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bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Fe-mi-nis-mo

Nunca fui pessoa de me preocupar demasiado com categorias, definições ou designações e nunca pensei em mim como feminista, até ao dia em que dei por mim a afirmar que desprezava veementemente os machistas. Porque, afinal, sempre fui contra essa forma de estar que domina socialmente a mulher, a acha inferior e divide os géneros de tal forma que, ao homem e à mulher passam a estar reservados diferentes papéis sociais. Naturalmente estão, podem e devem estar, desde que esses papéis também se misturem em todos os domínios. Como no trabalho, especialmente intelectual, uma vez que existe uma supremacia física óbvia entre homens e mulheres. Fiquei sem saber se havia de rir ou chorar perante as declarações de Tim Hunt, bioquímico a quem foi atribuído um prémio Nobel em 2001, quando afirmou, do alto da sua (chauvinista) honestidade, que as mulheres são um problema num laboratório: apaixonamo-nos, apaixonam-se e quando as criticamos choram, afirmado. Não acontecerá também em outros locais onde homens e mulheres - desculpem, let me rephrase it, onde pessoas - trabalham juntas? Para além de desprezar as mulheres ignora que pessoas do mesmo sexo podem, também, apaixonar-se? Talvez seja por pessoas como Tim Hunt que a academia e a ciência ainda sofre diferenças de género. Há poucas Reitoras, Presidentes ou Directoras de Faculdade para tantas professoras que o Ensino Superior já tem. Há também poucas mulheres a liderar a investigação científica apesar do número de cientistas do sexo feminino. E, depois, querem fazer-me acreditar que vivemos numa sociedade igualitária. Não vivemos.

De uma vez por todas: o feminismo nada tem a ver com paixonetas, opções sexuais ou com a aparência. São ideias, atitudes e valores defendidos por mulheres (e alguns homens) que entendem que a diferença de género há muito que deixou de fazer sentido, uma herança clara dos movimentos de emancipação da mulher e de luta pelos seus direitos. Não é uma coisa de lésbicas ou de gajas feias. Peludas. Andrajosas. Há mulheres coquette e feministas. Mulheres heterossexuais feministas. Mulheres que gostam de se arranjar e sentir bonitas que também são feministas. Mulheres vegan. Mulheres que comem carne. Mulheres que praticam exercício e mulheres sedentárias. Mulheres sem nenhuma característica em particular que as descreva e que também são feministas. Esqueçamos a caricatura. Acima de tudo, o feminismo não é um rótulo que se possa colar em quem queremos, de alguma forma, desprezar, categorizar ou humilhar. A ser um rótulo, que seja para colar em todos os que defendem os direitos da mulheres numa sociedade que teima em afirmar esses direitos e a agir de forma diferente. 

Não faltam notícias, artigos, entrevistas ou relatórios sobre os factos. As mulheres, em regra, ganham menos para o mesmo cargo e responsabilidade. Também têm maior dificuldade no acesso a cargos de chefia e tomada de decisão. Eles têm-nos no lugar, são corajosos. Elas são histéricas e choronas. Ou demasiado masculinas, porque se adaptaram a um mundo dominado por homens. É assim que a maioria nos vê. Não há pior ameaça numa empresa do que uma mulher inteligente, que se faz entender entre os homens - mesmo quando é detestada pelas outras mulheres - e que, ainda por cima, é bonita e feminina. Para muitas cabeças, não faz sentido porque destrói o estereótipo.

Quando elas pensam como eles são umas cabras. Quando eles se entendem com elas, elas andam a dormir com eles. O mundo vê a mulher a preto e branco. Ou boazinha, quando é dona de casa e mãe; ou a má da fita, quando assume a sua carreira em detrimento da família. A mulher, como o mundo, tem várias cores. É multidimensional porque consegue ser multitarefa, executando com perfeição mais do que uma simultaneamente. O mundo não acaba se uma mulher não sentir o apelo da maternidade nem muda radicalmente se outra for Presidente. De uma empresa ou da República. Mulheres e homens não têm necessariamente vocações diferentes. Foram ensinados assim. A nossa socialização tem muito impacto na forma como nos definimos e vemos o mundo. Hoje, há uma nova categoria de mulheres, no limbo entre o preto e branco porque querem - e conseguem, com esforço - ter uma vida familiar como mandam as regras mais tradicionais e um carreira de sucesso. Que teria ainda mais sucesso que o mundo não colocasse tantos entraves; se tantos maridos e filhos não continuassem a olhá-la como mãe, mulher e fada do lar; se as empresas compreendessem a importância do equilíbrio entre o trabalho e família; se a moral judaico-cristã não as fizesse sentir tão culpadas...

Queixo-me de barriga cheia porque em alguns países as mulheres não podem, sequer, assistir a eventos desportivos com atletas masculinos. Não sou excisada, não me obrigam a casar e tenho os mesmos direitos legais. Bom, não é? Mas não fico satisfeita, porque muitas mulheres continuam a ser vítimas de abuso sexual e violência doméstica, a outras queimam o rosto por aparente rebeldia na defesa dos seus (supostos) direitos e, mesmo quando tudo está bem, continuamos a sofrer com uma atitude paternalista e machista que nos reserva a responsabilidade de cuidar dos filhos e da casa. Porquê? Eles, os que vivem nessa casa não comem, também? Se eu também trabalho, porque razão essa tão aprazível tarefa de fazer compras no supermercado não há-de ser dividida? Porque razão um cozinha e o mesmo arruma? Porque não dividir? Não há culpa. Mas, a haver, é das mães que os educaram para chegar, sentar, comer e voltar a sentar, desta vez no sofá, enquanto ela - a mãe e, mais tarde, alguém com quem viva - foi mais cedo para a cozinha, comeu mais depressa e fica até mais tarde nessa mesma cozinha a arrumar. Um dia ouvi dizer “nem que a M**** chegue ao tecto”, numa declaração mais ou menos inflamada de quem, como eu, achava que as tarefas se dividem. Fiz dessa a minha bandeira.  Não havendo justificação (sim, porque nisto das relações a dois há que saber avaliar as situações e praticar algum desprendimento para a entre-ajuda) pode a loiça chegar ao topo do armário que não cedo. Ou não cozinho. Queixo-me de barriga cheia. Novamente. Ou talvez não, porque sei que há outros a quem não é preciso pedir. Para quem, ultimatos destes, seriam absurdos. Estão lá longe, na Escandiávia, essa Europa que pratica a igualdade e na qual nenhum homem é menos homem por ajudar ou ficar em casa com as crianças. Havemos de lá chegar...

Dados infografia: expresso, observador e observador

Dados infografia: expressoobservador e observador

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