olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

Gabriela

Gabriela

Começar uma frase por "adoro novela" ou incluir no meio de outra exemplos da novela da noite é meio caminho andado para sermos olhados de lado, como quem diz...

acompanhas a novela?!...

Claro que acompanho. Quem nunca?... Primeiro, não é preciso acompanhar porque a história demora tanto a desenrolar-se que basta ver uns episódios de quando em vez. Segundo, ninguém vê mas as audiências não mentem. Ouro Verde II, Amor Maior e Espelho de Água tiveram, em conjunto, mais de 3 milhões e 500 mil espectadores no dia 10 de Maio. Porque ninguém vê. É um bocadinho como o Big Brother ou o macaco Adriano no Big Show Sic. Ninguém via. Todo o mundo falava (sotaque brasileiro, sff).

De volta a Portugal, apesar dos esforços dos últimos anos, a Globo continua a dar-nos 10 a 0 neste capítulo. As histórias são melhores, a construção da narrativa também, os actores têm um sotaque do qual todos nós (ou quase, vá...) gostamos e a representação é muito realista. Tanto que alguns actores são apedrejados na rua durante a exibição da novela. Nós por cá temos uma indústria mais jovem e inexperiente que também já dá cartas. Eu admito continuar a gostar mais de ver novela tal como a conheci: sotaque carioca, narrativa que flui como jogging no calçadão, emoção da favela e paisagens de cortar a respiração. Temos tudo isso. Temos. Mas não é a mesma coisa. Há uma proximidade aos actores portugueses que não se compara à distância que nos separa dos brasileiros. Isso talvez explique a diferença.

Para os intelectualóides a novela é uma figura menor do panorama televisivo. Coisa de gente pouco instruída que precisa de uma certa alienação para ir levando a vida. Para os intelectuais, a novela, tal como a generalidade da televisão, nem é considerada. Porque tudo o que por lá acontece é produção sem dignidade cultural. Depois existem as pessoas normais.

Quando digo que não vejo novelas não assumo nenhuma destas posições.  Não vejo porque não assisto televisão. Ou quase. Encontrei outras formas de entretenimento que me roubam tempo à TV. Contudo, duas coisas: o que são as séries norte-americanas se não soap operas ou, em rigor, telenovelas? Naqueles momentos couch potato, não há nada que substitua uma comédia romântica daquelas muito más, repetidas à exaustão em todos os canais de TV ou um episódio de uma novela. Não interessa se conhecemos a história e sabemos quem é o vilão. Mal apareça reconhecemos-lhe os traços de Coronel da mesma forma que identificamos a mocinha, que tem sempre algo de Gabriela.

A novela ganhou, entretanto, outra credibilidade, a ponto de ser objecto de estudo científico. Thank God! que sou contra o preconceito intelectual...  Por falar em preconceito, reparo que ontem era velha para usar crop tops e hoje sou muito jovem para ter assistido à primeira vez que Gabriela foi exibida em Portugal. O paradoxo instalado que corresponde também ao paradoxo de um tempo muito diferente do que hoje conhecemos. Portugal estava a acordar de um certo adormecimento que durou quarenta anos. Em 1977 eram muitas as marcas da ditadura de Salazar e da necessidade de liberdade que determinou o seu fim. Nessa altura, Portugal parava para acompanhar a novela e nunca mais nada voltou a ser igual. A influência brasileira já existia, mas era muito ténue. Gabriela fez as mulheres questionarem e questionarem-se. Se a figura de Gabriela era sinónimo de liberdade, Malvina tinha a rebeldia que faltava à mulher portuguesa e o Coronel representava o patriarca tão típico da nossa cultura. Eram tempos da novela a preto e branco que inauguraram uma nova forma de ver televisão e de olhar o mundo que podemos, novamente, rever na Globo.

Estreou ontem a nova versão de Gabriela (2012) para celebrar o seu 40º aniversário, desta vez com Juliana Paes e Humberto Martins nos principais papéis. Está na Globo de 2ª a 6ª às 23h.

E porque ninguém vê, quem já viu esta Gabriela?

Preparar os saldos

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Diz-se: obrigada

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