olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

O prazer do silêncio

by Mallory   Johndrow

by Mallory   Johndrow

Porque há pessoas que não sabem calar. 

Porque há alguns que perseguem o aforismo "falem mal, mas falem de mim" à exaustão.

Porque há alguns que perderam a noção.

A questão não é nova nem se esgota. Ontem brinquei com o tema, hoje cansei-me de o ouvir.

De quando em vez aparece um novo herói que nos escolhe para heroínas de uma história que é só sua. Há uns tempos um tal de Pedro Arroja armou-se em arrojado, lançou uns disparates para a esfera pública e foi gozado de todas as formas possíveis nos sites de redes sociais. Na rua. Ao telefone. Nos media. Para o substituir, Jerónimo de Sousa tentou ser engraçadinho. Não conseguiu, mas andou perto. Opções de candidatos engraçadinhos e populistas? Jamais. Não são capazes de mudar. E o resultado está à vista. Pobre Edgar...

Política e politiquices à parte, creio (espero) que Jerónimo de Sousa não terá tido a exacta noção do que estava a afirmar. Porque a afirmação não era apenas uma farpa ao Bloco de Esquerda e à escolha da sua candidata, cujos resultados, admitamos, foram surpreendentes. A afirmação é triste, antiquada, despropositada e sexista. De facto, revela aquilo que expressou ao terminar a sua intervenção: não mudam e a derrota não os desanima. Mas desanime-se porque de mulheres sérias não verá muitos votos no futuro, para recorrer a algumas das palavras sábias dessa noite.

Quem me lê sabe que não sou de comentar a política, de embandeirar ou embarcar em politiquices mas, não resta qualquer dúvida que esta não é uma questão política. Jerónimo cometeu uma gaffe que o irá perseguir durante muito tempo. Consta que não pensa assim e que o PCP tem sempre os direitos das mulheres em mira. Quem diria... 

Engraçadinha/o é uma forma depreciativa de caracterizar uma pessoa. Pior se for uma mulher. Pior ainda se for num discurso político de derrota em que uma outra candidata - do sexo feminino - se destacou. Mau perder e machismo na mesma frase ficam mal a qualquer um. Pior ainda numa altura (praise the Lord!) em que os direitos das mulheres estão na ordem do dia e as desigualdades (incluíndo as de género) também. Estamos em pleno século XXI e continuamos a não conhecer a numeração romana, trocando a ordem dos números. XXI não é, nem pode ser XIX, muito embora algumas mentalidades tenham cristalizado na passagem do século. Dezanove. Por extenso, para se perceber melhor.

Não somos apenas bonitas ou inteligentes. Podemos ser bonitas, inteligentes, eficientes. Com piada e chamando à atenção de uma grande audiência. Isso não faz de nós engraçadinhas. Ou populistas. E, se fizer de nós populistas, so what? 

As pessoas também se definem pela sua aparência e esta é determinante em muitos cargos e profissões. Mas não pode nunca determinar-nos e ao nosso valor. Porque somos uma gaja boa, uma mulher bonita, uma rapariga simpática mas muito feia, uma inteligente que é mesmo gorda. Porque nos arranjamos. Porque parecemos descuidadas. Porque assim. Porque assado. Incomodamos?

Não faltam exemplos na política nacional da subida a pulso das mulheres, enquanto ouviam comentários que as deitariam abaixo e poderiam ferir todas as outras mulheres, não fosse a tenacidade que nos é tão característica. De mal vestida a pin-up, algures no meio termo está o segredo do sucesso. Que nenhuma de nós sabe exactamente qual é...

 

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Coisas que fazem pensar III