olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Podemos mudar?

Podemos mudar?

Um pacote de batatas fritas. O prazer e a culpa dissimulados no volume de trabalho que se acumulou. As mensagens no correio em catadupa e a folha branca de um novo documento por preencher. Os colegas que passam e perguntam se estamos melhores. Foram dois dias, mas pareceu uma semana, afirmou em surdina uma delas. O mundo visto da janela do quarto, o corpo enrolado nas almofadas do sofá da sala. Uma pequena maleita é tanto o pior quanto o melhor que nos pode acontecer, obrigando à interrupção quando menos esperamos. Podemos mudar?

Olham para mim. Para o pacote de batatas fritas. Pergunto “queres?”, convencida de que deveria partilhar. “Só comes porcarias, não admira que…” Esperei que acabasse a frase, mas foi subitamente interrompida por outra pessoa que me trazia um relatório. Quando olhei já estava sentada numa secretária asséptica e arrumada, organizando a sua prateleira de sumos detox e snacks intragáveis, abaixo das 150 calorias. Vou dizer-lhe que as batatas são biológicas. Podemos mudar?

Procurei concentrar-me. Olhei à volta e tive a sensação de que seriam todos mais produtivos, eficientes, eficazes, bonitos e magros do que eu. Esperei que fosse apenas a síndrome do patinho feio a atacar-me no regresso após dois dias na cama, sentindo-me ainda a recuperar das olheiras e do nariz vermelho com a pele a escamar. Podemos mudar?

O telefone tocou. Do outro lado, uma convocatória de última hora para uma reunião na direcção geral, no edifício do outro lado do jardim. Hoje? Pensei. Agora? Perguntei. Abri a última gaveta da secretária. Tinha os sapatos pretos. Os acessórios. Não. Eu não merecia. Tinha optado por me apresentar ao estilo “estou-a-recuperar-de-uma-valente-constipação” e usava skinny jeans com uma t-shirt oversized, aquelas que parecem ter sido inventadas para dias assim. Saí. Não há nada que uns sapatos de salto pretos e um colar não resolvam. Atravessar o jardim entre os edifícios é retemperador. Subi à direcção. Faltavam dois colegas. Um estava no elevador. A outra, vi-a a sair do WC. Saco da Zara numa mão, novo conjunto, sapatos e mala a condizer. Podemos mudar?

Na reunião, business as usual. Na passada semana, fizemos uma sessão de brainstorming para tomarmos decisões em relação a uma das marcas que gerimos e que, por circunstâncias várias, estagnou. Fiquei responsável por efectuar o levantamento das causas e numa acção proactiva, delineei ideias para uma estratégia. Voltei hoje e não deveria espantar-me por uma ideia minha estar a ser apresentada por outra pessoa, como se fosse sua. Podemos mudar? 

Pactuamos todos com este estado das coisas, do chefe que se apropria de ideias, do colega que faz assédio moral sem consequências. Convivemos com pessoas que insistem em deitar-nos abaixo porque esse bullying aparentemente inconsequente lhes dá um especial prazer. Não sabemos como escapar ao director que nos olha para o decote como se o puxasse para baixo com os olhos, enquanto se insinua. Talvez não saiba que há muito de especial no assédio sexual e que muitas vezes o escondemos não por vergonha, mas por inabilidade para lidar com as consequências de um grito alto ou um pontapé no sítio e momento certo. Depois, exigem-nos um pequeno esforço para sermos "bonitas" ou um "sorriso" que nos tornaria mais simpáticas. O paradoxo em cada instante, sermos atraentes e, portanto, disponíveis para podermos receber os tais “elogios", os quais, na maior parte do tempo, são quase perseguições. Subentende-se que, por não sermos desagradáveis, estamos a retribuir. Não estamos. Não queremos é passar parte do tempo a mandar-vos àquele sítio. Porque isso é deselegante. E cansa. 

Infelizmente, anossa vida não é um filme onde tudo acaba bem e os maus são punidos. 

Admiro as pessoas que se reinventam por força do desemprego ou porque simplesmente lhes apeteceu. Desde muito cedo que somos orientados para nos adequarmos. Na escola pedem-nos para falar baixo. Pedir licença e esperar a nossa vez. Também nos pedem para fazermos como os outros, para corresponder ao padrão. Mia Couto diz que "uns nasceram simplesmente para serem outros". Acredito que nos tornamos uma sociedade demasiado igual sem respeito pelo direito à diferença, mesmo aquela que se enquadra no padrão da normalidade. Mas que arrisca uma mecha de cabelo fora do sítio. Valorizam-se cargos enquanto se desvalorizam funções. 

Bem-vindos ao formato.

Bastam uns lábios vermelhos e uns All-Star nos pés para escapar a esse formato. Um batom vermelho pode ser um boost ao nosso dia-a-dia, mesmo quando não usamos maquilhagem. Aquele little black dress que adiciona cor e faz o mundo sorrir. Vivemos numa sociedade cheia de dogmas e preconceitos, alguns dos quais relacionados com a nossa aparência, sobretudo com o que é adequado para "a idade”. A aceitação social pode ser importante e valida-nos enquanto pessoas. Todos procuramos essa aceitação mas nunca se é demasiado magra. Subjugamo-nos às regras da indústria da moda, que criticamos enquanto encolhemos a barriga para fechar as calças. A Barbie nunca foi perfeita. Nunca foi, simplesmente, uma boneca. É apenas uma metáfora para as questões do corpo e do envelhecimento da mulher, do seu papel na sociedade e, principalmente, nas empresas.  

Ficámos reféns da nossa história de submissão e super poderes, admitindo um escrutínio constante do que somos e das nossas decisões. Não somos iguais mas teremos de o ser na tomada de decisão. Nunca seremos (demasiado) perfeitas. Não faltam mães que se desdobram entre a culpa de estar e a de não estar. Com excepção das mães que não entendem o significado dessa palavra e das que hiperbolizam o conceito, todas as outras estão a fazer o melhor que podem. O problema é uma sociedade patriarcal que aceitou a nossa emancipação e valoriza a igualdade desde que isso não se aplique ao dia-a-dia. O problema, portanto, é que a sociedade vai dizendo que sim para ficar bem na fotografia, obrigando-nos a lutar diariamente, nas coisas mais pequenas, por essa paridade. Temos agendas demasiado preenchidas com impacto excessivo nos nossos níveis de energia e resistência intelectual. Sentimo-nos culpadas e culpadas com o peso dessa mesma culpa. Não reflectimos sobre o impacto que esta pressa tem na nossa saúde e bem-estar. Trabalhamos para cumprir objectivos que outros nos impõem e com os quais não nos identificamos. O resultado é desmotivação e stress que acumulamos enquanto nos alimentamos mal. Porque estamos cansados evitamos fazer exercício. O vício instala-se. O corpo cede. Um círculo vicioso do qual dificilmente conseguimos sair e que se resume àquelas coisas que não podemos mudar e com as quais não sabemos viver. Podemos mudar?

Acima de tudo, radio is beautiful. Sabem a que me refiro?

Dilemas da vida moderna...

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