olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

Entre (II)

Fui aos Açores mas, de todo, conheço os Açores. Se comparados a uma grande metrópole, nada acontece nas ilhas. Marasmo total. Mas os Açores estão a mudar e para além de uma dinâmica própria, revelam um novo arrojo, com um certo movimento artístico e cultural. Sem o roteiro incessante de Lisboa, acontecem coisas nos Açores, provavelmente de forma mais selectiva, demonstrando que as ilhas não são apenas o verde dos pastos e as vacas que os circundam. Na verdade, nunca vi tantas vacas, mesmo não tendo fotografado nenhuma, e nunca vi um verde tão verde. Há vacas por todo o lado, pastando calmamente, tão perto e tão longe do bulício da vida moderna.

Os Açores estão modernos, sem os aspectos negativos que a modernidade aporta. Sem a pressa das grandes cidades, o barulho das coisas ou a interferência que este ritmo nos impõe. Estranhamente, apeteceu-me ficar. Não para sempre, porque o sempre é longe demais, mas deixar-me estar só porque sim. Porque também senti que os Açores poderiam precisar de mim, como eu senti precisar desta calma e afectividade que aqui encontrei. Não me admira que grandes vultos da literatura nacional tenham raízes aqui ou que figuras actualmente relevantes no panorama internacional, resultado da emigração, sejam açoreanos de alma e coração.

Há algo aqui que não encontrei em nenhuma outra região do nosso país a qual, lamento, não sei explicar... Não sei se resultará da insularidade, da distância, da dimensão de cada ilha ou da relação entre essa dimensão - pequena - e a grandiosidade que aparentam as ilhas que visitei. Ouvi das estórias mais bonitas de sempre, conheci pessoas cuja simpatia excedia a obrigação e vi locais que não têm equivalente. Não podem ter. Não há outro verde assim.

Elogiar refeições em Portugal é comum, mais ainda nas ilhas, especialmente, nos Açores.

Peixe fresco que sabe a mar, legumes com um sabor intenso e carne que se desfaz na boca. Tudo verdade. Não hesitaria em voltar para um roteiro gourmet. A proximidade entre as pessoas é maior, típica de localidades pequenas em que todos se conhecem e a recepção a quem vem de fora excede todas as expectativas. Não é uma simpatia forçada pelo negócio mas antes pelo prazer de bem receber. De mostrar o que tem de melhor cada local e dar a conhecer as especialidades da casa, que não encontramos no continente.

Provei uma mistura de cerveja e laranjada da qual terei muitas saudades. Nem a cerveja é a mesma e muito menos encontrarei a laranjada Melo Abreu.

As lapas, que já temos em Lisboa, são outras. Mais frescas e carnudas. Sabor melhorado. Comia-as a cada refeição. Sem hesitar. As cracas... Um pouco do mar à mesa, extraídas da rocha são mesmo um pedaço de mar porque o que se come está em pequenos buracos, o que quer dizer que a apanha implica estar debaixo de água para partir pequenos pedaços da rocha. Único, sem dúvida. Cozinhadas com a água do mar que se bebe,  para provarmos isso mesmo: o sabor do mar. Que não é o mesmo que engolir um pirulito quando mergulhamos.

Experimentei peixe que não conhecia e legumes cozinhados ao vapor num papelote de alumínio, provocando uma experiência de sabores e texturas que se apenas entendem na sua intensa suavidade. Descobrir é bom, mas descobrir guiados por aqueles que conhecem o local permite-nos navegar no encantamento da descoberta. Temperadas com alho e limão, acompanhadas com batata doce e arrematadas com canela, as refeições nos Açores despertam-nos os sentidos, levam-nos de volta a tradições perdidas e estimulam o nosso imaginário em torno da ideia de felicidade na imensidão do mundo e do oceano.

Apetecia-me voltar já e repetir, agora.

Entre (estórias dos Açores)

Até depois do fim