olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

Spotlight

Ontem, enquanto assistia à ante-estreia do filme Spotlight não consegui deixar de pensar que não há duas semanas iguais e que, tão depressa o urbanista está recheado de waffles e outras coisas fora de portas, como tem cultura dois dias seguidos. Estreia esta semana a peça de teatro Arte, no Tivoli, na Av. da Liberdade, com o mesmo texto, nova encenação e outro elenco. Gosto muito da ideia e do texto, por isso sou suspeita. Caso queiram saber mais, espreitem aqui.

Ontem sentei-me tranquilamente a assistir ao Spotlight. O caso Spotlight, em português. É igual. Uma e a mesma história sobre a qual sou igualmente suspeita para escrever. Passa-se num jornal e há lá coisa mais estimulante do que farejar notícias e descobrir coisas para publicar? Na altura publicava-se em papel e acrescentava-se um URL ao fim do texto.

"Podemos colocar um URL no fim da notícia. É muito simples".

Tão bom. Tão antigo. E foi apenas há 15 anos. Uma eternidade? Só na era da comunicação em rede, com a sua estonteante velocidade e instantânea disseminação. Uma estória destas não se aguentaria tantas semanas sem verter para o twitter. Aguentaria? Não sabemos. Há tanto que não sabemos, como não sabiam, na altura, pela sublime capacidade que a organização da Igreja Católica (ainda) tem de esconder o que não quer que se encontre.

Este é um filme baseado em factos reais. Uma espécie de Watergate dos tempos modernos que levanta o véu daquilo que, há uns anos, se descobriu nos Estados Unidos: uma intrincada colecção de casos de pedofilia abafados pelas esferas mais elevadas da Igreja Católica. Começou em Boston. Os relatos desvendam casos no mundo inteiro. Que outros Watergate's haverá para descobrir?

Na vida real os jornalistas do Boston Globe receberam um Pulitzer. No filme não sei, mas estão nomeados para 6 Óscares, incluíndo o de melhor filme. Sentei-me sem nada saber. Tinha visto umas imagens na Internet sem prestar muita atenção. Melhor assim, quando não temos expectativas e nos deixamos surpreender com a entrada dos actores em cena, as vozes que se cruzam e a narrativa que evolui. Naquele momento em que começamos a escorregar na cadeira do cinema, despertei quando um actor secundário - muito secundário - afirmou que no dia anterior tinha navegado na Internet, surpreendendo-se com a quantidade e variedade de informação disponível. Revelava que tal era, no mínimo, assustador e uma eventual ameaça à sua profissão. Era um padre que falava numa missa - momento paralelo, para percebermos como a investigação influenciaria modos de pensar e atitudes de uma das jornalistas. Porque, afinal, um jornalista é isento mas não é uma pedra. E deixa-se afectar com a miséria humana. Verei algum dia um padre no Snapchat? Isso sim, seria assustador. Não o volume de informação que, na altura, existia na rede.

Não sei o que vão dizer os críticos sobre o filme e frankly my dear, I don't give a damm porque aa coerência entre críticos é pouca e, entre algumas posturas pseudo-intelectuais e a realidade, também. A Igreja talvez não tenha gostado, porque o filme revela não apenas os factos relativos aos casos de pedofilia em Boston mas, também, as suas consequências: mais de mil pessoas abusadas, a religião em descrédito e a Igreja mais ainda, traumas escondidos com álcool e drogas. Este é um filme que, através de uma estória bem contada, com personagens sólidas e bem construídas, nos mostra que, mesmo que quiséssemos, a nossa vida seria indubitavelmente mais pobre sem um jornalismo independente, com recursos para investigar e garantir um sociedade justa e informada.

Não conto a estória do filme porque não sou spoiler, mas recomendo-o a todos os que gostam de uma boa intriga, especialmente aos que vibram com o dia-a-dia numa redacção. Os exteriores mostram Boston e, se estivermos com atenção, conseguimos seguir os percursos das personagens no mapa. Uma curiosidade: um dos jornalistas afirma-se de ascendência portuguesa. Se virem o filme vão perceber que o apelido só é um bocadinho semelhante a um apelido português... Outra curiosidade: andei a pesquisar alguns dados sobre o filme e é interessante verificar as semelhanças físicas entre os actores e os jornalistas que, na realidade, faziam parte da equipa Spotlight. Sobre o resto, vão ter de ver o filme.



Amor? Espaço.

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