olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

hoje

Av. da Liberdade

Av. da Liberdade

Às vezes é assim e, sem razão aparente, o dia parece não acabar. Interrompi-o a meio e sentei-me aqui, onde escrevi este texto. Por nenhuma razão especial. Porque me chamou à atenção o homem pacificamente sentado a observar o movimento na Av. da Liberdade, a mulher que carregava a mala e o executivo alheio a tudo o resto, concentrado na sua caminhada compassada. Limitei-me a pensar nas coisas e nas pessoas, que é algo que tem a mania de escrever por vezes faz. Fiquei com pena de algumas pessoas. Pela sua pequenez, a sua incapacidade de ver a vida, olhá-la, mesmo que ao longe e ganharem coragem para a viver. Como o homem sentado, limitam-se a observar, não sem, contudo, interferirem na vida dos outros. Pois quem é pequeno tem este especial prazer que é o de interferir. Não vive. Interfere.

Alguns nunca aprenderam a viver e, por isso, não vivem. Nem sabem viver através dos outros, olhando as suas vidas imaginando-as suas. Outros nasceram velhos e não se lembram de brincar ou terem sido jovens. Eram velhos enclausurados em corpos de gente nova sem terem percebido as vantagens do erro que só a juventude tem. Limitaram-se a esperar que a velhice lhes chegasse para se sentirem verdadeiramente confortáveis: corpo e mente em sintonia. Até lá fizeram que viviam porque não vive quem não aprende a viver. E aprender a viver é coisa para durar a vida toda.

Neste Portugal dos Pequeninos é cada vez mais difícil ser grande. Porque para se ser grande não basta o tamanho mas a grandiosidade das acções. Essas, ficam para quem as pratica. No trabalho e na vida, os relatos são, invariavelmente de gente que engana e ultrapassa pela direita sem respeito pelo código. Não o da estrada. O do bom senso. Das regras de civilidade. E da civilização. Perderam-se valores e sublima-se o preconceito e a crítica, sem que o reflexo atinja quem, um dia, se vendeu por um punhado de nada. Preconceituosos e convencidos, estamos cheios de nós mesmos, ignoramos o outro e contamos apenas com a nossa capacidade para ver. Esquecemo-nos de que também somos vistos e que, quem vê, por vezes tem os olhos mais abertos do que nós. 

Há um mundo inteiro para viver. Vivamos.

Portugal dos Pequeninos

Portugal dos Pequeninos

Comemos mal. E ainda gostamos.