olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Come a sopa.

as crianças.

Queixamos. Ralhamos. Exasperamos.

Adoramos. 

São aquelas relações únicas de amor e nunca ódio, mesmo que passemos a maior parte do tempo entre um sentimento de prazer extremo e o limite da paciência. Somos assim. São assim. Não poderia ser de outra forma. Entre personalidades, formas de educar e confronto de gerações, eles vão crescendo e nós envelhecendo, à medida que nos ouvimos repetir o que as nossas mães diziam ou o que os pais faziam. Quando pensamos que não estamos - não podemos - estar a dizer exactamente o mesmo que tanto nos irritava, percebemos que é assim. E que nunca irá mudar. Reproduzimos padrões, evitamos outros que nos incomodavam. Inovamos. Ou pensamos que sim porque, na verdade, por mais teorias que existam, ou que se invente, só queremos que os filhos - os nossos filhos - estejam bem e felizes.

Parece-me que passámos a confundir o estar bem, a felicidade com extremos e exageros. Protecção a mais faz mal. Cuidados extremos são piores do que constipações.  Demasiados cuidados são confundidos com atenção em demasia. Resultam num mimo insuportável e na incapacidade para tomar decisões medindo as suas consequências. As crianças precisam de orientação e de explicações. Precisam que as ajudem a medir actos e palavras, que lhes indiquem um caminho. Mas não necessitam que façamos o caminho por elas. Precisam sim, de nos saber a seu lado. Segurança para gerar confiança. Confiança para criar afinidade. Afinidade para garantir a proximidade. Proximidade para garantir segurança. Voltamos ao início.

Tudo começou algures na geração anterior à minha com uns meninos mimados que tinham tudo. Na verdade, destes sempre houve. Repentinamente, duplicaram. Na minha já erámos todos assim a atirar para o prepotente e arrogante, até ao momento em que nos aterrava uma mão para nos colocar no lugar. Ninguém batia em ninguém. No entanto, uma bem dada fazia milagres. Fez. Somos educados. Respeitamos. Mas não nos sabemos dar ao respeito. E eles não nos respeitam. Fazem que sim quando lhes interessa. para pensarmos que estamos (novamente) aos comandos. Não estamos. Manipuladores e controladores, parecem mais espertos do que alguma vez fomos. Requintados e sofisticados nas formas de agir, falar e pensar. Serão os tablets? Não rejeito essa hipótese. 

Nós sabíamos esperar. No médico. No restaurante. No autocarro. Perdíamos o tempo que fosse a olhar pela janela do carro a imaginar mundos de aventuras. Contávamos carros, cantávamos até ao limite do suportável, saltávamos no banco traseiro do veículo - o cúmulo da segurança. Eles, hoje, não aguentam esperar. Um minuto é uma eternidade. Sobrepõem-se a nós sem aguardarem a sua vez para falar. Querem aqui e agora. Agarram-se a um smartphone ou a um tablet, descobrem coisas que não sabíamos que existem e perdem as cores do mundo, sem o conhecerem como ele é.

Não sou fundamentalista. Menos ainda contra a tecnologia ou novos dispositivos. Da mesma forma que se pensou que seria o fim do mundo quando cada divisão da casa passou a ter o seu aparelho televisivo, os jovens se fecharam a ver filmes e a ouvir música, também agora achamos que o mundo já acabou porque entregamos a crianças que não sabem ler - sequer sabem falar - um mundo a cores, definição HD e, se necessário, a três dimensões. Não o faço. Porque, simplesmente, não faz sentido substituirmo-nos por uma mistura de imagens, cores e formas, como não fazia sentido, quando era pequena, deixarem que a televisão tomasse conta de nós. Sou apologista de equilíbrios e não me parece que seja prudente deixar uma criança na eterna ignorância em relação à cultura popular ou aos aparelhos populares. Deve conhecer, saber o que é, como funciona. Usar com conta, peso e medida para desfrutar da família e da vida que ainda acontece em contexto real. Porque há muito tempo para imergir no virtual, parase dividir entre a rua e as redes online.

Também passamos muito bem sem comer hamburgers do Ronald McDonald. Acreditem, é possível. 

Somos mais preguiçosos do que foram os nossos pais porque temos menos tempo e menos paciência. Porque nos esgotam no local de trabalho, porque demoramos horas a fazer o que antes demorava uns minutos, na ilusão de que temos melhores condições, instrumentos e electrodomésticos que nos facilitam a vida. Facilitam. Mas ao libertarem-nos, condenam-nos a uma escravidão que nos faz estar horas a apagar mensagens de correio electrónico ou a organizar pastas no computador. Para, simplesmente, conseguirmos trabalhar. Também se trabalhava muito. Os pais também se desgastavam mas, agora, parece pior. Seremos os pequenos ditadores* de que fala o psicólogo espanhol Javier Urra, e os nossos filhos imagens distorcidas das crianças que formos?

Se imitamos os nossos pais na forma de educar, rejeitando alguns dos seus modelos, regras ou atitudes porque queremos ser modernos e temos a mania que sabemos tudo (ganhamos essa mania algures no tempo, quando passámos a ser  letrados no digital e, na sua maioria eles - os nossos pais - não) então também temos de pensar que os nossos filhos nos imitam. Se são os pequenos ditadores que cresceram, de que Javier Urra fala, é porque os imperadores cá do sítio já não controlam a sua prole. Quantos não viram os filhos a simular conversas ao telefone, fazendo-nos o sinal - que nós fazemos - para não serem interrompidos?

Pois. 

* "O pequeno ditador cresceu" é o novo livro de Javier Urra, abordando as tensões entre pais e filhos na sociedade contemporânea.

há-de ser... um dia...

há-de ser... um dia...

Dietas? Façam-nas vocês.