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Já não há cartas de amor

Já não há cartas de amor

Escrever é um acto de amor e, em tempos em que o amor é raro e tudo se resume a encontros breves, as palavras que registamos, à mão, em folhas de papel, ganham uma dimensão maior do que o seu significado encerra.

Hoje é o dia da escrita à mão. Se poderia escrever este texto à mão? Poderia. Mas depois teria de o digitalizar para o publicar. Escrever à mão tornou-se uma espécie de último recurso ou acto intencional. Até para listas de supermercado existem aplicações. Os compromissos passam directamente do email ou das mensagens para o calendário, numa sincronização da vida pessoal e profissional que toca ou vibra em vários momentos do dia. Apesar de uma certa nostalgia da agenda em papel e dos blocos de notas, de existirem os indefectíveis da escrita que continuam a fazer as suas anotações à mão, a verdade é que a digitalização dos processos tornou a sociedade mais veloz e, contudo, mais impessoal. Da letra de médico aos gatafunhos que nem a essa categoria conseguem chegar, passando pela caligrafia romântica, cheia de rebiques, pontos nos i’s muito redondos e, pior, com corações a substituir esses pontos, há (havia?) de tudo, numa diversidade que enriquecia a comunicação, obrigava-nos a decifrar palavras e a conhecer melhor a pessoa do outro lado.

Na velocidade da comunicação contemporânea escrever à mão só pode ser um passatempo, uma assinatura ou uma solução para anotações rápidas. Guardei cartas, postais e cartões dos meus pen friends durante anos e tenho uma caixa cheia de cartas que troquei com a minha melhor amiga, nos tempos em que vivemos longe uma da outra. Hoje substituímos essas cartas por imagens que trocamos diariamente no instagram às quais acrescentamos as nossas ideias, e longos threads de mensagens no whatsapp. Melhor? Não sei. Mais instantâneo, próximo e divertido. Isso sim. Acrescentamos a voz, as imagens, os emojis e as mensagens ficam mais ricas mas nada apagará aquelas cartas que contam boa parte da nossa história. Eram uma espécie de diário partilhado, nas quais revelávamos segredos uma à outra, questionávamos o mundo e debatíamos a nossa vida a um ritmo tão lento que a ausência de resposta nos obrigava a decidir sem a opinião da outra. Eram catarses amorosas em plena adolescência que depois passaram a longos telefonemas e emails trocados ao longo da semana, quando começámos a trabalhar. Não perdemos, contudo, esse hábito da escrita e ainda hoje, quando é relevante, escrevemos um postal, rabiscamos uma folha de papel ou entregamos um cartão manuscrito à outra. Porque há hábitos que não se perdem e a escrita tem tanto de pessoal quando de empenho na relação que estabelece entre as pessoas. 

Os namorados já não trocam cartas de amor e o amor assume novas formas, dependendo de outras regras e símbolos. Não interessa a letra do outro e, na maior parte dos casos, não a reconheceríamos se nos entregasse uma carta. Não é melhor, é simplesmente diferente. Mais fácil, como se a liberdade que a tecnologia permite nos preenchesse mais. Na verdade, faltam-nos cartas de amor que revelem esse sentimento cada vez mais raro, num contexto em que o sexo se tornou tão fácil e o amor se esfuma numa mensagem digital. Afinal, não é isso que acontece quando compramos um novo telemóvel?…

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A tecnologia já não é... um boys game

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