olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Chapéus há muitos...

Empregos há muitos, seu palerma. Trabalho é que não.

(adaptado da deixa de Vasco Santana, "chapéus há muitos seu palerma", no filme A Canção de Lisboa)

O mundo está cheio de cunhas e favores. Portugal não é excepção. Não me espanta. Nem me choca. É da natureza humana preferir quem conhecemos a procurar no mercado quem, de facto, tenha as competências para uma tarefa. Um amigo adapta-se. Um desconhecido, não sabemos. Mas isso não pode justificar tantas situações em que a amizade e os laços familiares se sobrepõem à competência profissional ou as escolhas que se fazem em função desses laços, abdicando dos mais competentes para deixar, na empresa, os que nos são próximos, ou próximos de quem nos lidera. Acontece aqui. Ali. Acolá. Não tenho dúvidas. Mas também sei que aqui, esses laços se tornam dominantes enquanto lá, os laços apenas prevalecem na dependência da competência profissional, numa cultura de responsabilização em que a culpa não morre solteira. Até podemos entrar pela porta dourada e de mãos dadas a alguém mas, se o resultado for mau, largam-nos da mão e abrem-nos a porta para sairmos.

O desemprego entre nós é alarmante. Sobram empregos e faltam trabalhos quando, toda a vida, ouvi dizer que havia quem procurasse um emprego e não um trabalho. Acho que não precisarei explicar o trocadilho. Na verdade, não há empregos nem trabalhos e, os que há, estão lá fora. Contactei várias pessoas para me contarem a sua história e todas elas, que saíram do país para trabalhar, explicam o mesmo: faltam oportunidades...

Foto by: Camila Damásio miladamasio.com

Foto by: Camila Damásio miladamasio.com

Conheço-os a todos há tempo suficiente para saber que não são desistentes mas, antes, persistentes. Que amam o seu país de coração e que se lhes cortou o coração perder a luz de Lisboa, a vista para o Atlântico, a brisa do sul que sopra no Verão, para abraçarem essa saudade que é, no fundo, a essência portuguesa. São portugueses e tornaram-se cidadãos do mundo por força de circunstâncias várias, que se resumem numa frase: não conseguem aqui, o que alcançaram ali. É apenas triste, nada mais. A incompetência não é deles porque lhes reconhecem mais competência do que aqui. A incapacidade também não é deles, porque se enchem de orgulho perante as capacidades que demonstram, aos outros, dia-a-dia. A oportunidade, também não a criaram, mas encontraram-na num outro contexto. Conhecendo-os como conheço, perdemos nós. São amigos, ex colegas de faculdade, ex colegas de profissão, ex alunos. São ex qualquer coisa mas nunca serão ex-cluídos da minha vida porque os respeito e admiro demais para que isso algum dia aconteça. Com maior ou menor proximidade, a empatia não se explica, sente-se, da mesma forma que alguns laços nunca chegam verdadeiramente a perder-se, mesmo que estejamos em lados opostos do mundo. São eles e elas cujo nome não irei revelar. Pensem apenas que poderiam ser qualquer um de nós. Com a diferença que não somos. Porque estes não tiveram medo, não esperaram. Fizeram-se à estrada.

Se, por um lado, a crise motivou o desbravar de novos mercados, numa aventura por terras de Vera Cruz, por outro, o apelo do desconhecido para descobrir a excelência da ciência levaram-nos para, acredito, nunca mais voltarem. Um dia, os negócios  pararam para um amigo que sei, não sabe estar parado. Não conjuga o verbo, adoptando antes qualquer outro sinónimo de movimento. E mesmo criticando a cultura pouco honesta e sincera donpaís em que se encontra, consegue crescer e prosperar, num país grande em todos os sentidos, bem diferente de um outro, pequeno, governado por políticos fracos e desonestos, afirma.

O género feminino domina a selecção: eles são apenas três, no seio de muitas elas. Um terá ido por amor, sem ser por arrasto, num absoluto desgaste com o que tínhamos para lhe oferecer. Nós, nada. Ela tudo. E uma paixão linda de se ver. E viver. Juntos já ficaram sem passaportes num albergue perdido num país de Leste, já perderam telefones num outro paralelo sem nunca se perderem. De si e dos seus objectivos.

A partida esteve-lhe sempre no horizonte. Deixou escapar uma oportunidade e fez questão de não perder a segunda, incentivada, também, pela situação de crise que o país vivia (ou vive?) na altura. Saiu para estudar, já está a estagiar numa organização de dimensão imensa e nada a impede de voltar. Mas não quer. Talvez um dia, mas não sabe, e vive a magia que os vintes lhe permitem.

Lá longe, muito longe, a uma distância de várias escalas e a probabilidade de vários dias de viagem, ela encontrou o que sempre procurou e que lhe foi recusado aqui. Sentia-se em dívida para com um país que lhe proporcionou uma experiência única, e fez por retribuir. Mas foi mal aproveitada. Ou interpretada, não sei. Melhor, foi aproveitada ao limite do absurdo. Cansou-se. Já tinha partido uma vez e não foi difícil olhar o horizonte e voar. Andar pelo mundo é algo que não tem de fazer parte de nós mas que facilmente passa a ser algo nosso. Afastou-se da família, dos amigos, dos colegas que lutam diariamente para melhorar as condições de trabalho numa área com um elevado capital social, de extrema relevância social e, no entanto, desprezada há décadas. Admite: a vontade de uma vida mais estável a nível profissional e pessoal, de conseguir aplicar e valorizar as nossas competências e de seguir as nossas aspirações em países que nos acolhem de braços abertos, falou mais alto. Gritou. Disso, não tenho dúvidas.

Vivia uma vida em que a vida não existia para lá do trabalho, o que equivale a dizer que não vivia. E decidiu viver.

Outros dois, ele e ela, seguiram de mãos dadas para poderem viver. Porque aqui sobreviviam entre contas e facturas, pagamentos por conta e outras abjecções que impedem tantas empresas de empreender. Sentem falta de tudo, menos do que os levou a partir. Pensam voltar, provavelmente quando forem velhinhos, porque são daqueles que a vida juntou até velhinhos. Lá, estão bem, um com o outro, com os olhos postos cá e o tempo que cá não tinham para apreciar o lado bom da vida. Mesmo teimando que o bacalhau não tem igual ou que a água do mar tem outro sal, aprenderam a deitar sal para acabar com o gelo e a congelar uma lágrima que por vezes quer saltar. Lá, estão a viver o sonho que aqui não passava disso mesmo: um sonho.

E é, também esta, a razão de ser de outros que partiram. Para estudar, para conhecer, pela proposta que resulta em algo que os valoriza. Porque aqui se sentiam, tantas vezes, desvalorizados. Se uma decidiu prosseguir um mestrado lá fora, para se internacionalizar, outra optou por um MBA. Ambas encontraram oportunidades que não esperavam. Uma procurou a verdadeira mistura, numa cidade conhecida tanto pela reputação académica, como pela tolerância e diversidade de nacionalidades. Continua por lá e não me parece que volte. Não antes daquilo se esgotar. E, aquilo, não se esgota. Eu sei. Já a outra, para voltar teria de encontrar, aqui, o que lhe ofereceram, ali. O que é pouco provável. O mesmo aconteceu num outro caso, em que ele, cansado da falta de reconhecimento e da ausência de brilho dos media em Portugal, da pequenez das empresas, foi brilhar num outro contexto e país. Lutou por uma esmerada educação e atingiu posições de relevo antes da idade certa. Talvez fosse cedo demais. Talvez não soubessem que não era nem cedo, nem demais. Injustiças ao final do mês também o empurraram para os braços de outros que o reconhecem e valorizam, pagando-lhe de acordo com a sua experiência e qualificações. Novamente, lá. Novamente, perdemos nós. Como também perdemos por aqueles que as empresas cá, enviam para lá, porque simplesmente crescem tanto que deixa de haver lugar na hierarquia para os acolher. Somos um país pequeno. Talvez demasiado pequeno para o brilhantismo de alguns. Não é à toa que a nossa história é, também, uma história de viagens, migrações e emigrantes.

Chapeús há muitos...

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