olá.

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Joséphine sans filtre...

Toujours. Un autre jour. Por enquanto, assim, perdendo-se nas ruas, nos museus e exposições, nos monumentos e nos recantos que só quem conhece Paris sabe que existem. A cidade é monumental, milhares de pessoas diariamente em circulação, outros milhares de turistas. Mais de duzentos quilómetros em linhas de metro, quase o mesmo que percorremos a pé, numa cidade que se presta a isso mesmo: aos percursos com destino aparente e infindáveis caminhadas imprevistas que nos levam onde não tinhamos pensado, para descobrir sempre algo novo. 

Joséphine conhecia Paris suficientemente bem para não se perder e tão mal que estava sempre perdida, encontrando-se entre a multidão, descobrindo a  cidade enquanto se descobria a si mesma, nas esplanadas aquecidas, nos mercados de rua transbordando um certo je ne sais quoi francês e o multiculturalismo que também caracteriza a Europa.

Paris hoje estava diferente. Joséphine acordou e aproximou-se da varanda do quarto. Espreitou a rua. Embrulhou-se num casaco que não era seu e que, pela dimensão, lhe tapava boa parte do corpo. Estava descalça. Abriu a janela, deixou o ar frio da manhã entrar. Ouviu resmungar, ignorou propositadamente porque queria ter a certeza de que o mundo, lá fora, continuava.

Desta vez escolheu um hotel pelos comentários e a pontuação que outros lhe haviam atribuído. Ignorou a localização, sabendo que estaria perto de tudo. Não se imaginou junto à Place de la République, praticamente com vista para o memorial que espontaneamente surgiu depois dos atentados de 13 de Novembro. Quando sai, opta quase sempre por uma volta maior, pelos Grands Boulevards. Já cruzou diversas vezes a praça, quase sempre à noite, por ser mais fácil fingir ignorar a emoção do local, que também os parisienses, sem ignorar, procuram aceitar. Gerir. Andam na praça de um lado para o outro, evitam a aproximação às flores, às mensagens, a tudo o que se foi amontoando ao longo do tempo e que representa a forma que muitos encontraram de se exprimir, de manter viva a memória dos que se foram, mantendo também viva a memória do que aconteceu. 

Na praça encontramos les roleurs em manobras acrobáticas. Jovens apaixonados, de mão dada. Poucos franceses. Daqueles que se reconhecem pelo estilo e o sotaque. Muitos nascidos em França. O que não será exactamente a mesma coisa, como se percebe por aquilo que vai acontecendo em Inglaterra, com os jovens desenraizados que não são nem de cá, menos ainda de lá, ou em Bruxelas. 

Hoje, a cidade acordou a mesma de sempre, mais cinzenta e cabisbaixa. Fechou a janela, enroscou-se no quente da cama. Ligou a televisão e tirou-lhe o som. Deixou-se ficar. Ficaram. Desceram, já tarde, para um petit déjeuner numa sala vazia, cheia de pequenos detalhes, para serem servidos com a atenção que só um boutique hotel pode dar. Tinham duas opções: ceder ao medo e à curiosidade ou ignorar e sair. Não há como fingir que nada aconteceu. Paris em Novembro, Bruxelas em Março. Outros tantos menos mediáticos como Ankara. Não há coincidências e o mundo está a ferro e fogo. O que terá feito Joséphine em mais um dia em Paris?

continua

 

Needless...

Needless...

Um artigo chamado Bruxelas

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