olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

O mar

O mar

Down there, the Atlantic

Down there, the Atlantic

Este artigo nada tem a ver com o mar, mas nada mais me ocorre quando estou há várias horas a sobrevoá-lo.
Ia escrever uma nova frase quando reflecti melhor porque, de facto, não viajo muito. Desloco-me muito, quase sempre para os mesmos locais, durações curtas e incisivas, bagagem de cabine, rapidez e leveza nas pernas. Não é isto, viajar. E, porque raramente viajo, feita turista, carregada de bagagem e tempo a perder, contamino todos à minha volta com estes hábitos eficientes, embora terríveis para quem não os tem. Ou quem não precisa deles. Sobram para mim as escolhas, os detalhes dos produtos de higiene, as dobras na manga  da camisola, a separação entre o essencial, o acessório e aquilo que gostávamos mas abdicamos.
Viajar é abdicar para conquistar. Abdicar dos que ficam para nos concentrarmos nos que vão, do que temos ou gostamos para ficarmos com o que realmente importa, porque a mala é só uma. Há sempre mais um par de calças ou sapatos. Aqueles que deveriam ter ficado para garantir o lugar dos outros que encontramos e nos deixam a bagagem a ponto de não fechar.
Viajar é perder para ganhar. Perdemos tempo na ida mas conquistamos um outro tempo que não tem preço, aquele que só quem vai conhece, porque voltamos sempre mais do que fomos. Mais abertos ao mundo, tolerantes, capazes de apreciar o que antes não víamos. Porque ainda não havíamos visto. Experientes, repletos de novos sabores, que conhecíamos apenas dos filmes.
Viajar é mais do que isto e começa no momento em que pensamos ir. As escolhas são múltiplas e infindáveis. Já não nos limitamos a comprar um bilhete e uma estadia, levamos daqui um roteiro que esteve nos livros e passou a estar no bolso.

A internet mudou o que fazemos e como fazemos, mudando principalmente a forma como viajamos. Procuro o hotel e quero saber o que dizem os outros sobre as instalações e o pequeno almoço, coloco-me na rua, à porta, para concretizar a sua localização, defino roteiros em função dos locais que quero visitar, sabendo que demoro 10 minutos a pé de um ponto ao outro e selecciono, ao detalhe, onde janto, criando pequenas experiências gourmet que antes eram quase impossíveis. Havia sempre quem pudesse recomendar mas, agora, sei quais são os restaurantes e joints que quero visitar porque os encontro num mapa, com fotografias e descrições. Perde-se na descoberta, no local, ganha-se tempo e a (quase) certeza de que vamos comer bem. Estou a caminho de um daqueles locais com pouca reputação gastronómica, por ter adoptado a gastronomia de outros, criando uma nova, um pouco indiferenciada. Mas estou, sem dúvida, cada vez mais a transformar as minhas viagens - aquelas longas, com tempo e mala de porão - em pequenos roteiros gourmet, para descobrir os detalhes que fazem a diferença. Saboreá-los.

Com o tempo que os turistas têm.

Philly, you got me.

Philly, you got me.

Chapeús há muitos...