olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

O casamento

Photo by Scott Webb (http://scottwebb.me)

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Foi quando recebi o convite de casamento que, finalmente, percebi que tudo tinha mudado.

A estória não é sobre casamentos, relacionamentos, dor de corno, ciúme ou inveja. Embora com ciúme e inveja (da boa - se é que existe) a estória não é sobre o que imaginam.

Foi quando li o convite que tudo se tornou tão duro, de tão real que é. Enquanto lia, pensei imediatamente na roupa. Acho que todas fazemos isso, especialmente as que têm armários cheios: pensar na roupa que podemos usar numa ocasião que, de repente, passa a fazer parte do nosso calendário. No dia seguinte, água a correr na cozinha, legumes caídos para se transformarem numa refeição supostamente saudável, quando ele me recorda o tal casamento. O típico uhm-uhm murmurado, para voltar a visualizar o roupeiro, aquela porta que se abre em dias de festa, e fazer combinações mentais. Foi quando pensei, como sempre fiz que, se me faltar a clutch perfeita, o detalhe de festa no qual teimo sempre em não investir, te peço ajuda. Passo em tua casa, já no limite da hora para incluir o apontamento que falta. Mas, desta vez, isso não vai acontecer. Porque não vais estar. Cá. Aqui pertinho como sempre estiveste, para podermos fazer aquelas coisas de miúdas, trocar roupas ou, simplesmente, fazer um closet cleaning. Não vais estar porque vais estar lá. Lá. E eu aqui. E nós aqui, sem solução. Tu vais porque tens soluções a mais. Como tantos outros foram por terem soluções a menos. E isso, é de uma injustiça tal que me revolta. Porque vais. Porque vais e eu fico. Nesta ausência de espaço, repleta de opções que não chegam a concretizar-se e sonhos que teimosamente se realizam ao contrário. 

Tudo isto porque alguém decidiu casar. Porque me distraí a pensar na clutch, uma das tuas, que são sempre melhores do que as minhas. Foi quanto precisei para perceber que há muito me cansei de ser Portuguesa e de cá viver. E tu não. Adoras isto. Respiras intensamente em cada esquina, orgulhas-te de cada pedra da calçada, veneras a luz - aquela de que todos falam - e gritas a plenos pulmões pela defesa de cada ícone da cultura e do viver Português. Vais continuar a fazê-lo ao longe. Talvez por isso tu podes ir e eu não. Talvez eu não olhasse para trás, talvez eu perdesse o Norte para o reencontrar num outro ponto cardeal. Qualquer.

Os que vão sentem falta da família, da comida e da luz. Com excepção da família, nada mais importa. Já perdi a conta aos que foram, que deram corpo a esse mito urbano de que há semanas se falava. E, desses, não se fala dos que voltaram. Terão mesmo voltado, como as crisálidas atraídas pela luz? Não creio. Parece-me bem que a riqueza que entra equivale à riqueza intelectual que se perdeu e que a saudade se ultrapassa com vooslow cost cheios de pessoas saudosas e horas infindáveis no skype.

Como é diferente, o mundo, hoje. Como mudaram as nossas percepções sobre quem vai, quem fica e como isso acontece. Emigra quem procura emprego, vai viver para longe quem recebe um convite para se mudar. Os sentimentos de pertença e desencaixe são os mesmos. Quem sai olha para o que aqui se passa com uma lente que amplia. Não sabe os pormenores, mas analisa o contexto com a distância que nos falta a nós, os que ficamos, e a perspicácia de quem reconhece um antigo amante. Nada de bom vem de amores perdidos. E eles, os que saem, sabem melhor do que nós, os que ficamos, que aquilo que temos é pior do que um amor perdido. Nem amor falhado. É um casamento que está morto há tempo demais, no qual nos habituamos a viver por comodidade, pelos conforto do que sabemos e antecipamos, sem surpresa ou glamour, traídos e violentados sem ponta de respeito. Há muito que perdemos o respeito mútuo e vivemos neste casamento de fachada. Um daqueles sem diálogo, sem esperança mas que, por inércia, por medo, vamos mantendo. Como se fosse recuperável. Mesmo que saibamos que não é.

São os que partem que nos confrontam com a nossa ingenuidade e simultânea cobardia. Durante uns minutos pensamos como eles. Depois reduzimo-nos à nossa insignificância e voltamos à rotina, que tem essa sublime capacidade de ser desconfortavelmente confortável, para pensar que eles, os que saíram, já se contaminaram com essa mania Europeia, Americana e sei lá mais o quê, de olhar de lado para nós, porque é tudo pequenino, as mulheres ainda têm buço e andam de bata preta. Não é verdade. Mas isso não faz diferença nenhuma porque tudo o resto está certo.

Só gostava de saber o que aconteceria se saíssemos todos. Novos, velhos e por nascer. Nenhum casamento se mantém apenas com um dos cônjuges. Essa é que é essa. Para quem governaria  o arco do poder?....

Curiosamente, não casaram. Mas tu, já tens as malas feitas. 

So they say...

Abomináveis