olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Dilemas da vida moderna...

Dilemas da vida moderna...

...Absolutamente inúteis e, por isso, divertidos. Apenas isso porque, de relevantes, não têm nada.

Dizem que o mundo mudou e que devemos mudar com ele. Acredito que sim, apenas em relação ao lado positivo deste suposto novo mundo. Reparem que digo novo mundo e não mundo novo porque este mundo está velho, gasto e maltratado a todos os níveis: ambientais, sociais, políticos, económicos...

Não sei se vos acontece acordarem cansados. Do mundo e do contexto em que vivemos, rápido, acelerado, com implicações para o que somos e queremos parecer, no qual sobra muito pouco da sua essência. Não creio numa sociedade rígida e intransigente, mas uma sociedade que aceita quebrar todos os seus modelos e paradigmas assente na valorização do eu não pode estar no bom caminho. Liberdade, desejo e satisfação pessoal. Acreditamos num Homem emancipado religiosa e ideologicamente, capaz de conduzir a sua história. A verdade não é essa. Somos manipulados por um contexto que mistura uma ideologia com o que ainda resta da crença religiosa, dependente do mercado, sobretudo os mercados, moldando a noção de família e, por inerência, os valores que determinam as nossas atitudes e comportamentos. Somos o que parecemos e parecemos aquilo que gostaríamos de ser. Na maior parte das vezes, não somos. Parecemos através do que possuímos e do que mostramos possuir, pelo que a selecção do que supostamente nos define se assume como a derradeira determinação.

Por isso, entrar nas lojas e fazer escolhas acaba por ser determinante para parecermos o que somos. Isso. Mostrar o que de facto somos e não o que devemos ou queremos parecer. Complicado? Nada.

Olhei, ontem, para a minha fotografia no cartão do cidadão. Em seguida, para a da carta de condução. Foi interessante verificar que uma mostra quem sou e outra aquilo que esperam que seja. Separam-nas três anos e a capacidade para assumir que, o que sou, depende mais de mim do que do que a pressão que possam (tentar) exercer sobre quem (verdadeiramente) sou. Vê-se na roupa. Mostra-se no sorriso e na liberdade que um rosto tem e que o outro hesita em mostrar.

Qual é, portanto, o dilema que queria abordar? Tão superficial e banal quanto o da escolha de um biquini ou fato de banho. Porque, na sua genialidade, representam exactamente este dilema da vida moderna que é a diferença entre o que somos e quem a sociedade espera que sejamos.

De uma pessoa como eu esperam, muitas pessoas, um apurado sentido de responsabilidade, maturidade, saber estar, sentido de realização social, pessoal, familiar e profissional, entre outros predicados igualmente maduros e responsáveis. Supostamente tudo isso se traduz na roupa que vestimos e comportamentos que assumimos, num estilo sóbrio e elegante, com um toque romântico e alguns (poucos) apontamentos sexy. 

Sobre a roupa - biquinis e fatos de banho em particular - parece-me que será mais o corpo e menos a idade a determinar as escolhas, juntamente com as proporções, tendências da moda e a capacidade para perceber o que é demasiado jovem - ou infantil - para uma mulher assim. E se a mulher assim* tiver um espírito mais jovem do que aquele que a sociedade lhe quer impor pela idade? Se for uma pessoa activa, com alma de desportista, com pouca paciência para ficar tardes inteiras numa espreguiçadeira à beira-mar, que goste de mergulhar, fazer mortais na água e carreirinhas nas ondas, brincar com uma prancha de skim board à beira mar e disputar um título com as raquetes de praia?

Há biquinis ou fatos de banho para ela, com estilo sem que tenha de estar permanentemente a ajeitar as alças ou a lateral ou a parte de trás?... Há. Mas procurar leva qualquer um à exaustão.

Especialmente se queremos conforto, qualidade e estilo. Há mais rendas, torcidos e babados que se possa imaginar. Há mais partes de cima desproporcionais em relação à parte de baixo do que eu pensei. Há secções inteiras pensadas para mulheres maduras que parecem fatos-de-banho criados para esconder o que durante meses andaram a acumular. Há outras dedicadas a quem não tem pudor em tudo mostrar. Cheguei a pensar que seria eu com o corpo ou a exigência disforme. Não sou. Há toda uma indústria criada para nos vender modelos para cada ocasião quando, na verdade, a ocasião, para mim, é sempre a mesma: estar na praia e não estar parada.

Consegui, ontem, encontrar o que procurei durante meses, com um preço aceitável. Porque como para tantas outras peças, também me recuso a gastar rios de dinheiro numa peça cuja volatilidade não justifica a maior parte do valor que nos pedem.

Não teria de ser mas este também faz parte dos dilemas da vida moderna. Vou criar a minha linha de biquinis e fatos de banho para mulheres activas: sporty posh bikini.

Há interessadas ou vou fazê-los apenas para mim?

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* quarentona, realizada e reconhecida profissionalmente, com família e que escreve artigos de opinião no Urbanista

 

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