olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Entre a praia e a cidade

Entre a praia e a cidade

Há uma distância maior do que a dos quilómetros que as separam.

Fui de férias e voltei, verificando que pouco ou nada mudou: o país ardeu (já estava em fogo lento e parece-me, tão depressa não estará em rescaldo), a corrida à casa branca continua ao rubro e na CGD, os amigos de sempre. Nada de novo, portanto. No entanto, nunca regresso igual. De ano para ano as mudanças são visíveis, tornando-me cada vez mais incompatível com a exiguidade do espaço e das mentalidades, a inoperância de uns e outros, os conluios e favores que nos fizeram chegar aqui, a um país que arde mais num mês do que a Europa num ano inteiro.

Cheguei há poucos dias. O espelho da casa de banho não mente. A pele está bronzeada mas as sobrancelhas estão enormes. As unhas das mãos estão mais compridas do que é habitual e as dos pés, não tendo falhas, precisam renovar a pintura. Preciso? Precisamos? Manicure, pedicura, sobrancelhas. A tríade habitual. Tempo e paciência para isso? Não sei onde ficou. Começo pelo óbvio que ocupa menos tempo: as sobrancelhas para uma nova moldura do rosto.

Tenho para mim que há uma vaidade exacerbada na Lisboa dos cabelos ombré, californianos ou com sunlights. Já me disseram que estou mais loura, com aquele ar de quem insinua que o pintei. Chama-se sol e sal. Resulta numa espécie de californianas que se vendem no cabeleireiro. Verdadeiras. Para quê pintar se não temos brancos a ocultar?

Parece-me que muitas vezes generalizo um certo pedantismo para o país que, sendo vaidoso por natureza, o demonstra de formas muito diferentes. Há uma certa pressão para uniformizar estilos e comportamentos, roupas, cabelos e unhas, separando ambientes como se a vida não fosse resultado de uma saudável mistura de contextos. À praia o que é da praia. Os calções que na praia fazem sentido parecem ridículos numa rua de Lisboa, mesmo quando saímos pela manhã apenas para comprar pão. Como as sobrancelhas que na praia eram apenas rebeldes e densas. Aqui precisam de ser domadas e desbastadas para corresponderem ao olhar das revistas. As que também lemos deitados na praia, com as sobrancelhas que temos, escondidas pelos óculos de sol tamanho XXL. Não as que transformamos para parecermos melhor. Nada contra arranjar, cuidar, melhorar a aparência. Nada mesmo, desde que seja para nos sentirmos melhor, para olharmos ao espelho e encontrarmos o eu de que mais gostamos. Tudo contra olharmos ao espelho para melhorar o que os outros nos dizem que deve ser de forma diferente. Só isso.

Story of the week: amizade, acima de tudo

Story of the week: amizade, acima de tudo

Complicar o que é simples...

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