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Basileia deixa saudades. Missing Basel ♡

Com sol e dias bonitos, como é possível ter saudades de Basileia?

É possível. 

Porque Basileia é das cidades mais acolhedoras e tranquilas que conheci nos últimos tempos.

Para quem, como eu, gosta da agitação das grandes cidades, do turbilhão de coisas e pessoas que caracterizam algumas capitais, Basileia pode ser uma desilusão. Contudo, se pensarmos que aqui encontramos tudo o que há nessas cidades com a serenidade que a distingue, então sim, este é um daqueles raros locais que deixa saudades.

Lá fora está sol e a temperatura convida a usar sandálias. Quando visitei Basileia o calendário definia Primavera, embora esta se apresentasse com ares de Inverno. Um Inverno suave, contudo, a apelar aos casacos quentes. Conheci duas cidades diferentes: a Basileia fria e cinzenta, chuvosa e a apelar a um chocolate quente e outra, com dias iguais ao de hoje, solarenga, demasiado quente para a data, impondo-nos tardes à beira rio. Gostei das duas porque em ambas senti a mesma harmonia que me tranquilizava, mesmo quando pedia agitação (que também tem).

Para muitas pessoas Basileia resume-se em três palavras: design, design e design. Concordo, mas acho que Basileia é daqueles locais quase perfeitos para se viver, encaixada entre países e culturas diferentes, perto de tudo e, no entanto, aparentemente distante, com um ritmo próprio.

Num dos dias, com um sol e um céu em tudo iguais aos de Lisboa, havia pessoas junto ao rio aproveitando o bom tempo. Muitas pessoas que conversavam, namoravam, divertiam-se. Encontrei-os de todas as idades e estilos, à beira de um Reno temperamental que foge para o mar do Norte. Em oposição, com frio e chuva, os cafés e museus encheram-se de pessoas que não se limitam pelos rigores do Inverno.

Aprecio este aparente fazer nada que significa mais do que parece. Apresenta-se como uma valorização do eu e do outro, da comunhão do tempo e do espaço que significa uma relação. Não acho os suíços - estes suíços - particularmente simpáticos ou afáveis, mas sinto-os felizes, de bem com a vida, mesmo que sem o samba brasileiro ou as mornas africanas. São mais individualistas do que estamos habituados o que, para mim, significa menos intrometidos. São organizados e regrados sem a quadrícula alemã que nada permite fora do limite. As ruas são limpas e direitas, os cães (muitos cães, por sinal) andam pela trela e cumprem o padrão civilizado da higiene que se impõe numa cidade. 

Do outro lado da cidade - muito grande e, no entanto, suficientemente pequena para se andar a pé -, encontrei várias crianças da idade da minha filha caminharem sozinhas na rua, mochila às costas, como quem acabou de sair da escola. Outras circulavam de bicicleta juntamente com os adultos e os automóveis. Olhei para o relógio. Às quatro e meia da tarde país e avós, empregadas domésticas e outros predicados que desconheço amontoam-se no hall de entrada da escola. Cá fora não circulam carros, nem os conseguimos estacionar porque quem está lá dentro tem apenas uma prioridade: ir buscar a criança à escola. Concentrei-me e ignorei o dia-a-dia da escola em Lisboa. Cruzei-me com outras meninas. Duas delas, de mão dada, muito cheias de si, caminhando certamente a caminho de casa. Mochilas às costas e a inocência das crianças da escola primária. Pensei que poderia ser, também assim, em Lisboa. O nosso proteccionismo excessivo mima crianças que poderiam percorrer uma rua a pé, num bairro pacato do centro de Lisboa mas não o fazem porque "pode acontecer alguma coisa". Alguma coisa acontece em Paris ou em Bruxelas e em metrópoles infinitas como Nova Iorque. Aqui acontece um par de estalos ou um roubo por esticão. Eu sei. Também tenho medo. E sei o que faria de não tivesse.

Seis da tarde, hora de ponta. Eléctricos cruzam-se com bicicletas, os carros abrandam e os peões avançam. Para além do metal nos carris e da campainha dos eléctricos, não há barulho. Há movimento e não há encontrões. Há pressa e ninguém corre. Sinto-me em casa perante a descontração das mulheres de saia, sentadas na bicicleta e não estou em Amsterdão. Não entendo a cultura da "minha lata ser melhor do que a tua", sentados a 20 km/hora numa auto estrada, ou parados numa fila que termina lá longe, num semáforo vermelho. Em Basileia, alguns bairros nos subúrbios já estão em França ou na Alemanha porque a sua área metropolitana se estende para estes países e, no entanto, em redor do centro há bairro de casas baixas, ruas com edifícios onde vivem pessoas. Lisboa está lentamente a trazer as pessoas de volta para viverem no centro. Falta o passo seguinte, como lá, em que muitas pessoas caminham, entram e saem dos eléctricos e pedalam nas suas bicicletas.

Para um cidade com mau tempo, chuva e muita neve, vi mais esplanadas em 300 metros do que em toda a cidade de Lisboa - se excluirmos, naturalmente, a rua pedonal transformada em esplanada que é hoje, a Rua Augusta. As pessoas estão bem dispostas e reúnem-se ao fim do dia com uma cerveja para conversar. Jantam ao ar livre no exacto momento em que nós, Lisboetas, estamos a sair do emprego ou temos a sorte de chegar a casa. Parece-me que, por lá o trabalho acaba mais cedo e sobra tempo para aquilo que falta a muitos de nós - viver. 

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Do amor e do elitismo cultural. About love and wicked presumptions

Se o problema fossem os saltos... From heels to flats in style....

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