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Cenas de comer

Cenas de comer

Anunciavam chuva e fez sol. Diziam que a Ophelia passava por cá e, afinal, mal se aproximou. Continuam os dias quentes e nós, indignados, queremos cabeças a rolar, incrédulos, pedimos contas, exaltamos uma revolução que pouco irá resolver. Depois do leite derramado... Não aprendemos e, temo, jamais aprenderemos a governar este país. Os fenómenos naturais já não são assim tão naturais porque temos todos muita responsabilidade naquilo que se passa. Não é apenas incúria, malvadez, terrorismo económico ou falta de noção. É também responsabilidade de cada um de nós, de cada vez que colocamos uma cruz na opção menos má ou, espantem-se, quando nos empanturramos com um bife de vaca. O deixa arder, que é, como quem diz, deixa andar, tem de acabar. Inclusivamente nas nossas opções de vida. Porque cada decisão que tomamos, de fazer ou não fazer alguma coisa, tem impacto na vida de todos. Incluindo os outros. 

São as pequenas acções que resultam em grandes mudanças e, no dia mundial da alimentação, o que têm os incêndios a ver com o que comemos? Tudo. 

Mesmo que nada tenha a ver. Haja estômago...

No Dia Mundial da Alimentação descubro que cerca de 40% dos consumidores portugueses não sabem ler rótulos. Ou seja, não compreendem a informação nutricional nos rótulos dos alimentos. São muitas pessoas. 

Como as compreendo... Eu também não entendo boa parte do que lá está mas aprendi o essencial. Por isso, tantas vezes partilho informação que pode ser útil as outras pessoas. E, garanto, não é uma missão impossível, esta de perceber o que escondem os rótulos dos alimentos...

Há critérios muito simples: 

Composição, ou seja, os ingredientes que compõem aquele alimento. Menos é mais, isto é, quanto mais simples a composição, menor a probabilidade de sermos enganados. Contudo, é preciso ir mais longe. Olhando para a declaração nutricional podemos avaliar a quantidade de açúcar e sal daquele alimento. Reparem, sempre, nos hidratos de carbono, dos quais açúcares, e façam as vossas escolhas porque há produtos equivalentes com quantidades de açúcar muito diferentes. O mesmo princípio se aplica ao sal, especialmente nos enlatados. Uma lata de grão - tão saudável (!) - pode ter quantidades de sal muito variadas. Escolham, sempre, a menor quantidade possível. Pensem também no açúcar adicionado, recordando a base do alimento que estão a comprar. O café, na sua composição, não tem açúcar, pois não? Então observem a informação nutricional de um cappuccino, seja ele de máquina ou de pacote, para misturar com água quente. Não tem como enganar... Todos sabemos o que significa a palavra açúcar, mas nem todos sabemos as derivações que existem e que são, à mesma, açúcar, com a agravante que poderão ser processados quimicamente. Novamente, regra de 3 simples: basta olhar para a informação nutricional... Mais de 20g de açúcar por 100g de produto, seja ele qual for, é um absurdo. Equivale praticamente a 3 pacotes de açúcar e quase a metade da dose diária recomendada. 

Visto assim parece diferente não é?

A gordura é outro dos problemas na alimentação porque, para a maior parte das pessoas, é bastante difícil de identificar. Na verdade, quanto mais natural for a nossa alimentação, melhor. E por natural refiro-me aos alimentos não processados, não embalados e que se comem tal como existem na natureza, mesmo que cozinhados ou temperados.

Dá mais trabalho mas faz-nos melhor. 

É muito difícil, especialmente para quem está todo o dia fora de casa, mas não é impossível.

Demora mais tempo mas compensa. 

Durante toda a vida comi como todos sempre comemos: o leite com chocolate, com a Ucal e o Nesquik à cabeça, o Chocapic e as batatas fritas Lays. Quem nunca?!

Não defendo qualquer tipo de fundamentalismo porque as restrições só nos fazem crescer a água na boca mas proponho uma espécie de regresso às origens, para reaprendermos a comer.  

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Já o escrevi e repito às vezes que forem necessárias: é uma viagem sem retorno porque depois de nos habituarmos a comer bem não temos vontade de voltar a comer aquelas bolachas cheias de gordura com as quais nos deleitávamos, os cereais demasiado doces ou aquelas empadas pré-cozinhadas que sempre soubemos serem tudo menos de galinha. Ou as tortas Dancake, os douradinhos da Iglo, as batatinhas duchess congeladas, os gelados de meio litro dizimados em frente à televisão, a mousse de pacote que não demora nada a preparar e os bolos pré-preparados aos quais juntamos leite e ovos... Tão fácil, isto tudo, não é?... 

Comi tudo isto e repeti vezes sem conta até perceber que estava mal. Depois, entrei numa onda de alimentação saudável que era apenas assim-assim saudável, com muitas incursões por opções mesmo nada saudáveis, convencida de que era apenas aquela vez. Eram muitas vezes. Algo tinha de mudar, mas eu não sabia como. Li muito, procurei informação, compilei e assimilei até que tudo se tornou um processo tão habitual que passou a ser rotina e não excepção: natural.

Natural em termos de opções e do que estava a comer. Este é o caminho e não adianta forçarem-se neste processo. Precisamos ganhar consciência de que a alimentação é mesmo o combustível para o nosso organismo e a informação que as células necessitam para  o metabolismo funcionar. Aquilo que comemos nem sempre é reconhecido pelo organismo e pode transformar-se numa energia de melhor ou pior qualidade, com impacto no dia-a-dia.

Há anos li um estudo que comparava o rendimento atlético de gémeos. Um tomava um pequeno almoço baseado em proteína, hidratos e vitaminas, ou outro baseado em açúcares e gordura. Preciso dizer-vos qual deles tinha melhor resultados?  

Não precisamos deixar de comer chocolate, gordura, açúcar ou sal. Precisamos aprender a reconhecer as suas formas e fontes. De uma forma simples, o chocolate é feito a partir do cacau, ao qual se adiciona açúcar. O cacau, em si, não é doce mas é um potente energético e regulador do organismo, por isso, sim, podemos comer cacau.

Já o chocolate... depende da percentagem de cacau e açúcar...

Ao que já consegui apurar existem 61 formas diferentes para designar o açúcar, como a sucrose, a dextrose ou a maltose, apenas para referir algumas. O açúcar não é um inimigo mas tem de ser consumido com cautela. Como o colesterol, também há bom açúcar (aquele que está na fruta, nos vegetais ou cereais integrais e que, mesmo tendo de ser evitado em processos de emagrecimento não faz mal à saúde) e o mau açúcar, aquele que é adicionado sob a forma de carboidratos simples e refinados. Complexo? Nada. Keep it simple e estarão a comer bem. Onde está esse açúcar mau? Nos sumos de fruta, iogurtes, barrigas e muitos cereais, mesmo em algumas variedades de granola.

Corrijam-me se estiver errada nesta tentativa de simplificar as coisas:  o açúcar é composto por duas moléculas (glicose e frutose) processadas pelo fígado no processo de divisão molecular. Estas seguem para a corrente sanguínea para, juntamente com outros nutrientes, contribuir para as diferentes funções no nosso metabolismo. Muitas células processam bem a glicose e, por isso, é tão agradável a sensação depois de comermos pão ou batatas, porque é muito fácil para o nosso organismo processar este componente. É aliás, a glicose, a fonte de energia no nosso organismo. Contudo, quando damos ao fígado açúcar refinado, este é processado mais rapidamente porque é composto principalmente por frutose (ou seja, é vazio em energia e recheado em calorias), transformando-se em gordura! O fígado é o nosso órgão regulador e depurador. Se estiver em sobrecarga, então o pâncreas terá de actuar, tentando equilibrar o açúcar, produzindo insulina e fazendo com que o corpo acumule gordura. Neste processo há uma (uma outra...) hormona que é bloqueada (leptina) e que é responsável por nos controlar a sensação de fome. Comemos mais, normalmente alimentos açucarados, e o ciclo não termina.

Nada do que escrevo pretende servir para fazer dieta, ou seja, perder peso. Deixei de me preocupar com o peso e a gordura acumulada quando alterei a minha alimentação. Os químicos (conservantes, aditivos, intensificadores de sabor e açúcar adicionado) inflamam o organismo que, para além dos agressores naturais (meio ambiente, bactérias, etc) passa a ter de lidar, também, com esses elementos nocivos para o seu funcionamento. Quanto mais ingerimos alimentos processados, maior a dificuldade do nosso organismo em processar o que lhe enviamos até entrar em overload. Começam a manifestar-se pequenos sintomas, como inchaço abdominal, dores de cabeça sem razão aparente, pequenas alergias, cansaço, halitose, dificuldades digestivas... e continua até que se desenvolva, por exemplo, uma doença metabólica como a diabetes. Nem sempre tal acontece e há quem ande uma vida inteira impecável, sem se preocupar com nenhuma destas coisas. Mas também há os que engordam e não emagrecem de forma alguma, a não ser que passem fome. Tal acontece porque armazenamos o que não conseguimos queimar. E não queimamos por uma (ou todas juntas) destas razões: ou o organismo tem uma deficiência metabólica ou não nos mexemos. Ou, também, porque a acumulação de elementos nocivos (gordura e açúcar) é tal que o organismo já não a consegue eliminar.

Informem-se. Procurem saber. Não se deixem enganar por uma indústria alimentar que procura alimentar-nos pela facilidade, tornando-nos dependentes da aparência e sabor apetitoso que muitos alimentos pré-preparados têm. Mesmo os que são light, com menos gordura, para celíacos, sem açúcar ou qualquer outra designação de marketing. Perguntem ao celíaco o que não deve comer e vão perceber. Ou ao diabético. Ou a qualquer pessoa com qualquer tipo de patologia associada à alimentação...

Nada tenho contra o açúcar presente naturalmente nos alimentos. Pelo contrário! Mas o açúcar, aquele que se produz artificialmente, que dá sabor, textura e cor, que acelera a fermentação (o pão e os bolos crescem mais rapidamente) ou que equilibra a acidez (molho de tomate, por exemplo), esse não...

Juntemos ao processo uma selecção de fruta e vegetais da época, mesmo que as alterações climáticas nos dêem castanhas (quase) piladas em Outubro. Numa altura em que (quase) tudo se consome congelado, tentarmos escolher os legumes e frutos é obra mas não é impossível porque, para mim, comer bem (saudável) mudou bastante a minha vida e pode mudar a vossa. Fujam dos congelados ou das embalagens com listas de ingredientes com nomes esquisitos porque raramente são comida de verdade. Basta seguirem estes princípios: keep it simple, keep it local, keep it natural... que é como quem diz, comam o que a terra, perto de vocês, tem para dar...

A key que faltava: fogos.pt

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