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bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

do amor e outras estórias

do amor e outras estórias

Há várias razões para muitas pessoas não gostarem do Dia de São Valentim.

Primeiro, o amor não escolhe dias. O amor não precisa de um dia especial para se celebrar. O amor acontece. E, quando acontece, deve viver-se. Celebrá-lo, quando faz sentido. Não porque nos impõem uma data. Como o Natal, cujo espírito deve perdurar o ano inteiro e que, tantas vezes, é esquecido para ser recuperado, apressadamente, dias antes da data.

Porque podemos tocar. É esse o segredo da lingerie. E do amor. 

Segundo, o amor não precisa de cartazes e balões e flores e chocolates e lingerie e todas aquelas piroseiras que invadem as lojas numa tentativa desesperada de marcar uma data inventada para isso mesmo: encher restaurantes, lojas de flores e chocolates ou sessões de cinema com comédias românticas que elas supostamente gostam. Ou gostam, apenas neste dia.

Terceiro, o equívoco do amor. Quem não ama, não sabe ou não quer amar, toca-se neste dia, o pior do ano para se estar sozinho, dizem. Inventaram-se fórmulas para os solteiros se juntarem, criaram-se imagens para denegrir o amor. O que está em causa não é o amor porque o Valentine's Day não é sobre o significant other mas sobre todos os significant others da nossa vida. Que pode muito bem ser a nossa melhor amiga.

Quarto, os corações despedaçados que não encontram um novo amor. Porque não se amam e, por isso, não se deixam amar. Porque querem curar um heartbreak com outro, coleccionando os arranhões sem deixar sarar as feridas. Quando acaba o amor tem de haver um luto. Mesmo quando saltamos directamente para o colo de alguém, essa pessoa serve apenas para fazer esse luto. Luto feito, a pessoa deixa de fazer sentido. Para nós. Para o outro. Nova relação terminada sem que ninguém tenha percebido porquê. Outro arranhão, pele sensível, sensibilidade à flor da pele... Palavras para quê? Sabemos, no íntimo, que o amor precisa de tempo e espaço.    O seu tempo e espaço. Mas não queremos estar sozinhos.

Quinto: amar. Pedro Paixão escreveu, no título de um livro, que viver todos os dias cansa. Amar também. Gostar exige de nós a capacidade de dar e receber, de adivinhar o outro, entendendo-o sem que ele nos explique. Porque quando entramos no domínio das explicações é quando tudo se complica, porque o que se diz nem sempre é o que se pensa; o que se afirma não é o que se quer dizer e o que se diz não é o que se faz. Esperamos que o outro adivinhe. Somos todos muito maus nesta arte de adivinhar. Por isso, importa ouvir. O problema não é só deles,  conhecidos por ouvirem sem darem atenção. O problema também é nosso, por falarmos nas entrelinhas, sussurrarmos o que fica por dizer. O que supõe adivinhar. E, quando ninguém se entende, não adianta gritar. Not good...

Sexto: não gostamos do Dia de São Valentim porque ignoramos os sinais. Os sinais estão lá. Estão sempre lá. Uma mecha de cabelo fora do sítio, a palavra errada, um toque que não faz arrepiar. Ignoramos deliberadamente os sinais numa ânsia do amor. Qualquer. Não necessariamente aquele amor. Porque, também sabemos, o amor não é perfeito. Por isso vamos aceitando as suas imperfeições mesmo quando não lhes encontramos uma imperfeição perfeita. Importa não ignorar os sinais. Cada um tem os seus. São esses que contam. Não os que vêm nos livros.

Sétimo: andamos à deriva. Amar é abrir as portas da nossa casa e deixar o outro invadir o nosso mundo, respeitando quem nós somos e o nosso espaço, afirmando-se como aquela pessoa a quem queremos contar tudo, com quem podemos partilhar tudo e não esconder nada. Porque é essa pessoa que nos faz rir e nos limpa as lágrimas nos piores momentos. O amor tem muito de amizade, porque a amizade se baseia na confiança. Sem confiança não há relação. Não há amor. Como em qualquer relação, somos dois. A remar com a mesma força, o mesmo ritmo e na mesma direcção. Mesmo quando o rio está turbulento ou nos apetece estar à deriva.

Não há deriva, no amor.

Oitavohigh expectations. Não falha. Esperamos sempre mais do que o outro promete. Resulta em desilusão. Como os sinais. Estão presentes e teimamos ignorá-los. A falha é nossa, não do outro que se mantém fiel a si próprio enquanto nos tentamos adaptar. Como o quadrado não encaixa no triângulo, há coisas que não valem a pena. A insistência cansa, engana e desilude. Muitas desilusões conduzem ao descrédito no amor. E o amor não tem nada a ver com isso. Apenas nós, a nossa ganância de sermos o que esperam de nós ou de transformarmos o outro no que queremos que seja. Ninguém muda. Adaptamo-nos. Aprendemos a encaixar. Naturalmente.

Nono: não evoluímos. Porque não queremos. Porque não nos deixam. Porque não há evolução possível. A pessoa que amamos deve fazer de nós uma pessoa melhor. Nós devemos fazer dessa pessoa, uma pessoa melhor. Crescermos juntos, num percurso feito a dois sem interferência de ninguém. Ou com interferências positivas, que ambos aceitam, nesse processo de evolução.  Juntos, conseguem chegar onde, sozinhos, jamais chegariam. Não interessa o que é. Desde que seja a dois e que os transforme em pessoas melhores do que alguma vez foram.

Décimo: não gostamos. Apenas isso.

Preferimos  estar discreta e confortavelmente na cama, a dois, longe do mundo, ignorando o que se passa lá fora. 

Qual é a aparência da felicidade? Todos sabemos que os sentimentos não têm aparência, mas a felicidade já foi descrita, pintada, fotografada, filmada tantas vezes e de formas tão diferentes que quando pensamos na felicidade a relacionamos de imediato com as imagens e sons que fazem parte desta cultura popular. 

Sabemos que a felicidade não tem absolutamente nada a ver com ter, estar ou possuir. Mas queremos isso. A felicidade é mais sobre sentimentos que inexplicavelmente vão crescendo em nós. Tem catalizadores. Uma música. Um sorriso. Pode estar ao virar da esquina, para usar um cliché demasiado gasto. Pode ser o sentimento de finalizar uma reunião de negócios, sair da sala, enviar uma mensagem ao nosso melhor amigo e perceber que nos sentimos verdadeiramente bem. De forma pura. Apetece sorrir. Sair do edifício sem tocar o chão. Colocar os auscultadores, escolher a música e simplesmente ausentarmo-nos do mundo enquanto cantamos rua fora como se mais ninguém existisse. Porque simplesmente não nos interessa o que os outros possam pensar. Poder é isso: a felicidade entrar-nos pelo corpo adentro e dominar o que fazemos ou pensamos.

Depois olhamos os outros na rua. As pessoas são estranhas. Não conseguimos definir o seu grau de felicidade. Sequer se estão felizes. E queremos partilhar. Sorrisos, que voltam para nós quando os espalhamos. Cantamos e os outros sorriem porque nos ouvem cantar. Felicidade é isso. Amor também. Aquele sentimento de who cares?!

Sempre ouvir dizer que o amor é eterno enquanto dura. Enquanto namoramos, dizemos sempre ao outro o quanto o amamos. Parece para sempre. Ali e agora, naquele momento, sem a certeza do tempo que o sentimento iria durar. Porque era eterno, até ao momento em que deixaria de o ser. Essa eternidade poderia estar ao virar da esquina ou no fim do mundo. Não dependeria apenas de nós. De cada um de nós. Dependeria de tudo aquilo que faz cada um de nós ser o que é, na certeza de que, aquilo que somos, muda de dia para dia. Como evolução e retrocesso, com influências e vislumbres sobre o que somos no mais intimo de nós, revelando-se de formas diferentes à medida que o mundo gira. Ninguém é em definitivo.

Os sonhos apaixonados tem música ♡

Curly

Curly

rádio? RÁDIO.

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