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Nem-nem. Assim-assim. Mais ou menos?

Nem-nem. Assim-assim. Mais ou menos?

No dia em que termina o prazo de candidatura ao Empreende Já, um programa do Instituto Português  do Desporto e Juventude para apoiar a criação e o desenvolvimento de empresas e a criação de postos de trabalho, por e para jovens, uma reflexão sobre a situação daqueles a quem se dirige o programa. Recolhi depoimentos e recorri a tudo o que sei, resultante do contacto com a realidade de alguns destes licenciados. Conclusão: somos o país do vou andando. Uma resposta nim que nos caracteriza e que, sendo típica dos mais velhos, se propagou entre os mais novos porque, simplesmente, vão mesmo andando.

Entre a licenciatura e o mestrado para ocupar o tempo, preencher as lacunas do Cv - que é sempre pouco preenchido, mesmo quando não é - o tempo - ou o mestrado - serve para aumentar as oportunidades de estágio que, esperam (e desesperam), culminem numa oferta de emprego. Outros vão andando entre trabalhos e recibos, numa precariedade óbvia, mascarada de trabalho freelancer. Há também os que ficam meses a fio fazendo candidaturas espontâneas.

É tão moderno sermos o nosso próprio patrão ou empreendedores que, perante uma geração que nem estuda, nem trabalha, o Governo criou um programa para transformar este grupo em potenciais empreendedores. talvez até, empregadores. Tenho duas dúvidas: se nunca trabalharam, podem empreender e criar negócios que não mergulhem de cabeça em direcção ao nem, depois do seu lançamento? A experiência de vida e profissional não será necessária para essa capacidade de empreender e gerir? Com algumas excepções, não acredito na capacidade inata para empreender e parece-me bem que querem resolver o problema endémico do emprego com um arregaçar de mangas, que seguramente vai frustrar boa parte dos que nem conseguem começar. Nem.
Além disso, onde está escrito que temos todos de ser empreendedores? Quando foi que se perdeu o direito a ser empregado de alguém? Porque razão os jovens que saem das universidades têm de ser gestores deles próprios, receber pouco e a más horas, fazer descontos sobre os quais provavelmente nunca irão usufruir e viver nem aqui nem ali porque as rendas são demasiado altas, nem serem senhores do seu nariz porque trabalham demais para pagar as contas, assim que saem de casa dos pais, nem serem felizes? Nem, de propósito, a conjunção está a mais.

Há quem esteja à procura de emprego desde que terminou a licenciatura. Há quem diga que o mercado faz as suas escolhas, absorvendo os melhores. É verdade. Mas também é verdade que absorve mais rapidamente os que têm mais contactos (não cunhas) e estão mais disponíveis para aceitar ofertas no limiar do (in)aceitável. O Ricardo, por exemplo, tem 25 anos, é licenciado desde 2014 e trabalha num supermercado, numa posição que nada tem a ver com a sua área de estudo. O que começou por ser temporário, para pagar despesas, ameaça tornar-se definitivo, com a frustração que tal acarreta. A Ana escolheu uma licenciatura que em Portugal, afirma, "não é muito valorizada". Não concluiu a licenciatura em Antropologia por questões pessoais mas está empregada. Ganha o retalho que absorve pessoas com formação superior, perde o país que investe na formação destas pessoas para depois as deixar com contratos de 18 meses, seguidos de uma interrupção para um novo contrato, ou ficar efectivo na empresa. Insegurança? Nenhuma. Só dependência da avaliação das chefias. Satisfação? Pouca.

Há muito que contacto com esta realidade. Sei bem qual é a dificuldade em encontrar trabalho, as condições que lhes oferecem e o que trabalham para garantir a sua continuidade. Não há estabilidade, grandes progressões na carreira, a circulação é apenas horizontal, e mínima. As excepções existem mas são, de facto, excepcionais. A regra começa a levar os melhores para fora porque não estão disponíveis para aceitar as ofertas miseráveis de quem (quase) paga para trabalhar, depois de acumular estágios, garantir uma boa média na faculdade e se ter envolvido em inúmeros projectos ou actividades extra-curriculares. O João é disso um excelente exemplo: pró-activo, diligente e perfeccionista, começou cedo a dar os primeiros passos na sua área e foi sempre apreciado por isso. Bom aluno, concluiu a licenciatura no prazo previsto com reconhecimento dos professores e dos muitos profissionais que foi conhecendo ao longo do caminho. De que lhe valeu? Um bilhete de ida para Londres onde planeia ficar para fazer carreira numa área para a qual se preparou e que, aqui, não encontra oportunidades que vão além do estágio. Do mesmo se queixa a Sara, com vários anos de experiência acumulada numa área que todos admiram (e invejam) e na qual não consegue desenvolve mais do que fez até aqui: estágios, trabalhos voluntários, produção mal paga. Está de armas e bagagens para Londres, para se especializar nesta área, que é a sua paixão, numa cidade em que, de facto, o mundo da moda é relevante. Nunca a ouvi queixar-se e não foi por isso que partiu mas, na verdade, foi. Ver o mundo - outro mundo - cansada da falta de oportunidades e de braço dado com o amor. Como a Catarina também outros partiram e não sei se voltam. 

A piada fácil do anúncio de emprego do jovem de 20 anos com perfil e experiência de 40 é cada vez mais real num mercado em que os de 40 são velhos, caros e cheios de vícios. A Catarina conhece este discurso de cor. Terminou a licenciatura há oito meses e há cinco que procura emprego. Da última vez que nos cruzámos fiquei feliz porque estava a estagiar numa empresa que, pensava eu, abriria portas a estes novos valores. Parece que não. Há cinco meses que procura trabalho e só lhe dizem que as oportunidades não vão faltar. Resta saber onde estão, porque também o Pedro não as encontra. Está desde Setembro à procura, com um Cv que acumula a licenciatura e três estágios numa empresa conceituada na sua área. Uma das suas principais preocupações, quando começou a enviar candidaturas, foi a de ter um Cv personalizado, que dissesse o mesmo que diz o Europass, mas que mostrasse também um pouco de si, pela forma como estaria apresentado. Mesmo assim, a taxa de respostas é baixa, muito inferior à desmotivação que começa a sentir, questionando-se, e às suas escolhas.

É isto que queremos para jovens que se esforçam por corresponder às expectativas?

O que querem as empresas e que pessoas procuram?

Não faltam casos de sucesso. Vários exemplos em diferentes áreas de ex-alunos em boas posições, com as condições adequadas e salários à altura. Não há espaço para todos, argumentam alguns. Percorri as minhas redes e não são a maioria. Deveriam ser. Há, contudo, uma imensa maioria naquele limiar do sucesso, cujo salário e condições de trabalho não correspondem. Imensa. 

O Miguel poderia ser muitas coisas mas escolheu investir na sua formação e encontrar emprego na área. Para ser mais estável e seguro. Procurou durante 7 meses e tem passado os últimos sete como um fantasma, a trabalhar numa empresa enquanto aguarda a aprovação do estágio profissional com o apoio do IEFP. Não está sozinho porque boa parte das contratações que conheço começam assim, com um estágio que demora a ser aprovado, enquanto a empresa acolhe o candidato sem poder afirmar que o faz. Também a Sofia está nesta situação. Também a Ana esteve. E o António. A Marta. A Patrícia. A história de Joana não é muito diferente. Para além de ter sido brilhante no seu currículo académico, acumulou experiências que enriquecem o Cv de quem nunca trabalhou, e fez estágios. Lembro-me de saber que trabalhava na imprensa. Cruzei-me um dia com ela num evento e, perante a agitação e parafernália multimédia pensei que estivesse bem. Não só me confidenciou algo que revelava total falta de visão estratégica da publicação para a qual trabalhava, como a iniciativa para (quase tudo) era sua e com material próprio. Naquele dia a Joana era repórter, fotógrafa, editora de imagem e editora de vídeo. Sim, a nova geração é multitarefa. Não abusem. E paguem em conformidade.

Como o Pedro, também sei de outras histórias que demonstram que a entrevista é apenas tempo perdido e que, muitas vezes, o entrevistador nem leu com atenção o Cv. Do outro lado da barricada referem as centenas de Cv's que chegam a um ritmo incessante. Os pedidos que não terminam, os jovens que recusam e o enorme potencial perdido por falta de condições para contratar. Fazem-se omeletes sem ovos, principalmente na área da comunicação e dos media. Porquê? A culpa é da conjuntura, dizem. Nesta nova sociedade parece que tudo é mais fácil, que o mundo e o tempo se aproximaram, que não há longe nem distância e que temos o mundo na palma da mão. Podemos trabalhar de formas muito diferentes e recorrendo a fórmulas verdadeiramente inovadoras. Verdade. Contudo, também tem de continuar a existir espaço para aqueles que, não renunciando ao potencial da tecnologia e do empreendedorismo, querem seguir as vias mais tradicionais do trabalho e do emprego. Ser empreendedor não tendo nada por onde começar é muito difícil e todos sabemos isso. Como sabemos que isto não está nem para os de vinte nem para os de quarenta, mesmo que o queiramos ignorar ou mascarar. 

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#OscarsSoFake

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