olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Ohhhh maaaeee...

Ohhhh maaaeee...

Sabem aqueles dias em que já temos tudo planeado e, de repente, a vida acontece? Quem trabalha na comunicação conhece a sensação de ter tudo programado para publicar, textos revistos, imagens perfeitas e, de repente, acontecem coisas. Nada daquilo faz sentido. E mudamos tudo.

Hoje é um desses dias porque me esqueci da riqueza deste espectáculo de publicidade e música com futebol americano no intervalo, o Super Bowl.

Obviamente que preparar qualquer coisa para publicar no dia seguinte a uma performance de Lady Gaga não só é estúpido, como absurdo, porque há sempre algo a relatar sobre a sua actuação. Feito. Podem ler aqui.

Como normalmente acontece, um dos melhores elementos do Super Bowl chama-se publicidade e, este ano, as marcas não se pouparam à criatividade, olhando para o sentido de oportunidade que o momento apresenta. Trump na mira das diferentes marcas que apelaram ao nosso sentido de humanidade e união, com os anúncios da BudweiserCoca-Cola e AirBnB a destacarem-se pela forma como mostram a importância dos emigrantes nos E.U.A., da diversidade e aceitação, da mesma forma que não abdicaram de chamar à atenção para a causa feminina através da igualdade de género. 

Pela manhã quase senti vontade de conduzir um Audi, tal foi a identificação que o anúncio provoca a quem, como estes criativos, sente que já muito se fez para a igualdade entre géneros, havendo, contudo, muito caminho a percorrer. Uma menina entre meninos, a jogar de acordo com as regras deles e a vencer, provando que, independentemente dessas regras e do mundo contrariado, há espaço para a sua vitória. É claramente uma mensagem actual, por uma empresa que se compromete com esta igualdade, no que respeita aos salários os quais, tantas vezes e em tantas indústrias, para a mesma função e responsabilidade, são diferentes entre homens e mulheres. Como a Audi, acredito no #DriveProgress para um futuro mais promissor para as nossas filhas.

Na vida de uma mãe - qualquer mãe - há sempre um antes e um depois. Na vida de um pai, também. Com as suas devidas e originais diferenças. Em comum a partilha das tarefas, dores de cabeça, o lado doméstico a dominar a relação.

Aparentemente - e só aparentemente - é mais fácil para eles. Não é, e todos sabemos isso. Mas elas têm essa sublime capacidade de reverter a situação para serem as mártires de quem todos dependem e sem as quais nada funciona. Chamam a si boa parte das responsabilidades porque, se não o fazem, são más mães, umas desleixadas que deixam ao marido esse trabalho tão feminino que é o de serem cuidadoras: dos filhos, da casa, do marido, da família e quem mais possa aparecer ou precisar. Por isso, quando se queixam, nem sempre têm razão. Quando têm, porque ele é daqueles que não faz mesmo nada, nem quando a casa está a desmoronar, também lhe cabe, a ela, tomar as medidas necessárias para que tal não aconteça. Em resumo, a culpa é sempre nossa, mesmo quando não é.

A Procter & Gamble criou uma fantasia em torno dos estereótipos, da mulher que limpa a casa e sonha com um homem perfeito, mostrando-nos o marido que, afinal, se dedica a essa tarefa conseguindo, com isso, uma relação mais saudável e, digamos, (mais) excitante... A música não engana... tem o que ela quer, o que ela precisa... e uma figura musculada dedica-se à limpeza. Na verdade, é ela que o vê assim, mesmo quando não vê. Diz o anúncio que temos de amar um homem que limpa a casa. Efectivamente, é da partilha que se faz uma relação. Para o bem e para o mal, incluíndo a limpeza e tudo aquilo que não apetece fazer... A um ou ao outro.

Não há certo ou errado nas relações entre casais porque cada um escolhe o modelo que é certo para si. Da mesma forma que a família mudou, com os teus, os meus e os nossos misturados, também os papeis de género levaram a figura masculina a assumir um papel diferente, que o afasta da sala de estar e o aproxima da cozinha. Em última análise, que o aproxima mais da família e do conceito que cada uma constrói para si. Por muito que queiramos insistir no estereótipo - que também existe - temos de admitir que o homem é hoje mais participativo na gestão doméstica e familiar, chocando os mais conservadores e fazendo aplaudir os liberais modernaços, esses que acham que devem dividir a licença de maternidade com a mulher. Porque não?

Ainda estamos longe do igualitarismo de outros países, mas temos de reconhecer o tanto que avançámos. Ainda que os países do Norte da Europa estejam na primeira liga em termos de igualdade de género, até os países mais conservadores mostram sinais de mudança. No Líbano, por exemplo, a lei que permitia aos violadores escaparem a qualquer tipo de punição, desde que casassem com a vítima, foi abolida. No Afeganistão, Kabul conheceu o primeiro grupo de mulheres que se dedicam ao freestyle em bicicletas. São adolescentes que não abdicam de treinar os seus truques, mesmo quando o país desaprova a actividade. Recentemente, as mulheres no Paquistão passaram a poder ser motoristas numa empresa de transporte de passageiros mais popular do que a Uber.

Por cá não há medidas novas dignas de destaque mas todos os dias a mudança acontece. Quando as crianças gritam ohhh maaaeeee nós podemos responder chama o pai.

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