olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Partir. Chegar.

Largou tudo e rumou à Europa. Voltamos sempre ao lugar onde fomos felizes e, embora não soubesse exactamente onde pertencia e o que deveria fazer, deixou-se guiar pelas rotas que a levariam a qualquer cidade de europeia, ponto de partida e chegada, aeroporto repleto de gente com destino definido e hora de chegada.

Aterrou em Londres. Estava demasiado cansada para pensar, usou uma aplicação útil para qualquer viajante sem destino, e escolheu um hotel. Outro botão levou-a até à porta. Entrou. Pousou uma mala. Largou o casaco. Pediu um quarto.

Último andar, por favor.

Tinha medo de alturas mas gostava dos andares mais altos dos hotéis. Todos temos pormenores. Dormiu mais de doze horas. Acordou. esticou-se. Tomou um banho, vestiu-se no mais óbvio street style londrino, despreocupada e sem regras - ou sem a regra da crítica no olhar - e saiu. Queria respirar o ar frio, a humidade no rosto junto ao Tamisa, a cacofonia de uma cidade tão impregnada de cheiros, gentes e cores que torna impossível a aparente solidão. Olhou para a palma da mão. Spotify. Carregou no botão play e colocou os auscultadores. O James Brown gritava "I got you"... Não era sua nem de ninguém. Caminhou. Enviou umas mensagens e acabou a pernoitar em casa de uma amiga que já não via há uma década. Falaram horas a fio sem lhe contar o seu plano. Simplesmente não tinha nenhum.

Uma notificação. E outra. Uma fotografia no Instagram ganha vida própria, expande-se e circula como o ar. Em Glasgow, Eric e Mary gritavam. Ela estava na Europa, havia aterrado em Londres e estava disponível para sugestões de destino. Na manhã seguinte apanhou um comboio. Parou em Sunderland para uma visita breve a um amigo de sempre e para sempre. Seguiu para o norte, onde a esperavam dois abraços tão loucos quanto a loucura em si mesma, noites intermináveis, conversas de fazer rir o mais inerte e uma amizade que se revela nos pormenores que só a presença física desperta. Adora-os mas esta intensidade é demais. Pelo menos agora. Por agora.

Estar numa cidade não é o mesmo que lá viver, por muito que queiramos estar como "estão" os locais. Nunca será a mesma coisa simplesmente porque abdicamos do nosso quotidiano para criarmos outro, temporário, uma espécie de evasão tornada realidade sem nunca o ser. Não estamos em casa nem dormimos na nossa cama, abdicamos de pertences para recebermos o intangível que a viagem nos dá. Mesmo em trabalho, com horas e obrigações, o acolhimento de um hotel é sempre temporário, com odores que não são os nossos, aos quais não queremos pertencer. Ou queremos?

 

continua

 

Joséphine

Medo?

Medo?