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bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Teoria do caos

Teoria do caos

Não gosto de inércia. Menos ainda do cão que ladra e não morde. Aquela atitude de protesto sem consequência. Admiraram-me os americanos nas eleições sem, contudo, me sentir verdadeiramente surpreendida. Surpreendentemente sim, a reacção de quem, obrigado a aceitar a vitória, não se deixa derrotar. Ou pelo menos, de quem, no calor do momento, prefere planear a acção, arregaçar as mangas e manter-se à tona de água até o temporal passar. Muitos americanos saíram à rua em protesto, mesmo sabendo que esse protesto nada irá mudar. Hoje percebo que não se ficam por aqui. Pacificamente estão a tentar unir-se em torno de uma causa comum: a defesa de todos os que o actual presidente dos Estados Unidos da América ousou ameaçar, marginalizar, ostracizar e humilhar durante a sua campanha eleitoral. Não faltam apelos no Twitter para a reunião em torno de uma causa comum. Porque a vida é feita de causas. Temendo a perseguição planeiam gerir o medo, derrotando o ódio, através do amor. Porque continuamos a acreditar que o amor acaba sempre por vencer. É assim nas histórias de amor que nos contaram. Pode ser também assim na vida real. Basta deixarmos.

© Anders Held

© Anders Held

© Anders Held

© Anders Held

Na rua, nas redes, nas conversas, as pessoas indignadas e eu sem saber exactamente o que escrever. Sei o que pensar. Acima de tudo, sei que demasiadas vezes nos interessa a política alheia. O que se passa na terra dos outros. Será assim ou estarão hoje todas as terras e contextos interligados?  Neste caso, há curiosidade, interligação, com razão. Afinal, a Teoria do Caos é mesmo assim, pois quando uma borboleta bate as asas em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque. E Nova Iorque, com ou sem borboleta, está ao rubro.

Teoria do caos no seu melhor?

Esta é uma nação enorme, no que respeita à dimensão e população, para ser ignorada e pode, por isso, controlar directamente o que acontece em todo o mundo. Afinal, a borboleta não está em Tóquio...  Os E. U. A. são uma potência militar, política e, economicamente, controlam muito do que se passa aqui, deste lado do oceano. Juntamente com a borboleta de Tóquio, dominam a economia mundial. Se por um lado as pessoas não aceitam um Presidente com um all day bad hair day, por outro deitam lágrimas de crocodilo em relação a Mrs. Nasty e começam já a aplaudir a senhora que se segue, prevendo-se que passe de 1ª Dama a all mighty dama.

Não sei - não sabemos - o que acontecerá amanhã mas sei que os primeiros 100 dias de Trump serão, no mínimo, muito pouco consensuais. Também sei que Michael Moore, que tem por hábito colocar o dedo na ferida e rodar para ver o circo pegar fogo, mostrando os meandros do poder e da sociedade americana, já se manifestou. O que quer sempre dizer qualquer coisa...

Continuemos a vida e a viver, pensando que não nos deixaremos derrotar. Pelo menos, não assim. Hillary tornou-se aparentemente a candidata perfeita porque não se desbragou como o fez Trump. Sempre tive dúvidas sobre a sua auréola e basta olhar para a evolução da comunicação em torno desta candidata para perceber que estava longe de ser perfeita. Não que Trump o seja. Muito longe disso. Adjectivar os "ismos" deste candidato transformado em Presidente é desnecessário... Contudo, a sua vitória é, apesar de tudo, útil. Serve para nos recordar que o mundo muda, mas não muda assim tanto. Que se vai alterando, mas não tão depressa quanto gostaríamos. Se Hillary tivesse ganho, muitos aspectos relativos ao papel da mulher na sociedade poderiam mudar. Por imitação, as suas acções nos Estados Unidos seriam seguidas atentamente por outros países, provocando um lento efeito de osmose. Na verdade, o que temos agora é um retrocesso. Ou a ameaça desse retrocesso. Uma cabeleira alaranjada que atenta contra a de qualquer mulher. Mas pode ser, também, entendida como uma notificação para continuarmos, sermos cada vez mais unidas e fortes - coisa que não somos, estarmos atentas àquilo que se passa no mundo - que não estamos, para pressionarmos a evolução do mundo.

Se ganhou, alguém votou em Donald Trump. Já sabemos que muitas mulheres votaram no vencedor porque não se identificavam com Hillary, vista como a candidata do sistema e, por isso, longe de ser a candidata ideal. Era, para muitos, o menor dos nossos males, uma porta aberta (ou entre-aberta) para as questões da igualdade e diversidade. Mas não era garantia da mudança. Não estou a defender Trump. Nem os votos em Trump. Mas temos de entender que um reality show é um reality show, no qual ganha o concorrente mais controverso. Ganha sempre aquele sobre quem recaem as atenções, abafando, no caso, a política nacional, mantendo-nos afastados daquilo que mais directamente nos afecta. Também temos a nossa política de cordel, os nossos momentos altamente romanceados, transformados numa novela que optámos por ignorar ao longo das últimas semanas. Em relação às nossas, as séries americanas são mais populares por alguma razão...

Há um ano estava de viagem marcada quando atacaram Paris. Se os terroristas impediram uma reunião porque as fronteiras foram fechadas, não impediram, contudo, a realização do maior encontro mundial na área da rádio, meses depois. Se pensámos e repensámos a questão? Sim. Se decidimos manter a localização planeada e já anunciada? Sim. Mantivemos a nossa decisão e, apesar de tudo, tivemos casa cheia. Foi um dos maiores RadioDays Europe - talvez mesmo o maior - que esteve para ser cancelado por causa do que aconteceu em Paris. Não tem comparação mas, se agora, como antes, baixarmos os braços, assobiarmos para o lado ou nos rendermos, estamos a ceder ao medo. Trump não é um terrorista. Mas mete medo, razão pela qual muitos americanos já saíram à rua protestando contra a sua ideologia...

Não sou solteira. Mas, se fosse, também (não) gostava...

Não sou solteira. Mas, se fosse, também (não) gostava...

Tramp, though not TRUMP.