olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Joséphine

Joséphine não era inglesa mas parecia. Poderia ser francesa. Sueca, talvez. Misturava-se facilmente entre a multidão, falando a língua e usando os tiques daquela gente que não era a sua. Na verdade, Joséphine não era dali ou de lado nenhum. Muitas vezes caminhava sentindo a calçada, sabendo que pairava. Observava o mundo de forma invisível. Ou pensava que sim. Sentia-se igual nas diferenças que caracterizam as pessoas. Aqui, ou em qualquer parte do mundo.
O Inverno estava instalado na Europa, com noites longas, geladas, poucos dias de sol e muita chuva. Atravessou o canal para se instalar umas semanas em Paris.

Não há como Paris para curar o que quer que seja. Não há como Paris para nos apaixonarmos, para circularmos sem destino e encontrar o que ainda não sabíamos que estávamos à procura, para escrever longas cartas de amor que nunca entregaremos a ninguém, comer croissants pela manhã e beber vinho num copo de pé alto, numa esplanada, ao fim da tarde, mesmo sem sol.
Paris é o lugar da sofisticação e fazemos todos por corresponder ao paradigma, mesmo que nos apeteçam leggins e sweaters confortáveis. Este aprumo obriga a organizar ideias, a limpar armários. A consequência é a nossa própria organização. Por muito que nos custe.
Ao fim de três dias em Paris, muitas fotografias por publicar, notificações no whatsapp que se recusava a ler ou correio por abrir, sentia-se mais de cá do que de lá, esse sítio que estava cada vez mais longe, diametralmente oposto a si.
Ligou o computador, consultou as contas bancárias e soube que não poderia fugir para sempre. Que o fim estava à vista, mesmo que a anos de distância. Que tinha compromissos os quais não poderia ignorar para sempre, embora quisesse. A desculpa esfarrapada da conferência que se transformou num convite para um evento na Fundação Louis Vuitton ou uma aula no Quartier Latin da Sorbonne, seguida de entrevistas à comunicação social, não poderia durar muito mais. Era tempo de voltar. E, mesmo não sabendo exactamente a razão do regresso ou aquilo para que voltaria, sentia que não poderia perder-se para sempre numa cidade que não era a sua. Ou poderia?

continua (talvez)

 

image.jpg

No, I'm not.

Partir. Chegar.