olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

Setembro

Foi deitada numa piscina que não é minha, debaixo de um sol que não é o meu, a ler um livro que também não me pertencia que finalmente realizei o tanto que me faltava. Aprendi muito com os grandes escritores mas nunca consegui aprender o método e, por isso, sou a mais anarca das candidatas a escritora. Só escrevo quando me chega a inspiração - e chega sempre debaixo da água do duche, deitada na cama naquela fase de pré-sono em que ainda estamos conscientes, mas não o suficiente para sair da cama e começar a escrever, sentada num avião, lugar apertado entre passageiros que me inquietam - nos mais absurdos momentos. Especialmente quando, à minha volta, tudo me impede de escrever, todos me querem falar ao ouvido, gritar ou questionar. Não me querem deixar escrever e a escrita quer fluir, como só acontece a quem tem muito para dizer e pouco tempo para contar.

É sempre difícil encontrar o caminho de volta quando nos enganamos no percurso. Voltamos atrás e procuramos o rumo certo. Pedimos direcções e nem sempre aqueles a quem perguntamos nos sabem indicar o que procuramos. Ao contrário de estar perdido numa cidade, perdermo-nos de nós, do caminho que supostamente nos definiu, não permitindo que outros nos mostrem a direcção. E perdemos tempo, damos voltas até, surpreendente e aleatoriamente, percebermos onde falhámos ou o que fazer para retomar a rota.

Foi assim, há muito tempo. Perdi o Norte e não sabia como o encontrar. Andei às cegas. Apalpei terreno, sempre arenoso. Decidi que não cruzaria os quarenta sem redefinir o que faltava. Fui encontrando aos poucos e, a dias do fim do prazo que me defini, sabia que ainda não estava tudo no sítio certo. Até que o livro veio ter comigo, numa viagem não definida, não planeada, totalmente inesperada. Por isso, tudo passou a fazer sentido e o caminho definiu-se sozinho.

O caminho é este. Só pode ser este.

Leio as palavras simples, mas sábias, de quem escreve como profissão. De quem tem essa mestria em contar histórias, capaz de transformar a descrição de uma pedra numa alusão retórica, sem metáforas, sem alegorias, repleta de sentido. Apelando aos nossos sentidos, recriando a pedra e o seu contexto na nossa imaginação, essa capacidade única e infalível que nos permite criar. Aos outros, recriar. Quero ser assim e fazer isso para sempre. Dizem que voltamos quase sempre ao ponto de partida e o meu ponto de partida foi este. O das estórias. Contadas de múltiplas maneiras, montadas e estruturadas em diferentes formas e formatos. Que abandonei quando também eu me abandonei. Porque muitas vezes temos de nos perder para nos reencontrarmos e, no reencontro, recuperarmos tudo o que pensávamos estar perdido. Nunca está. Até ao momento em que se dá a tomada de consciência. Pode ser aqui ou ali. Em actos tão simples como um duche de água quase fria, num quarto de hotel em Marraquexe.

Uma hora por dia. Como tantos já me haviam aconselhado. Só quando somos nós a inventar o método, este vale. Por isso, não se encontra o que se procura. Temos de ter essa capacidade para saber esperar. Esperar que, não procurando, o que procuramos nos encontre. Obrigada Miguel (*) pelas descrições. Pelas memórias e os apontamentos da vida que me trouxeram, finalmente, a epifania à beira da piscina.

(*) Miguel Sousa Tavares, "não se encontra o que se procura", 2015

O Urbanista teve avanços e recuos. Com todo respeito, nunca o quis semelhante aos blogues de lifestyle mais populares. Porque sempre soube que não conseguiria acompanhar o ritmo das suas produções. Porque até pode ser muito interessante criar relações com as marcas, mas there's much more to it. Era a ânsia de escrever, de contar e partilhar que me movia. Mas também, a necessidade de provar que um determinado modelo multimédia e interactivo faria sentido. Tenho as munições, faltam-me as armas para dominar um contexto que muitos teimam em ignorar. E descobri rapidamente que é quando sou eu, quando prevalece a minha opinião e modo de ver o mundo que as pessoas correspondem. Portanto, há público para algo que não é, nem deixa de ser. Que pode ter uma identidade própria e que é, por natureza, difícil de definir. Não são melhores, as coisas que não conseguimos decifrar à primeira?

Não é, por isso, um projecto de lifestyle. Será, quanto muito, o meu estilo de vida, que gira em torno da comida, da actividade física e dessa capacidade que teimam em querer-nos tirar, de pensar.

Todos os projectos evoluem. Ou devem evoluir. Este tem evoluído, com a natural redefinição, ainda que de forma extremamente rápida, acompanhando a velocidade da minha própria mudança. Não esperem, por isso, o mesmo, dia após dia. O mundo muda e nós mudamos com ele. A uma velocidade que nos é cada vez mais difícil acompanhar. As hashtags vão continuar a dominar, assim como as estórias. Mas vai ser a minha forma de ver o mundo a dominar cada hashtags em vez de se deixar dominar por categorias fixas. Mesmo que sejam as hashtags. Da moda.

Apontamentos sobre tendências e reflexões, por vezes muito críticas dos contextos da sociedade contemporânea, com principal incidência no consumo consciente, estilo de vida saudável e esse alegre hábito que todos temos de apontar o dedo aos outros... As mulheres sempre em primeiro plano, a desigualdade e crítica social de que são alvo, numa tentativa de mostrar ao Mundo e, especialmente, às mulheres, que a vida é melhor com uma auto-estima inabalável e um amor próprio intocável.

Tudo começou no Dia Internacional da Liberdade e essa será sempre a sua marca d'água. Porque também é de liberdade que aqui se fala. A liberdade de sermos quem somos, de pensamento, de expressão. Seja ela qual for. Setembro não tem de ser um issue. Mesmo que este seja o issue de Setembro...

Endless Summer 💙

Endless Summer 💙

Fugir da fila não é o mesmo que fugir da guerra...

Fugir da fila não é o mesmo que fugir da guerra...