olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Coulda, shoulda, woulda

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Joséphine não foge. Escapa. Um atentado evitado. Quantos se seguirão, na cidade que nos faz apaixonar a cada visita? Paris será sempre o seu reduto, o local de onde parte olhando para trás, ao qual regressa inevitavelmente. Voltamos sempre ao local onde fomos felizes e Joséphine nunca chegou verdadeiramente a partir. Ausentou-se temporariamente da luz de que todos falam, aquela que nunca entendeu ou irá reconhecer, porque encontra luz em cada cidade que visita.

A luz está em nós, nessa capacidade única que cada um tem de ver o mundo, deixar-se inundar por tudo aquilo que é possível conhecer sem esquecer o que já sabemos. A vida é feita de partidas e regressos. Não pode ser de outra forma. A rotina tolda-nos a visão, essa permanente sede de vida e de viver. Trocamos o conforto disto, igual a si próprio e a cada dia que passa, por aquilo que desconhecemos e os riscos que lhe estão associados. Nada pode ser tão enriquecedor como ficarmos entre os que desconhecemos, os que não gostamos ou queremos gostar, o novo e indizível ao olhar. Aprender a ver o que não está à vista, ouvir o que não dizem, descobrir os detalhes que fazem parte de todos os dias, que tomamos por certos, amplia-nos a perspectiva, torna-nos mais fortes, capazes do desafio. Qualquer. Mesmo quando não sabemos qual será o desafio.

Fora daqui - de todos os dias - Joséphine era mais forte e destemida. Achava-se capaz de conquistar o mundo. Por isso lhe custava tanto voltar. Sentia-se sempre a regressar à dimensão que teimam em impor-lhe, à regra do diminutivo como se o mundo se resumisse a essa medida.

O mundo é maior do que possamos imaginar e só com imaginação poderemos ultrapassar as limitações que nos dizem existir. Que não existem. A não ser para aqueles cujo mundo não é mundo. Apenas um pedaço. Aquele que definem por seu, que impõem aos outros, mesmo que não caibam nesse espaço. 

Saiu, um dia, convencida de que iria sem destino, mesmo que o bilhete indicasse a partida e o regresso. Portugal tem uma espécie de manto que nos impede de ver largo e longe. Quando nos afastamos, parece tudo maior e mais evidente. Como se uma neblina nos ofuscasse, limitasse, transformasse o infinito à extensão geográfica do país.

Portugal é pequeno nas suas diferentes dimensões. Soube tornar-se imenso quando descobriu o mundo, sem conseguir conservar essa amplitude. Ou, pelo menos, parte dela. Mesmo quando se expandiu, cresceu em tamanho aparente sem abandonar, nunca, o objectivo pequenino que o caracteriza. Pensou no aqui, e no agora, explorou o óbvio, esqueceu-se de criar raízes que influenciassem, verdadeiramente, cada povo e o que lhe deu origem. Há, naturalmente, resquícios da colonização. Permanecemos em muitas línguas e nacionalidades, deixámos que cada uma delas permaneça em nós. Excepto naquele ponto fulcral que diferencia o ímpeto expansionista da necessidade de encontrar soluções para problemas que nenhuma expansão pode resolver. Falta-nos raça e carisma para desbravar o mundo sem nos assustarmos com as consequências, estratégia para ultrapassarmos a estatura a que sempre nos reduziram - ou tentaram reduzir -, a tenacidade que nos tornaria maiores do que algumas vez quisemos considerar.

Felizes os que vão, mesmo que por pouco tempo, porque voltam sem o olhar embaciado pelos vícios, estratagemas e malandrices que destroem essa capacidade de pensarmos que somos capazes, que a aparência da limitações é apenas o que nos submete a uma condição do sucesso em potência. E que nunca chega a concretizar-se porque se perde na névoa, nos atalhos, nos contratempos, destruído pelo cansaço de fazer parte de um grupo descoordenado e desconcertado que teima em remar numa permanente ausência de sincronia.

Assim vamos, dia a dia, meses, anos. Até voltarmos a sentir o ar frio no rosto, a luz que nos desconcerta, iluminando ideias que de outra forma não conseguiríamos alcançar. Na maior parte das vezes, precisamos da distância para nos aproximarmos. Permite articular o pensamento, sintonizando-o no tempo e no espaço, com um determinado agora que, por vezes, teima em permanecer na neblina. Quando se dissipa este manto que assume a forma de nevoeiro, deixamos o estado de numbness em que a maior parte dos Portugueses se encontra, ignorando o mundo lá fora, presos numa bolha que consideram ser apenas sua, protegendo-os do que possa estar para vir. A bolha existe mas não nos protege. A única bolha que pode fazer face ao que aí vem é a da criatividade e inovação que também existe, mas que tantos teimam limitar, agarrando-se ao que já conhecem, rejeitando aquilo a que se chama mudança e que é fundamental para sairmos do nevoeiro. Agora é já.

LLH: life, love & happiness

Écletisme bourjouis

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