olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

O calor, o vento e os montes

O calor, o vento e os montes

Invejo todos aqueles que se recusam a pensar. A articular ideias. A juntar dois e dois para resultar em quatro. Aqueles que conseguem abstrair-se de tudo e seguir com as suas vidas, como se nada fosse. Sempre invejei mas acho que, na verdade, nunca quis, verdadeiramente, ser assim. Chama-se indiferença e falta de respeito. Não gosto.

Quem não se sente não é filho de boa gente, sempre ouvi dizer.

Contudo, de que nos serve ficar a replicar a dor, a mágoa, os erros ou indagações que nos invadem através da comunicação social e dos sites de redes sociais? Serve aquela tendência algo mórbida que existe em quase todos nós, em esmiuçar a tragédia alheia. Pouco mais.

O tema não pode ser ignorado, como não podemos ficar alheados de nenhuma tragédia. No entanto, pode essa mesma tragédia imobilizar-nos? Não pode. Pedrogão Grande será o tema durante as próximas semanas até que a agenda mediática, dinâmica por natureza, o coloque em segundo, depois terceiro plano, até o eliminar por completo das notícias e, por consequência, da discussão pública.

 Li um artigo que compilava relatos de sobreviventes. Fiquei mesmo sem palavras, a ponto de ser incapaz de explicar a quem me rodeava o que tinha acabado de ler. Mais tarde, à noite, liguei a televisão e não conseguia abstrair-me do que via. Não vou comentar o jornalismo. Bons e maus profissionais existem em todas as profissões. Crucificar é fácil. Fazer (bem) é muito difícil. Decidi abstrair-me. Fazer o que fazem tantos outros e publiquei no instagram do urbanista. Esfreguei na cara de todos o que me faz feliz. Imediatamente a seguir virei-me de costas, dei espaço ao recato e apelei à solidariedade. Vinte e quatro horas depois não me interessa qual das fotografias teve mais likes porque já sabia que o resultado seria este. A floresta não dá votos e a solidariedade não dá likes. Se me dissessem que, para o urbanista explodir em popularidade, eu teria de abdicar de fotografias que, mesmo bonitas, têm aquela componente de "grilo falante", a consciência que nos obriga a discernir o bem do mal, não aceitaria. 

Exemplos do assobia para o lado e continua a tua vida existem. Rendem likes e popularidade. O chamado oh tão giro... Como escrever algo chamado pequenas obsessões, sobre sapatos, pranchas de surf e futilidades comuns num momento destes? Não o fazendo. Que vergonha dedicar-me ao que não tem interesse. No entanto, há quem queira, simplesmente, abstrair-se da tragédia, mesmo sem a ignorar. Não atiro pedras: Estes dias trouxeram um sentimento estranho a este blog. Qualquer coisa que publique me parece mal ou despropositada, mesmo sabendo que há do outro lado, quem queira, simplesmente, seguir em frente. Porque é mais fácil. Estão no seu direito mas hoje não falo de sapatos. Também eu avancei com a minha vida, não suspendi o meu dia, não alterei os planos e vociferei umas quantas culpas no cartório, do país que algum dia tomba para o mar de tanto olhar o seu reflexo. O interior está velho e desertificado, perdido entre o Portugal urbano, o Portugal à beira mar plantado e o resto do país. No mesmo país há diferenças impossíveis de ignorar e nós, sentados no sofá da sala, com o MacBook ao colo, sumo detox na mesa de apoio, auscultadores de marca e smartphone que tudo regista, também temos culpa por perpetuarmos esta diferença, enquanto nos pavoneamos na suposta sofisticação urbana, convencidos de que Portugal está tão mais cosmopolita quando, na verdade, continuamos a ser um país pobre e decadente, velho e ignorante, mesmo quando preferimos a agradável ignorância de ignorar tudo isso, publicando coisas bonitas, nessa rede feita de hashtags com fotografias aparentemente inspiracionais e aspiracionais que, em dias assim, não inspiram nem influenciam ninguém mas continuam a gerar likes. Muitos likes.

pequenas obsessões

pequenas obsessões

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