olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

5 horas (II)

5 horas (II)

Há uma semana escrevi um artigo sobre este drama que é trabalharmos mais do que deveríamos (devemos) apelando a uma tendência que aponta para uma jornada de 5 horas. Experimentei e resulta. Contudo...

Não é verdade que cheguem cinco horas para um dia de trabalho, pela simples razão que não inclui, nessas cinco horas, todo o trabalho não remunerado que está associado ao trabalho remunerado e o outro, aquele que também nós, ignoramos, e que não é dedicado a momentos de lazer.

As compras no supermercado, a fruta na frutaria, o pão na padaria, os chinelos para a natação que é preciso trocar, o documento que é preciso ir entregar, o pagamento das propinas, o gasóleo para o carro andar, a preparação de refeições e o tempo na cozinha, a roupa lavada e por lavar... Os detalhes da vida que nos ocupam tempo e que, na maior parte dos casos, sobram para quem, na família, tem mais tempo. Quem tem profissões liberais. Quem trabalha em casa. Quem, não tendo uma profissão liberal, pode fazer a gestão do seu tempo. Quem optou pela regra das cinco horas...

Se, contudo, excluirmos estes pequenos detalhes selvagens que nos interrompem dois aspectos importantes: o trabalho e o descanso, as cinco horas podem chegar, desde que sejam geridas de forma eficiente. Há contudo, muita injustiça neste processo, porque há quem trabalhe 8 + 5 horas e nem assim o trabalho chega a estar concluído. Imagino quem trabalhe por objectivos, por conta própria ou que tenha a seu cargo a gestão de clientes. Que os visite e se desdobre entre reuniões. Não há tecnologia que garanta que o trabalho de follow up se faça sozinho, que as encomendas e sua efectiva gestão se processe sem intervenção humana. Que ocupe o seu tempo depois das reuniões ou do tempo passado com clientes tratando... "do resto"... Lembrei-me também de profissionais ligados ao ensino e ao exercício físico os quais, depois de um par de horas (normalmente 5 ou mais) a dar aulas, ainda precisam de tempo para a sua rotina de treino (dar uma aula não equivale a fazer uma aula) e preparação de aulas. Ou correcção de trabalhos, acompanhamento de alunos, esclarecimento de dúvidas... Nestes casos as 5 horas são uma mera ilusão...

Também dizem que "quem corre por gosto não cansa" e isso também não é verdade. Cansa. Mas não desmotiva, o que é diferente. Orgulho-me de poder trabalhar onde quiser, facto que se vira frequentemente contra mim. Porque estou em casa e poderia (acrescentem o que quiserem porque começa sempre com "ter feito qualquer coisa que nada tem a ver com o meu trabalho") ou porque tive o privilégio de usar o computador portátil e trabalhar numa esplanada virada para o rio (esquecem-se de que tive de acelerar o ritmo porque a deslocação também conta para o total das 5 horas), ou porque posso fazer o que quiser e trabalhar quando me apetecer. 

Não é assim. Não ter horários, obrigações ou definições específicas obriga a uma capacidade de organização, resiliência, concentração, responsabilidade e auto-realização que nenhum procrastinador tem. Nada contra. Também já fui lavar tachos para evitar uma ou outra tarefa e coloquei a pesquisa sobre a melhor forma de limpar janelas à frente de algumas actividades realmente importantes, para as concretizar no último momento, com o relógio em contagem decrescente. Quem nunca?...

É substancialmente mais fácil ter um horário e local de trabalho definido do que a liberdade de escolher trabalhar no gabinete da faculdade, no da RTP ou em casa. Também facilita saber exactamente que tarefas nos estão adjudicadas para aquele dia, do que ver crescer a lista de afazeres sem aparente solução. Depois do que escrevi na passada Segunda-feira arrisco-me a ser tomada por uma grande mentirosa. Que não sou.  Porque as cinco horas são, de facto, contra tudo e contra todos, e para a maior parte das profissões, possíveis. Para a semana explico-vos como...

@nolanissac

@nolanissac

About misconceptions (mal entendidos)

About misconceptions (mal entendidos)

OFFLINE

OFFLINE