olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

Entre (estórias dos Açores)

ENTRE (I)

Sou mestre em visitas relâmpago a cidades e destinos onde apetece, sempre, ficar mais tempo. E, por isso, volto. Ou permaneço na saudade do desconhecido. Aterrei várias vezes em Ponta Delgada sem nunca ter saído do aeroporto. Sempre achei que este seria o destino cliché que as fotografias oferecem. Não é. As fotografias não conseguem mostrar a beleza natural de um arquipélago sabiamente equilibrado entre a mão do homem e a força da natureza.

Há hotéis, restaurantes e cafés maravilhosos, estradas que nos levam rapidamente de um ponto ao outro, enquadradas por um verde tão natural que é impossível reproduzir e as tradições que teimam em permanecer nos mais pequenos detalhes.

Não ficaria aqui eternamente mas despertaram em mim a vontade de ficar - que é raro - para me dedicar ao que mais gosto na vida, sem pensar nas limitações do exíguo mercado, da distância ou do impacto que o mar tem na vida e na moral de uma população que, eventualmente, não conseguiria viver de outra forma. De um lado, a Europa, do outro, os Estados Unidos, quase possível de ver ao longe, para onde emigraram tantos açoreanos ao longo da nossa história.

Nem o continente nem o outro continente dominam o horizonte mas influenciam a vida destas gentes tão simpáticas e especiais. Há muito que não me sentia tão bem recebida. Há muito que não repetia cada pormenor das refeições ou que me deixava ficar, sentada, num espaço que é tanto loja como bar ou cafeteria. Assume-se como uma mercearia com preços tão justos que nos fazem pensar nos disparates que sítios feios, nas grandes cidades, nos pedem por um chá. É um híbrido moderno, requintadamente antigo, com música tradicional portuguesa a tocar baixinho, que nos surpreende no centro de Ponta Delgada.

ENTRE (II)

Fui aos Açores mas, de todo, conheço os Açores. Se comparados a uma grande metrópole, nada acontece nas ilhas. Marasmo total. Mas os Açores estão a mudar e para além de uma dinâmica própria, revelam um novo arrojo, com um certo movimento artístico e cultural. Sem o roteiro incessante de Lisboa, acontecem coisas nos Açores, provavelmente de forma mais selectiva, demonstrando que as ilhas não são apenas o verde dos pastos e as vacas que os circundam. Na verdade, nunca vi tantas vacas, mesmo não tendo fotografado nenhuma, e nunca vi um verde tão verde. Há vacas por todo o lado, pastando calmamente, tão perto e tão longe do bulício da vida moderna.

Os Açores estão modernos, sem os aspectos negativos que a modernidade aporta. Sem a pressa das grandes cidades, o barulho das coisas ou a interferência que este ritmo nos impõe. Estranhamente, apeteceu-me ficar. Não para sempre, porque o sempre é longe demais, mas deixar-me estar só porque sim. Porque também senti que os Açores poderiam precisar de mim, como eu senti precisar desta calma e afectividade que aqui encontrei. Não me admira que grandes vultos da literatura nacional tenham raízes aqui ou que figuras actualmente relevantes no panorama internacional, resultado da emigração, sejam açoreanos de alma e coração.

Há algo aqui que não encontrei em nenhuma outra região do nosso país a qual, lamento, não sei explicar... Não sei se resultará da insularidade, da distância, da dimensão de cada ilha ou da relação entre essa dimensão - pequena - e a grandiosidade que aparentam as ilhas que visitei. Ouvi das estórias mais bonitas de sempre, conheci pessoas cuja simpatia excedia a obrigação e vi locais que não têm equivalente. Não podem ter. Não há outro verde assim.

Elogiar refeições em Portugal é comum, mais ainda nas ilhas, especialmente, nos Açores.

Peixe fresco que sabe a mar, legumes com um sabor intenso e carne que se desfaz na boca. Tudo verdade. Não hesitaria em voltar para um roteiro gourmet. A proximidade entre as pessoas é maior, típica de localidades pequenas em que todos se conhecem e a recepção a quem vem de fora excede todas as expectativas. Não é uma simpatia forçada pelo negócio mas antes pelo prazer de bem receber. De mostrar o que tem de melhor cada local e dar a conhecer as especialidades da casa, que não encontramos no continente.

Provei uma mistura de cerveja e laranjada da qual terei muitas saudades. Nem a cerveja é a mesma e muito menos encontrarei a laranjada Melo Abreu.

As lapas, que já temos em Lisboa, são outras. Mais frescas e carnudas. Sabor melhorado. Comia-as a cada refeição. Sem hesitar. As cracas... Um pouco do mar à mesa, extraídas da rocha são mesmo um pedaço de mar porque o que se come está em pequenos buracos, o que quer dizer que a apanha implica estar debaixo de água para partir pequenos pedaços da rocha. Único, sem dúvida. Cozinhadas com a água do mar que se bebe,  para provarmos isso mesmo: o sabor do mar. Que não é o mesmo que engolir um pirulito quando mergulhamos.

Experimentei peixe que não conhecia e legumes cozinhados ao vapor num papelote de alumínio, provocando uma experiência de sabores e texturas que se apenas entendem na sua intensa suavidade. Descobrir é bom, mas descobrir guiados por aqueles que conhecem o local permite-nos navegar no encantamento da descoberta. Temperadas com alho e limão, acompanhadas com batata doce e arrematadas com canela, as refeições nos Açores despertam-nos os sentidos, levam-nos de volta a tradições perdidas e estimulam o nosso imaginário em torno da ideia de felicidade na imensidão do mundo e do oceano.

Apetecia-me voltar já e repetir, agora.

ENTRE (III)

Nos Açores ouvi as mais encantadoras histórias sem, contudo, se tratarem de estórias de encantar. Na Horta, que todos conhecem pelo Peter Café Sport descobri a história de um espaço feito de pequenas estórias dos que cruzam os mares. Esses aventureiros, como ficam conhecidos no Faial. Tudo começou no século passado, uma loja de produtos artesanais que depois também vendia bebidas. Que cresceu para passara ser uma espécie de entreposto para navegadores e que se assumiu como Peter por razões que apenas o coração pode conhecer.

O Peter nunca se chamou Peter mas foi assim que se tornou conhecido. A história, contou-me pessoalmente José Henrique, o seu filho e a terceira geração a conduzir o espaço mais famoso do oceano Atlântico, no qual o bife e o gin&tonic fazem as honras da casa. Acima de tudo, o que distingue este Peter é a amabilidade acolhedora com que nos recebe, mesmo tendo atravessado o mar num avião. Isso não importa para quem se orgulha da sua história e gosta de a partilhar.

Há muito que não conversava com alguém com apontamentos de história tão interessantes, com tantos pequenos segredos e detalhes como o José Henrique, actual proprietário do Peter Café Sport e do museu Scrimshaw (*) cujo espólio depende unicamente de uma seleção estética feita ao longo do tempo.

A sua narração visual levou-me atrás no tempo, situando-me num Faial centenário, no tempo da instalação de cabos submarinos, caça à baleia e em que este era um dos mais importantes portos do mundo. Não faltavam navios, companhias inglesas, alemãs e norte-americanas que criaram um movimento de gentes e ideias, bem como estórias de baleeiros e da importância da caça à baleia para a economia local. O Peter, que sempre ajudou o pai no negócio e também trabalhava num navio estacionado no Faial para reparação durante a II Guerra Mundial, na verdade era Português e não se chamava assim. Tornou-se conhecido como Peter por ser parecido com o filho do comandante do navio no qual trabalhava. A saudade, juntamente com a aparência do jovem José transformou-o em Peter a pedido do comandante. Para a vida. Enquanto Peter, ajudava o negócio familiar tendo-o transformado naquilo que é hoje: um ponto de encontro e de apoio aos navegadores. Começou por tentar ajudar os que aportavam e que, por razões de saúde não podiam abandonar os veleiro antes de um atestado de saúde ser certificado pelo médico local o qual, por razões que se entenderão, só se deslocava ao Porto quando navios cheios de gente aportavam. Pobres navegadores que chegavam a estar semanas ancorados sem poderem vir a terra. Verdadeiro percursor do marketing de serviços e do marketing relacional, era o Peter quem os ajudava, visitando-os e assegurando ao médico que estariam de boa saúde, levando-lhes os atestados assinados e carimbados, convidando-os igualmente a conhecerem o seu café e oferendo ajuda para resolver qualquer problema mecânico ou técnico na embarcação. Ligava pessoas entre si e passou a ser a posta restante na ilha, transformando a forma de comunicação entre navegadores, bem como com os que estavam em terra. As cartas passaram a ser enviadas para o Peter Café Sport e o painel superior do balcão ficava recheado de recados, para transmissão de mensagens entre navegadores. Único. Brilhante.

Hoje, a sua relevância para a comunicação no mar é menor, mas não desprezível. Continua a ser o ponto de encontro que sempre foi, com bifes tenros como nunca antes comi, um creme de batata doce de raspar o prato e o gin que dispensa qualquer comentário...

Resta apenas perceber a designação Sport, que tem uma explicação muito simples. Influenciado por ingleses e norte americanos, foi Peter o percursor do desporto na ilha, como adepto e praticante, razão pela qual também esse aspecto da sua vida ficou reflectida na designação deste local, mais pequeno do que imaginamos e, no entanto, enorme na sua dimensão, estendendo-se, por via marítima, a todo o globo.

(*) Scrimshaw é a arte de gravar imagens nos dentes de cachalote, num processo minucioso que exige precisão e abstracção para trabalhar em negativo, ou seja, os traços que são gravados no marfim serão depois cobertos de tinta. O que permanece branco será o contrário daquilo que estaríamos a ver sem tinta. Complexo? Sim, até para explicar. Mas não para apreciar, porque a colecção merece ser vista ao vivo.

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