olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

Ei-los que partem. Que fogem

Ei-los que partem. Que fogem

 

Ontem escrevi aqui sobre o amor. Esse. Tórrido, apaixonante, desgastante, sem limites. Aquele que sabemos que acontece uma vez na vida e que se repetirá, de tantas outras formas quantas o nosso coração quiser. Porque é este amor aquele que mais facilmente se transforma em desamor. Aquilo que ninguém quer. Aquilo que, tantas vezes, nos impede de regressar ao amor.

A propósito do amor, enviaram-me esta fotografia. Carreguem para ampliar. É duro. Porque assim, pequena, parece uma foto de um casal de jovens enamorados num qualquer acampamento. Mas não é. É a prova de que o amor não tem barreiras nem encontra limites para acontecer. Acontece mesmo em situações limite. Como esta.

Syrian refugee couple stealing a kiss under a tent. taken at Budapest's Keleti train station on August 30 by Hungarian photographer Zsíros István (Laleh Khalili)

Syrian refugee couple stealing a kiss under a tent. taken at Budapest's Keleti train station on August 30 by Hungarian photographer Zsíros István (Laleh Khalili)

Há muito que queria escrever sobre isto. E, agora que o estou a fazer, não escrevi a que "isto" se refere porque o tema Síria e refugiados é demasiado complexo para se resumir em poucas palavras. Ainda não tinha escrito por não saber o que escrever. Como escrever. Porque não sei o que é ser refugiada ou migrante. E porque não entendo a razão pela qual um dia são refugiados e outro são migrantes. Também não sei o que é ser retornado. Nem o que é ser emigrante.

Não imagino o que poderia sentir ou pensar se chegasse a casa e, a casa, a minha casa, a rua, a minha rua e o meu bairro, não existissem. Se fossem um monte de pedras e entulho. Se, nos arredores, em vez de pessoas a passear os cães ao fim do dia e jovens com mochilas ao ombro, estivessem milícias, militares ou qualquer outra força armada, com armas ao ombro. No lugar das mochilas.

Porque foi isso que aconteceu a muitas destas pessoas. E, mesmo que os maus estejam infiltrados, poderemos parar o vento com as mãos?... 

Ninguém conseguiu impedir o 11 de Setembro, o 11 de Março em Madrid, o atentado em Londres em 2005 ou outros tantos que aconteceram. Porque razão havemos de impedir estas pessoas de fugir porque outras são indesejadas?... Porque havemos de fechar as nossas portas? E porque entre nós já existem problemas que cheguem, não seremos capazes (também) de ajudar?...

Um dia chegámos ao mundo e instalámo-nos. Mudámos hábitos e mentalidades. Alterámos modos de vida porque os nossos eram (supostamente) melhores. Talvez fossem. Ou talvez fossem apenas, diferentes.

Numa primeira fase, as pessoas que tinham esses outros hábitos aceitaram. Ou foram obrigadas a aceitar. Instalou-se a paz e a aparente harmonia. Depois, renovaram forças e escorraçaram-nos. Mas já havia sido criado um outro mundo que misturava os dois, dando primazia ao nosso. E esses, que foram pensando que iriam viver num admirável mundo novo, tiveram de voltar. Na sua maioria, não voltaram. Fugiram para onde lhes pareceu mais lógico, porque nunca cá haviam estado. Sim, estou a falar dos retornados, essa palavra tão pejorativa que sempre usamos para designar os que retornaram de África. Incluindo aqueles que são africanos e que vieram para aqui, fugindo do que se passava ali. Mal comparado, é o que acontece a quem está a tentar entrar na Europa. Com a diferença que não há gente a retornar, apenas gente a fugir.

O que é que isto tem a ver com o amor? Tudo.

 

 

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Amor sem livro de instruções

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