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Londres aqui tão perto

Londres aqui tão perto

Sabem qual o maior problema da repetição de ataques como o de Londres? A banalização da violência, a ponto de se tornar parte do nosso quotidiano. Não será, nunca (espera-se) desvalorizada, mas o facto de se repetir tende a integrar o nosso dia-a-dia, como se fosse normal viver num contexto que em nunca sabemos quando vai acontecer. E tem acontecido nas mais variadas e inesperadas situações, países diferentes e sempre o mesmo objectivo: vencerem-nos pelo medo.

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Tarde fria e chuvosa de uma Primavera que teima em não arrancar e um filme que não apetece ver mas que a nossa curiosidade quase que obriga: Patriots Day, sobre o ataque na maratona de Boston. Nessa altura pensei que poderia ser eu, que sempre quis correr uma maratona e que acabo sempre por adiar. Depois lembrei-me que poderia mesmo ter sido eu. E tudo muda.

Há dois meses estava em cima da ponte, muito perto do local do atentado. Como sempre, foi tudo muito rápido, sem tempo de resposta. Um carro que sobe o passeio, atropela várias pessoas e acaba por chocar contra a vedação das Casas do Parlamento. A última pessoa a ser atropelada estava a escassos metros do local onde tirei estas fotografias, entre tantas outras em poses e brincadeiras com a minha filha. Dá que pensar. Acima de tudo, faz-nos adoptar aquele postura de "quero ignorar que poderíamos ter sido nós". Porque poderíamos, dada a aleatoriedade destes ataques. Ataques a quê? À liberdade, à cultura, às pessoas comuns que nada têm a ver com as políticas e lobbies que alimentam guerras de décadas, numa lógica de toca-e-foge em que entregam por um lado, para receber do outro, enquanto mostram ao mundo que se preocupam com a defesa da liberdade e dos direitos humanos quando, na verdade, é tudo uma enorme ironia. Ou metáfora.  Paradoxo. Eufemismo?...

Pensamos sempre que são eles quando, na verdade, eles também somos nós. Culpamos os muçulmanos e enfiamo-los todos no mesmo saco, como se fossem uma e a mesma coisa. Há pessoas boas e más independentemente na nacionalidade ou religião. Há pessoas que querem a vida e as que querem a morte. As que se deixam convencer e as que questionam. Sou das questiona. Pergunto-me o que pode levar alguém a encher uma panela de lâminas e pregos, deixar uma mochila junto a desconhecidos e fazê-la rebentar à distância para provocar a morte e deixar pessoas - P E S S O A S - como nós, mutiladas? Atirar deliberadamente um camião contra pessoas que festejam em Nice ou conduzir um automóvel e atropelar outras tantas on random day on a random bridge? Nunca é ao calhas e todos sabemos isso. 

Se é certo que também nós - os ocidentais - que estamos do lado de cá do capitalismo e da religião (supostamente) perversa - olhamos para eles como os que estão do lado de lá de tudo, há algo que não consigo entender: se o Islão condena a violência, o que significa isto? Se o Ocidente deve respeitar os valores do Islão, porque atentam contra os valores ocidentais de liberdade, pluralismo e diversidade? Se os próprios muçulmanos que vivem espalhados pelo mundo condenam estes ataques, então de que falamos, quando falamos de ataque ao modo ocidental de vida?

Falamos de mulheres muçulmanas, vestidas de azul, de mão dadas na ponte de Westminster, unidas em solidariedade pelas vítimas. Condenam o ataque violento da passada Quarta-feira enquanto desafiam o terrorismo porque este terrorismo é também contra estas pessoas que são diariamente olhadas de lado, com medo, na dúvida. Será que têm uma bomba e vão rebentar isto tudo? Cale-se quem nunca se cruzou com um muçulmano em Londres e pensou algo deste género. Como muitos muçulmanos em Londres e no resto do mundo, um ataque aqui é um ataque a estas pessoas que assumem este princípio de que somos todos P E S S O A S. 

O pai vai já que a mãe não está

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To love or not to....

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