olá.

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Entre (III)

Nos Açores ouvi as mais encantadoras histórias sem, contudo, se tratarem de estórias de encantar. Na Horta, que todos conhecem pelo Peter Café Sport descobri a história de um espaço feito de pequenas estórias dos que cruzam os mares. Esses aventureiros, como ficam conhecidos no Faial. Tudo começou no século passado, uma loja de produtos artesanais que depois também vendia bebidas. Que cresceu para passar  a ser uma espécie de entreposto para navegadores e que se assumiu como Peter por razões que apenas o coração pode conhecer.

O Peter nunca se chamou Peter mas foi assim que se tornou conhecido. A história, contou-me pessoalmente José Henrique, o seu filho e a terceira geração a conduzir o espaço mais famoso do oceano Atlântico, no qual o bife e o gin&tonic fazem as honras da casa. Acima de tudo, o que distingue este Peter é a amabilidade acolhedora com que nos recebe, mesmo tendo atravessado o mar num avião. Isso não importa para quem se orgulha da sua história e gosta de a partilhar.

Há muito que não conversava com alguém com apontamentos de história tão interessantes, com tantos pequenos segredos e detalhes como o José Henrique, actual proprietário do Peter Café Sport e do museu Scrimshaw (*) cujo espólio depende unicamente de uma seleção estética feita ao longo do tempo.

A sua narração visual levou-me atrás no tempo, situando-me num Faial centenário, no tempo da instalação de cabos submarinos, caça à baleia e em que este era um dos mais importantes portos do mundo. Não faltavam navios, companhias inglesas, alemãs e norte-americanas que criaram um movimento de gentes e ideias, bem como estórias de baleeiros e da importância da caça à baleia para a economia local. O Peter, que sempre ajudou o pai no negócio e também trabalhava num navio estacionado no Faial para reparação durante a II Guerra Mundial, na verdade era Português e não se chamava assim. Tornou-se conhecido como Peter por ser parecido com o filho do comandante do navio no qual trabalhava. A saudade, juntamente com a aparência do jovem José transformou-o em Peter a pedido do comandante. Para a vida. Enquanto Peter, ajudava o negócio familiar tendo-o transformado naquilo que é hoje: um ponto de encontro e de apoio aos navegadores. Começou por tentar ajudar os que aportavam e que, por razões de saúde não podiam abandonar os veleiro antes de um atestado de saúde ser certificado pelo médico local o qual, por razões que se entenderão, só se deslocava ao Porto quando navios cheios de gente aportavam. Pobres navegadores que chegavam a estar semanas ancorados sem poderem vir a terra. Verdadeiro percursor do marketing de serviços e do marketing relacional, era o Peter quem os ajudava, visitando-os e assegurando ao médico que estariam de boa saúde, levando-lhes os atestados assinados e carimbados, convidando-os igualmente a conhecerem o seu café e oferendo ajuda pararesolver qualquer problema mecânico ou técnico na embarcação. Ligava pessoas entre si e passou a ser a posta restante na ilha, transformando a forma de comunicação entre navegadores, bem como com os que estavam em terra. As cartas passaram a ser enviadas para o Peter Café Sport e o painel superior do balcão ficava recheado de recados, para transmissão de mensagens entre navegadores. Único. Brilhante.

Hoje, a sua relevância para a comunicação no mar é menor, mas não desprezível. Continua a ser o ponto de encontro que sempre foi, com bifes tenros como nunca antes comi, um creme de batata doce de raspar o prato e o gin que dispensa qualquer comentário...

Resta apenas perceber a designação Sport, que tem uma explicação muito simples. Influenciado por ingleses e norte americanos, foi Peter o percursor do desporto na ilha, como adepto e praticante, razão pela qual também esse aspecto da sua vida ficou reflectida na designação deste local, mais pequeno do que imaginamos e, no entanto, enorme na sua dimensão, estendendo-se, por via marítima, a todo o globo.


(*) Scrimshaw é a arte de gravar imagens nos dentes de cachalote, num processo minucioso que exige precisão e abstracção para trabalhar em negativo, ou seja, os traços que são gravados no marfim serão depois cobertos de tinta. O que permanece branco será o contrário daquilo que estaríamos a ver sem tinta. Complexo? Sim, até para explicar. Mas não para apreciar, porque a colecção merece ser vista ao vivo.


Nasceste para isso. Não queiras mais...

Entre (estórias dos Açores)