquilo que, efectivamente, diz.

U: Como é que escolhes os temas para os teus livros?

JN: Acho que escolho primeiro os assuntos e esses levam-me a um tema. O meu primeiro filtro é o filtro da história. Há uns tempos tive uma conversa com o Luis Represas - e nem nos conhecíamos, gerou-se uma cumplicidade momentânea - para concluirmos que tínhamos a mesma ferramenta para detectar uma possibilidade. Por exemplo: antes desta entrevista, vinha no metro, junto à porta, e reparei num rapaz negro, com um aspeto mauzão. Eu estava com o telemóvel na mão e meti-o no bolso, num instinto de autoproteção. Esse rapaz foi a única pessoa naquela carruagem que deu uma esmola a um cego que passou e, isso, iriçou-me o pêlo. Essa é a ferramenta para detectar a possibilidade por isso, anotei a ideia e é provável que o tema apareça numa crónica ou, quem sabe, num romance. Não tive propriamente medo daquele homem mas, de alguma forma, senti que me tinha de proteger, guardando o telemóvel no bolso, porque há sempre a ideia dos roubos, mesmo por esticão... E, no entanto, foi o único que deu uma esmola.


U: Não achas que isso é um excelente exemplo do preconceito que existe em todos nós?

JN: Óbvio! Nós somos feitos de preconceitos. A literatura é, muitas vezes, o confronto com esses preconceitos, uma tentativa para procurar um caminho. O meu primeiro impulso é o impulso emocional. Eu encontro um homem que deu uma esmola e a seguir fez um atentado terrorista e quero contar a história desse homem. Não sei que filtro é esse, se é o do cronista, se o do jornalista. Acho que é o filtro do homem que eu sou e tento transportar isso para os livros.

o romance é tudo o que escapa a esse trabalho de planeamento
— Joel Neto

U: Todos os artistas dizem que o trabalho artístico é 99% transpiração e 1% inspiração. Concordas? Como é que transformas a tua inspiração em transpiração?...

JN: Bom, eu transpiro muito... Eu realmente trabalho muito. Há diferentes tipos de literatura, diferentes escolas e, mesmo na própria escrita novelesca, há diferentes escolas, tendências e tradições. Da mesma forma, há diferentes métodos pessoais. O meu método é o mais trabalhoso que conheço, os meus livros começam por ser uma folha de excel que se transforma num ficheiro com várias folhas e acabo por ter, por exemplo, dois ficheiros excel com oito folhas cada um. Cada uma destas folhas corresponde à descrição das personagens. Uma biografia que chega a ter cartão de segurança social... Eu sei que nunca o vou usar mas é isso que lhes dá contornos definidos para as tornar verosímeis. Trabalho no sentido de as tornar cada mais verdadeiras, recorro a fotografias de amigos ou outras, que retiro da web, com o aspecto que quero dar às minhas personagens. Ou então, são pessoas reais que inspiram determinada personagem e que, por isso, quero ter aquele rosto presente. Para além disso, crio uma grelha do meu capítulo num ficheiro word e acaba o meu trabalho. Porque o romance é tudo o que escapa a esse trabalho de planeamento. Esse trabalho não é um plano B, é uma espécie de pauta musical. Contudo, o romance é a variação que nós fazemos sobre um princípio matemático. 

U: Como um guião que ganha forma e que permite ser recriado?

JN: É menos que um guião....  será um guião em alguns aspetos. Uma espécie de road map.

U:Se eu pegasse nas tuas folhas de excel, seguramente escreveria uma coisa diferente...

JN: Espero que sim em tua defesa e das folhas de excel! O romance é tudo o que escapa a isso. E então é que começa a parte mais difícil, a inspiração muito transpirante. É profundamente dolorosa. Às vezes perguntam-me se eu gosto de escrever e já disse isto muitas vezes, escrever é horrível. Ninguém gosta de escrever, nós gostamos é de ter escrito. De ter escalado a montanha. Não é de escalar a montanha, não é de correr 20 quilómetros que nós gostamos... É de ter chegado ao fim. E escrever é um pouco isso, para mim. A escrita vai evoluindo, vai sendo coisas diferentes, correspondendo às nossas fases na vida... 

Ninguém gosta de escrever, nós gostamos é de ter escrito. É de ter escalado a montanha. Não é de escalar a montanha, não é de correr 20 quilómetros que nós gostamos.
É de ter chegado ao fim...
— Joel Neto

U: É sinal de que evoluímos... 

JN: É sinal que evoluímos e que não caímos naquele que é o defeito mais paralisante da sociedade contemporânea, a necessidade de nos tribalizarmos, a necessidade de dizermos, e mostrarmos, “eu sou isto”...

U: Necessidade de pertença...

JN: É exatamente isso, pertencer, fazer parte de um grupo maior do que nós. Ter uma identidade, um cartão...

U: Citando Giddens sobre o desencaixe dos sistemas sociais... Há um desencaixe social tão grande que provoca exatamente o que tu estavas a dizer, esta necessidade de pertencermos.

JN: O que está em causa é um vácuo emocional que pode ser explorado de diferentes maneiras... 

U: Sobre o desencaixe há um outro aspeto que gostava de explorar, porque, a determinada altura da tua vida, decidiste regressar aos Açores. Quantos anos viveste em Lisboa?

JN: 20 anos.

U: E porque é que decidiste deixar a vida na grande cidade e voltar para a Terceira? Tens saudades de Lisboa?

Joel: De Lisboa sim mas da vida aqui não. Eu amo esta cidade e só viveria em 3 sítios no mundo: Nova Iorque, Lisboa ou na Terra Chã (gargalhada cúmplice de quem admite que Brooklyn, em Nova Iorque seria um perfeito cliché). Gosto de viver assim, 80% do meu tempo na ilha e 20% na cidade... 

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U: O que é que a ilha te traz?

JN: Em termos estritos eu queria uma vida mais livre, mais barata e mais inteligente. O facto da vida ser mais barata dá-me outra liberdade, não preciso de estar a fazer tanta coisa em termos profissionais. Ou seja, não preciso de estar a fazer tantas coisas para me sustentar e posso dedicar mais tempo à escrita. 

U: Em termos de percentagem, quão mais barata é a vida na Terceira?

JN: Depende da vida que tu fizeres. Mas eu creio que a vida custará cerca de 60 ou 70 por cento menos do que custava na altura que vivia em Lisboa. Actualmente talvez  40% menos em relação a Lisboa, porque Lisboa está uma cidade muito cara. Tanto eu e a minha mulher trabalhávamos em indústrias falidas, os livros e os jornais. Portanto, vivíamos com alguma apreensão...

U: Viviam para pagar as contas?

JN: Ainda tínhamos alguma qualidade de vida que não queríamos perder. Até hoje tive sempre esse privilégio. Como começei a trabalhar muito cedo, nunca vivi a contar tostões, no sentido propriamente dito da expressão. E não queria começar, até porque não ter vivido assim foi o que me impediu de começar uma carreira literária mais cedo. Paguei caro para ter esse conforto. Teve um custo muito alto que foi o ter esperado muito tempo para começar a construir uma carreira literária com o mínimo de coerência. E, portanto eu queria proteger esse conforto mínimo de classe média. Viver nos Açores permitiu isso pois tenho um jardim, um pomar, tenho cães, tenho um pedaço de terra grande, uma casa cheia de luz e, de vez em quando, não chove (para perpetuar o mito de que chove diariamente nos Açores!)

U: Esse contexto (e conforto) inspira-te?

JN: Na verdade fui para os Açores para escrever o Arquipélago, em 2015, e correu bem...

U: A escrita, principalmente ficção e romance, são sempre resultado de experiências pessoais? Mesmo que não tenham qualquer registo autobiográfico...

JN: Sempre. Ou uma especulação a partir delas, o que também é resultado da experiência. Sempre. De uma especulação, ou de um sonho, uma obsessão, uma arrelia ou um medo, mas isso também é experiência, é algo que foi experimentado. Creio que sim. Foi experimentado ou a sua possibilidade. Creio que estamos sempre a escrever sobre nós mesmos e, mesmo quando escreves sobre uma mulher membro da tribo Masai no Quénia, estás a escrever sobre ti. Se calhar estamos sempre a escrever variações do mesmo livro, como dizia a Agustina Bessa-Luis. 

Há muitos romances hoje em dia que não imprimem, sequer, 1200 exemplares, quanto mais venderem esse número de livros a nível nacional.
— Joel Neto
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U: Os portugueses não lêem muito e não compram muitos livros. O que achas que poderia ser feito para mudar isso? O que achas de se venderem livros nos supermercados?

JN: Acho muito bem! 

U: Quanto mais disponível, maior a probabilidade de as pessoas o lerem?

JN: Por mim até se podem vender nas bombas de gasolina. Creio que não minto se disser que o meu vendedor número 1 é uma tabacaria na Ilha Terceira, o sítio onde trabalhei quando era adolescente, passava lá os Verões, nem ia à praia. Era obcecado por jornais, entrava às 9 da manhã e saía às 10 da noite, 7 dias por semana, porque queria. Vender jornais e estar no meio de jornais a cheirar jornais. Trabalhei nessa tabacaria e depois, ao longo da minha vida, fiquei muito amigo dos donos e essa tabacaria sempre acarinhou muitos os meus livros. Sou do arquipélago dos Açores, da Ilha Terceira, onde vivem 50 mil pessoas. Creio que a tabacaria vendeu mais de 1200 exemplares. Há muitos romances hoje em dia que não imprimem, sequer, 1200 exemplares, quanto mais venderem esse número de livros a nível nacional. Sobre pontos de venda, o meu princípio é este: importa-me saber (onde se venderam) para lhes agradecer, mas se alguém quiser vender os meus livros numa roulotte pode fazê-lo à vontade. O que me interessa é que eles cheguem às pessoas, na esperança de que as pessoas os comprem. 

lê-se internet: comentários no facebook, máximas escritas em quadrinhos no facebook... Isso é deplorável mas, se calhar, ainda pode piorar e, portanto, nós temos a missão de o evitar.
— Joel Neto

U: Sabes que há um certo preconceito em relação aos autores que estão à venda no Pingo Doce e outros supermercados...

JN: Esse preconceito é cultivado por autores que querem que os livros lá estejam. A SONAE é a cadeia que mais livros vende em Portugal e, portanto, a não ser que nós não queiramos que os livros cheguem às pessoas... Lamento que não se leia mas não diabolizo a má literatura ou os livros de auto-ajuda e outras coisas tontas. Não os leio mas, apesar de tudo, existe da parte desses leitores a valorização do objecto livro. É, pelo menos, uma coisa que se faz a favor dos livros. A outra é que esses autores sustentam uma indústria que permite que os autores que não vendem nada sobrevivam. Nem estou a falar de mim porque eu vendo, não tanto como eles, mas os meus livros vendem-se. Contudo, há pessoas que não vendem nada, são geniais e não fosse este contexto, não seriam publicadas a não ser nestas casas de fotocópias caras que se autointitulam “casas de auto-publicação“. Eu tento ver isto tudo de uma maneira positiva. Contudo, é negativo o facto de se ler tanto em Portugal, mas não se lerem livros ou jornais. Lê-se internet: comentários no facebook, máximas escritas em quadrinhos no facebook... Isso é deplorável mas, se calhar, ainda pode piorar e, portanto, nós temos a missão de o evitar. Já no século XIX lamentávamos os poucos leitores que existiam e, realmente, no século XIX, os índices de analfabetismo eram muito elevados. No século XX existiam mais leitores e nós continuámo-nos a queixar da falta de leitores. Agora não há - mesmo - leitores e nós continuamos a dizer que há poucos leitores. É provável que hoje tenhamos mais leitores do que os que teremos daqui a 10 anos... 

U: A Feira do Livro está cheia todos os dias. Há autores que mobilizam realmente muitas pessoas para apresentação do livro, para sessões de autógrafos... E não se lê? Será que isto tem a ver com outro fenómeno que é o da popularidade? 

JN: A notoriedade, neste momento, domina muito mais coisas em Portugal - e no mundo Ocidental -,  provavelmente no mundo todo, do que aquilo que deveria dominar. A notoriedade pode ser usada com algum cuidado e bom gosto para levar as pessoas aos bons livros também. Mas estamos sempre a falar de um compromisso entre cuidado, bom-gosto, preocupação formativa... como a máxima cristã: tudo me é lícito, mas nem tudo me convém. Não vale a pena sermos fundamentalistas, não vale a pena dizermos “livros em supermercados não!”, não vale a pena dizer “eu, escritor, nunca pentearei um cabelo para uma fotografia porque não importa se o escritor é bonito ou feio, está penteado ou não está”... Não! Nós penteamo-nos, como as outras pessoas, normalmente penteamo-nos e, quando não o fazemos, há uma personagem que queremos construir. E, portanto, mentirá aquele que disser que a sua imagem nunca foi um instrumento para chegar ao leitor. Nós recorremos sempre àquilo que temos para chegar ao leitor. Lê-se pouco e compram-se poucos livros, a indústria literária está em dificuldades e esse facto faz com que, nós, os próprios autores, tenhamos de ter iniciativas que ultrapassam a escrita, usando os veículos de comunicação que temos ao nosso dispor para chegar aos leitores, partilhando com a editora essa responsabilidade de promoção. Não vale a pena virmos com princípios absolutos de que não criamos personagens, de que não estendemos o braço em direção ao leitor porque isso é mentira. É quase sempre mentira. 

não vale a pena virmos com princípios absolutos de que não criamos personagens, de que não estendemos o braço em direção ao leitor porque isso é mentira. É quase sempre mentira.
— Joel Neto

U: O que é que terá de fazer um candidato a escritor?

JN: Tenho um amigo escritor que esteve 9 anos a enviar propostas de livros para editoras e a ser recusado. A escrita é uma coisa profundamente envaidecedora. Eu creio que não há nada que envaideça mais um português do que ter um livro na estante com o seu nome impresso. Há muitas pessoas que canalizam para esse desidrato uma série de ansiedades que trazem de outras demandas que empreenderam ao longo da vida e que, por alguma razão, não conseguiram concretizar. O que eu quero dizer com isto é que, em Portugal, escrevem-se mais livros do que aqueles que, no meu ponto de vista, justificam uma publicação profissional. E, portanto, as editoras não conseguiram, nunca, dar vazão a isto. Quer dizer, há pessoas a publicarem livros com as suas indignações de Facebook e pagam para as publicar. Compram a legitimação de que estão à procura, compram essa concretização. Tem todo o direito, têm mesmo todo o direito, mas…

U: Vou aproveitar para esclarecer uma coisa. Eu tenho um livro publicado pela Chiado Editora, mas foi a convite da editora, eu não paguei. É que eu já fui alvo da pergunta... “como é que fizeste para publicar?” Não fiz, convidaram-me para o publicar. Fica a nota. 

JN: Vou dizer-te sem constrangimentos: aquilo que eu acho que um candidato a escritor não deve fazer é a auto-publicação. Nunca, porque é um atalho. Não é o teu caso porque foste convidada mas, neste momento, uma editora de auto publicação é uma casa de fotocópias caríssimas, auto intitulada editora de auto publicação. Recebem o teu manuscrito com, por exemplo, os bilhetes que deixas à tua empregada, porque todos os dias lhe deixas bilhetes, que alguém um dia te disse que eram engraçados. E publicas, depois de enviares os bilhetes à tua empregada para uma dessas editoras e te ligar uma menina com uma voz maravilhosa que diz assim: “você não imagina, eu quase chorei a ler os seus bilhetes à sua empregada. Mas teve uma sorte, foi uma coincidência, hoje mesmo estava reunido o nosso conselho editorial e eles adoraram os seus bilhetes e, portanto, tenho o prazer de anunciar que vamos publicar o seu livro".

U: “Só custa…”

JN: “Só tem que comprar X exemplares” ou “só tem que mobilizar N pessoas para o lançamento”. Isso é um atalho, e é um atalho que tem limites a vários níveis: 1) enche-nos de uma vaidade precoce que nos tolhe quando é suposto darmos o passo seguinte; 2) dá-nos uma má imagem, infelizmente, junto da inteligência literária; 3) É mentira, não aconteceu. É fogo-fátuo, não é uma publicação. Quando hoje em dia me perguntam o que é que um candidato a escritor deve fazer digo que deve escrever e rasgar, escrever e rasgar, escrever e rasgar, algo que eu não fiz. Publiquei o meu primeiro romance mais cedo do que devia e, se calhar, por isso é que fiquei 10 anos sem publicar ficção. Talvez por isso é que hoje olho para os meus primeiros dois livros e penso “oxalá não sejam reeditados”. Como aconteceu? A Margarida Rebelo Pinto, algures em 1999, publicou um livro chamado “Sei Lá”. Em 2000 escrevi um livro, o meu primeiro livro. Nunca tinha escrito um livro mas tinha a certeza absoluta de que iria ser escritor. Enviei-o a sete editoras. Não conhecia ninguém na indústria editorial e, ao fim de meia dúzia de dias, recebi um telefonema da Presença, que era uma grande editora, a dizer “vamos publicar o seu livro”. Foi o dia mais feliz da minha vida. Não posso dizer isto à frente de nenhuma das mulheres com que casei, mas na verdade, foi um dia muito feliz. Na altura não existiam estas editoras de auto-publicação mas existia outro fenómeno, porque, naquela altura, todas as editoras nacionais estavam à procura de escritores portugueses. Nem era propriamente a nova voz que estavam à procura, estavam à procura de fenómenos. 

U: Queres contar a história deste novo livro?

JN: Esta é a história de um informático lisboeta, que é fundador de um portal de citações. É um técnico com uma inclinação artística, para procurar a beleza. É visitado por um homem, que faz lembrar o Morgan Freeman - que podia ser o Morgan Freeman (mas que não é) - e que lhe devolve um convite de que foi alvo 20 anos antes, em Nova Iorque, para onde foi levado durante uma semana, com tudo pago, para escrever a biografia do seu tio, um luso-alemão da ilha do Faial. Nos anos de 1940 existiam duas realidades em território português: havia Portugal e havia o Faial. O Faial, nessa altura, era um pedaço do mundo, muito importante e financeiramente interessante, resultado da distribuição mundial da telegrafia. Os cabos submarinos tinham como base avançada no Atlântico Norte a ilha do Faial. Ao mesmo tempo, a baía da Horta era a base de escala dos clippers, os Boeing 314, da Pan American, os primeiros aviões (chamados “palácios dos ares”) a atravessar o Atlântico no domínio da aviação comercial. Eram voos que eram apenas ocupados por magnatas, milionários, famosos, estrelas de Hollywood, campeões de box, estadistas. Ao mesmo tempo, decorriam, ao largo, alguns combates integrados na batalha do Atlântico, a fase da 2ª Guerra Mundial em que Hitler esteve mais perto de ganhar a guerra e em que Churchill o chegou a temer. E nós temos neste cenário uma elite, que envolve várias nacionalidades mas, sobretudo, ingleses e alemães, que vivem em paz e harmonia e, mesmo, em folia uns com os outros, ao longo de mais de metade da guerra. A paz entre estas pessoas só acaba em 1943, quando Salazar percebe que a guerra se vai inclinar para o lado do aliado e acaba com aquela sua neutralidade germanófila, evacuando os  alemães. Mas até os alemães serem evacuados, no período de pré-instalação da base naval americana aliada, estas pessoas vivem em paz, em harmonia e em felicidade. Fazem piqueniques juntas. As suas famílias estão a matar-se um pouco por toda a Europa e elas fazem piqueniques, vão à praia, jogam ténis e dançam jazz freneticamente. O número de orquestra de jazz que atua pela cidade da Horta nessa altura é absolutamente fascinante. Portanto, temos ali um microcosmos, uma cápsula de delírio composta por pessoas que estão completamente à parte do seu tempo, vivendo um glamour com conforto financeiro. É um tempo formidável da história dos Açores que só tem paralelo, talvez, nos séculos XVI/XVII. 

as velhas mais bonitonas do pedaço têm um velho entre elas

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"és mesmo gay ou é só porque está na moda?"

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