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A realidade nem sempre é elegante

A realidade nem sempre é elegante

Há momentos em que acordo e penso que nada vale a pena, que somos todos um bando de egoístas e outras ideias sobre a chamada crise de identidade, em que nos questionamos sobre o nosso propósito de vida, ou o que andamos aqui todos a fazer. E, depois, seguem-se os pensamentos sobre o que temos, e valorizamos, para concluir que andamos todos equivocados sobre a verdadeira essência das coisas. Que damos importância ao que não é de valorizar, que perdemos tempo com o que pouco interessa quando, ao nosso lado, está tanto a acontecer. 

Olharemos para o lado? Quando o fazemos tentamos ignorar. 

Não estou a criticar. Apenas a reconhecer que também o faço. Embora não consiga ignorar. Não faz mim uma pessoa melhor do que qualquer outra. Quando posso, envolvo-me. Quando me toca não faço de conta que não vi. E todos os dias vejo o que preferiria não ver. No caso, é impossível ignorar pessoas que vivem na rua. Todos os dias passamos por elas, pelos seus pertences, pelos espaços que ocupam na rua. 

Optamos, quase sempre, por olhar em frente.

A Association Aurore não olha em frente. Olhou com olhos de ver para a situação dos sem abrigo em França e recorreu à moda, ao design e à elegância para dar a volta a estes conceitos, fazendo-nos olhar para o que habitualmente tentamos ignorar. 

“Tenham a elegância de ajudar aqueles que não têm nada”

Aurore é uma associação Francesa que luta contra a precariedade e exclusão social. Esta campanha pretende chamar a atenção para um problema que não está na moda mas afecta muita gente. E, por isso, em vez de modelos e vestidos, usa apelidos famosos, de criadores franceses, relacionando-os com a realidade dos sem-abrigo. Independentemente da dimensão do problema em França, para quem não quer virar a cara e  prefere encarar a verdade, os números em Portugal apontam para mais de cinco mil sem-abrigo. 

E serão certamente estes, os últimos a terem preocupações com o design ou estilo da sua roupa. Por isso me parece tão forte esta mensagem que nos chega de França. Porque a moda não é apenas sobre roupa e, quando é, pode querer dizer muito mais do que roupas bonitas. Pode ser um elemento de contraste, entre o tudo e o nada, apelando à solidariedade.

A questão dos sem abrigo não é recente mas tem ganho visibilidade pública. Tal não quer dizer que existam mais sem abrigo, como começava uma das notícias que li. Efectivamente, os dados são, a meu ver, preocupantes: Em 2014 o DN noticiava que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa saiu à rua para contar os sem abrigo, registando 852 pessoas (343 dos quais em centros de acolhimentos). Neste número incluíam-se também as 454 pessoas que responderam a um inquérito. Este demonstrava que 139 vivem na rua há menos de um ano e 21 têm estudos superiores.  Moda? Não. Flagelo social.

Também em 2014, com números do ano anterior, o Público escrevia que 4.420 pessoas viveram em jardins, estações de metro ou camionagem, paragens de autocarro, estacionamentos, passeios, viadutos, pontes e abrigos de emergência de Portugal. Este ano, o Observador, com dados de 2011 e 2012, publicou uma notícia na qual se pode ler que mais de um terço dos sem-abrigo em Portugal estão na região de Lisboa e Vale do Tejo.

Há uma semana a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa procedeu à recontagem dos sem abrigo na cidade, concluindo que há menos sem abrigo. Boas notícias? Não, enquanto existirem pessoas que dormem na rua. Ao que parece, há menos 37 pessoas nesta situação, avança o Público mas, no entanto, há pessoas mais novas, casais e crianças, faz notar o DN. Eu sei que este não é um tema fashion, sequer um tema que interesse a muitas pessoas. Fica sempre nas páginas dos jornais e nos noticiários da rádio e TV como um tema obrigatório, um dos quais é fundamental abordar sem, contudo, se verificar uma verdadeira intervenção social. No Canadá, uma cidade conseguiu por fim ao flagelo. Exemplo a seguir? Quem sabe?... Focando-me em Lisboa, cuja realidade conheço melhor, há iniciativas várias da CML e das Juntas de Freguesia para um problema que ultrapassa, claramente, o domínio da autarquia. Como outros temas, é uma questão social que teimamos em ignorar, sentados no sofá a ver os números e as estórias de quem vive na rua. Quanto a vocês, não sei mas, para mim, não são apenas números. E a serem, são dos me que incomodam e suscitam a curiosidade sobre o podemos fazer para alterar o estado das coisas…

Imagens retiradas do site da Association Aurore - VER

#homeless #social #wecare

pequenos segredos

Correr cansa. Mesmo quando dizemos que não.

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