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Sexo vende. Mas nem por sombras isso é bom

Sexo vende. Mas nem por sombras isso é bom

Não li o livro. Talvez devesse. Tenho dúvidas que vá ver o filme e acabei de descobrir que, afinal, aquilo - as cinquenta sombras de Grey - afinal não é sobre sexo.

Estava no carro, a rádio ligada, pouco concentrada na estrada ou na rádio. Conduzia mecanicamente, a rota de todos os dias, igual a si mesma, quando uma voz, mesmo sem me falar ao ouvido, mencionou o filme, associando-o à violência sobre as mulheres.

Fenómenos como este - o das cinquenta sombras de Grey - são exactamente o tipo de coisa que me escapa e à qual dou pouca atenção. Mas fiquei a pensar nisso e, porque não ouvi o que haviam anunciado, sentei-me, liguei o computador e pesquisei. Não faltam referências ao livro e, agora, ao filme. Mas, também, a esta questão da violência.

Imaginava que este seria um livro sobre sexo. Sexo é bom e eu gosto. Todos gostamos. 

Um dos problemas da sociedade moderna é exactamente a falta de sexo. A abstinência forçada. São tempos de profunda solidão. O cliché, já gasto, de que estamos todos ligados, mas isolados. É verdade. Trocamos muitas mensagens. Dizemos muitas coisas, mas conversamos pouco. Deixámos de ter espaço para nos sentarmos, cara-a-cara, com o tempo que uma conversa merece, para trocar ideias. Ou sentamos, mas com hora marcada e saída prevista. 

Já o sexo, em muitos casais é casual, acontece de quando em vez. Por falta de tempo. Ou sono. Ou cansaço. O que equivale, mais ou menos, a dizer que falta a vontade. Para os que não estão numa relação, o sexo só aparentemente, é casual. Pode acontecer mais vezes, quantas vezes quisermos. Mas não aquece os pés a ninguém e deixa sempre a cama vazia. Uma cama vazia é um coração vazio. E um coração vazio está sozinho. É dos tais que fala. Mas não conversa. 

A crise, não é só económica. É dos afectos. Do erotismo e da banalização do sexo, moeda de troca entre os que se deixam consumir pelo desejo e os que se deixam consumir pela solidão. Hoje, parece tão fácil substituir a nossa solidão, através da internet. Ou não.

Por isto, não estranhei o sucesso das sombras e imaginei-as como as que nos perseguem, preenchendo muitos corações solitários, enchendo-os de sombras, oferecendo o conforto que só a nossa imaginação consegue garantir.

Afinal, o livro não faz apenas uma abordagem erótica. 

Afinal, a narrativa é dominada pelo abuso emocional e sexual. 

O que também explica o seu sucesso. O voyeurismo faz parte de nós.

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Sobre o livro, a descrição é sempre a mesma:

“Anastasia Steele é uma estudante de literatura jovem e inexperiente. Christian Grey é o temido e carismático presidente de uma poderosa corporação internacional. O destino levará Anastasia a entrevistá-lo. No ambiente sofisticado e luxuoso de um arranha-céus, ela descobre-se estranhamente atraída por aquele homem enigmático, cuja beleza corta a respiração. Voltarão a encontrar-se dias mais tarde, por acaso ou talvez não. O implacável homem de negócios revela-se incapaz de resistir ao discreto charme da estudante. Ele quer desesperadamente possuí-la. Mas apenas se ela aceitar os bizarros termos que ele propõe... Anastasia hesita. Todo aquele poder a assusta - os aviões privados, os carros topo de gama, os guarda-costas... Mas teme ainda mais as peculiares inclinações de Grey, as suas exigências, a obsessão pelo controlo… E uma voracidade sexual que parece não conhecer quaisquer limites. Dividida entre os negros segredos que ele esconde e o seu próprio e irreprimível desejo, Anastasia vacila. Estará pronta para ceder? Para entrar finalmente no Quarto Vermelho da Dor? As Cinquenta Sombras de Grey é o primeiro volume da trilogia de E. L. James que é já o maior fenómeno literário do ano em todos os países onde foi publicado”.

O The New York Times chamou à atenção para um aspecto curioso...

(o livro) “apresentou às mulheres habituadas a ler ficção comercial e sem novidade um novo estilo de romance erótico, explícito e de uma ardência ofegante. Nos subúrbios de Nova Iorque, Denver e Minneapolis, as mulheres que devoraram a trilogia afirmam sentir os efeitos benéficos em casa. Segundo Lyss Stern, a fundadora do site DivaMoms.com e uma das primeiras fãs da série, o livro está a reavivar a chama de muitos casamentos. ‘Acho que ler o livro nos faz sentir sexy outra vez’.”

O que nos leva de volta ao início: afinal, estamos sós e precisamos de um livro para reaprender a viver uma vida sexual mais activa e estimulante. 

O erótico é sempre mais interessante do que a pornografia porque insinua, não revela. Mais sexy, porque desperta a imaginação. E, sobre as sombras, parece-me bem que deixa a pornografia na sombra, não expondo de forma concreta. Uma abordagem que choca sem agredir, atrevida sem ser ordinária. Que não envergonha ninguém nos transportes públicos ou quando o livro está pousado na mesa da sala de estar. Foi bem pensado para esta nossa sociedade conservadora, moralista e puritana, demasiado contida para admitir o prazer sexual. Mas também para as donas de casa desesperadas por atenção, uma leitura fácil, que lhes desperta a imaginação e as faz voltar a sentir coisas que se perderam algures entre o início da relação e o dia que compraram o primeiro volume da trilogia.

E, com isto, saí de casa, entrei numa livraria. Não dispenso (ainda) o cheiro do papel. Queria percorrer as páginas desta história. Concluo, rapidamente, que está longe dos clássicos da literatura erótica, como O Amante de Lady Chaterleyde D.H. Lawrence, O Amante, de Marguerite Duras ou o libertinismo de João Ubaldo Ribeiro no pecado e luxúria da Casa dos Budas Ditosos.

Mas que pode ser interpretado como uma abordagem sadomasoquista, uma narrativa do abuso de um sobre o outro. E, quanto a isso, não há argumento a contrapor. Uma história sobre um que se deixa dominar, seja por medo de o perder ou, simples pavor do domínio físico do outro, perpetua estigmas e preconceitos que, há muito, deveriam ter sido ultrapassados. 

Enquanto estive na livraria li várias páginas, excertos da história que me fizeram pensar haver um fundo de verdade nos estudos norte-americanos que dizem que as Cinquenta Sombras de Grey reflectem a violência conjugal, perpetuando esta situação na cultura popular contemporânea. Em 2013 Amy E. Bonomi, Lauren E. Altenburger e Nicole L. Walton publicaram um artigo noJournal of Women's Health afirmando que a banalização dos abusos sexuais ou psicológicos nas relações pela sua afirmação em séries de televisão, romances, filmes ou através da música criam o contexto que suporta essa mesma violência. Embora o livro seja sobre uma relação romântica e erótica, os traços de violência conjugal estão presentes, prejudicando a figura feminina da narrativa. O método de investigação é qualitativo e interpretativo, mostrando que o abuso emocional está presente em quase toda a interacção entre Grey e Anastasia, incluindo uma certa perseguição, intimidação (verbal e física) e isolamento, afastando-a da interacção social. No que à relação sexual diz respeito, há consenso, embora algumas vezes este resulte mais do enebriamento do que do amor, uma vez que Grey recorre ao álcool e intimidação para domar a sua parceira. No livro, as reações de Anastacia, descrevem as autoras, equivalem às das mulheres abusadas, com reacções físicas e elevados níveis de stress que a conduzem a comportamentos enraizadamente mecanizados, para corresponder às expectativas do seu parceiro.

Sexo vende (ponto). Livros. Direitos para o cinema. Música. Bilhetes…

No JN o destaque da notícia é claro:

Em dois meses, mais de 34 mil pessoas compraram bilhetes para os primeiros quatro dias de exibição do filme “As cinquenta sombras de Grey”. A estreia é na próxima quinta-feira e nunca se viu nada igual.
— JN

De tudo o que já vi, há ali um certo síndrome de Patinho Feio à la O Diabo Veste Prada (Devil Wears Prada), alguma inspiração num certo this corners like it’s on rails, a par com o desprendimento emocional de Um Sonho de Mulher(Pretty Woman). Sem esquecer o muito bem placed product placement. Just saying…

Enquanto algumas (muitas) mulheres fazem fila para comprar bilhetes, exasperando pelo dia em que vão deleitar-se com os abdominais de Mr. Grey no grande ecrã, associações de defesa das mulheres na luta contra a violência doméstica apelam ao boicote. A campanha #50dollarsnot50shades angaria donativos para estas associações e junta vozes, no Facebook e no Twitter contra relações abusivas. Que em boa, verdade, são do que mais há, por vezes sem o abusado ter disso noção. Elas, portanto.

E porque a maior parte dos críticos aponta o dedo ao puritanismo e excessiva falta de arrojo do filme, voltamos, novamente, ao início desta conversa. Sexo vende. Mas no filme, falta sexo. Falta enunciação. O carisma das descrições tão reais do livro. Na verdade, queremos ver. Somos voyeurs.

Dizem os críticos norte-americanos que não há cenas de sexo excêntrico, que não se mostram os genitais, ninguém transpira e nem se dão ao trabalho de fingir perderem o controlo. Haverá um orgasmo? Dizem que se vêem algemas, um chicote e pouco mais. O nosso imaginário sadomaso sairá frustrado.

No fim, talvez a parte mais interessante disto tudo seja o facto de parte do mobiliário ser da marca Portuguesa Boca do Lobo.

Ou a comédia musical que está para estrear, inspirada na trilogia de E. L. James. 50 Sombras - Uma Comédia Musical é um espectáculo que está em cena em Nova Iorque e a ser prepararado pela UAU para estrear em Portugal no dia 16 de Abril (Tivoli BBVA em Lisboa e Coliseu do Porto). As reacções, no Elektra Theatre, são unanimesem relação ao registo cómico desta paródia que ficciona a reacção de três mulheres - as mesmas que, pelo mundo fora veneram a história - à leitura dos livros num clube de leitura. A candura das suas vidas caseiras e maternais é investida de uma lufada de ar fresco com este aparente arrojo de leitura de um certo "mommy porn" que nos mostra, a nós, sentados na plateia, as reacções de três mulheres, muito diferentes, às cenas tórridas do livro e os seus mais inconfessados desejos.

Dizem que é "the perfect plan for a girls night out". E este sim, vai conquistar-me...

sunday is alright for cooking

the whining wine